Conferência Popular da Glória nº 194

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 02/09/1876

Orador: Joaquim Monteiro Caminhoá

Título: Curso de Botânica Popular II

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras, meus senhores. — Começo pedindo-vos indulgência pela falta que involuntariamente cometi, no dia aprazado não me apresentando para fazer a preleção que estava anunciada; mas foi isso devido a força maior: eu me achava em comissão no ministério da marinha; e, pois, contando com a vossa benevolência, entrarei na matéria.

Prometi na última preleção fazer hoje um resumo histórico da botânica no Brasil, assumpto que, certamente, não encontrareis nos livros de nossa história; porque d'isso bem pouco se cuida ainda entre nós: por ora, posso afirmá-lo nem se sabe com certeza para que servem as ciências naturais; apesar de dever estar, na consciência de todos que ninguém pode hoje ignorar completamente essas ciências que servem de alicerces, por assim dizer, ao principal cabedal instrutivo de qualquer que tenha regular educação!

Como possa parecer que esta minha proposição tem por fim tornar as ciências naturais muito mais necessárias do que na realidade são, apenas referirei dois ou três fatos que servem para justificá-la.

Um d'eles passou-se com a minha humilde pessoa, quando era ainda estudante do quarto ano de medicina, por ocasião da epidemia do cólera, em que me achei com vários colegas nos sertões da província das Alagoas, depois de ter estado em Sergipe, Pernambuco e Bahia. Na vila da Matta-Grande chegámos a ficar sem ter o mais insignificante medicamento em nossa ambulância; porque, sendo grande o número dos indivíduos atacados da epidemia, todos os medicamentos se tinham gasto! Tendo enviado próprios a buscar socorros na capital, eles morrerão em viagem; de maneira que durante três meses pouco mais ou menos tivemos que recorrer aos poucos conhecimentos de botânica e aprender com a gente do povo a conhecer os medicamentos vegetais, até que nos chegaram os que o presidente nos enviou.

Em diferentes comissões cientificas e circum-navegações tem havido a necessidade de encarregar-se a oficiais de marinha o trabalho de ciências naturais, seja por morte dos naturalistas em comissão, seja desde o começo da excursão, como sucedeu com Dumont d’Urville, que aqui esteve entre nós a fazer coleções e a tomar notas dignas de um verdadeiro naturalista consciencioso, o que se pode verificar nos principais herbários da Europa que possuem tipos d'aquela colecção.

O Sr Heurtel, ajudante de ordens do almirante francês em comissão no Oceano Atlântico do Sul, a bordo da fragata francesa Vênus, ocupa-se de conchiologia; e, apesar de ser um modesto naturalista que começa, presta um grande serviço preparando belas colecções para os museus de seu país; tendo além d'isso os deveres inerentes ao seu cargo.

Eu poderia ir mais longe e apresentar outros muitos exemplos, mas pararei aqui, para entrar imediatamente em matéria; porque me parece que não é preciso insistir sobre o ponto que é de verdade intuitiva.

Para fazer um estudo das ciências naturais, e principalmente da botânica no Brasil, dividirei esse estudo em quatro fases: a primeira, dos tempos coloniais; a segunda, da regência e reinado de D. João VI; a terceira, da regência e reinado de D. Pedro I; e a quarta, da época moderna ou atual. Não tendo uma norma para seguir, porque não me consta que alguém se tenha ocupado d’este ponto, entendo que o alvitre que tomo é o melhor.

Durante a fase de sua vida colonial o Brasil esteve muito abaixo do nível intelectual de quase todas as outras colônias, cujas metrópoles se ocupavam mais com os seus progressos.

Enquanto a Europa preparava esquadras para fazer descobertas e exércitos para novas conquistas, as colônias ficaram esquecidas; e vos deveis lembrar, porque a história com eloquência no-lo diz, que foi justamente na época das guerras da África e conquistas das Índias que houve a casual descoberta do Brasil por Cabral em abril de 1500, ou, como querem outros, por Pinson em janeiro d'aquele mesmo ano.

Pois bem, nos tempos coloniais apenas cuidava-se da obtenção dos produtos comerciais lucrativos, em cujo número se achava o pau-brasil.

A extração dos diamantes, do ouro e outros metais preciosos, era a principal preocupação do governo metropolitano.

Mandava-se, como sabeis, os criminosos cumprir sentenças na terra de Santa-Cruz; podeis, portanto, compreender que isso não era de certo o quo nos convinha, principalmente em relação aos progressos das ciências naturais!

O que tez Portugal então, fizeram a França, a Inglaterra, a Holanda e todos os outros países: e, ainda hoje, vós sabeis que a França envia seus condenados mais famigerados para a Nova-Caledônia, a Inglaterra os envia para diferentes pontos de suas possessões africanas e oceânicas, etc.; por consequência não é isso coisa nova, nem merece censura alguma aquele fato em si, porque era muito comum e praticado por todos, repito. Mas também compreendereis perfeitamente, desde que o governo da metrópole se ocupava de assuntos d’esta ordem, que seu fim principal não era certamente mandar estudar ciências naturais entre nós.

Há, porém, uma fase em que por casualidade começou-se a estudar botânica e outros ramos de ciências naturais no Brasil, refiro-me à época da dominação francesa em alguns pontos do Rio de Janeiro.

Quando Villegaignon ocupou a ilhota que tem seu nome ainda hoje, e que jaz no centro de nossa vasta baía, fez vir para sua colônia chamada protestante entre os pastores um denominado João de Lery. Seu nome conquanto não seja dos mais familiares, porque ele foi principalmente um propagandista devotado das ideias protestantes, e não se tornou saliente de um modo brilhante, contudo, tendo noções de ciências naturais, e sendo muito avido de glórias, foi o primeiro que começou a fazer tentativas no sentido de estudar nossas riquezas naturais; e, depois de fazer uma tal ou qual amizade e aliança com os indígenas que povoavam a costa da Baía da Guanabara, pouco a pouco pode penetrar pelo interior de nossas florestas e ir até S. Sebastião.

Há uma obra sua muito curiosa – História de uma viagem na terra do Brasil - publicada em 1586 em Genebra, de que há várias edições, a primeira em latim e as outras em francês dignas de menção.

Ele fez ver duas coisas muito importantes para as ciências naturais em nosso país: a primeira, a natureza admirável do Brasil; e a segunda, a vantagem que a França poderia tirar do conhecimento d’esses produtos e de suas aplicações ao comercio, indústria, etc. Mencionou as principais arvores com seus nomes indígenas, tratou de seus usos medicinais e alimentares desconhecidos na Europa, mas que gozavam de grande nomeada entre os povos aborígenes. Por esse modo fez com que outros tivessem noções dos idiomas d'aquelas tribos, como sucedeu tempos depois aos holandeses quando se assenhorearam das províncias do norte do Brasil, e o príncipe de Nassau tomou conta do d'elas. Governo. Vieram consigo em 1636 dois naturalistas eminentes, um que foi Guilherme Pizon e outro Marcgrave, ambos médicos: o primeiro era holandês de nascimento, e o segundo alemão em serviço do rei da Holanda.

Aqueles naturalistas receberão ordem do governo, a cujo serviço se achavam, para primeiro que tudo percorrerem as costas do Brasil, e as margens dos rios navegáveis; e vós sabeis as dificuldades com que eles lutariam tendo de atravessar regiões desconhecidas e sem recursos, e viajar alguns rios cujas margens erão habitadas por tribos inimicíssimas da raça branca; e compreendeis perfeitamente quanto foi elevado o serviço que prestarão à ciência e a seu país, vencendo todas as dificuldades! o que conseguirão até certo ponto por saberem um pouco da língua tupi, sobre a qual escreverão um vocabulário.

Não é dado a qualquer naturalista (e ainda menos aos brasileiros) ignorar a Historia naturalis Brasilioe d'aqueles dois sábios e fidedignos naturalistas e médicos, nem a sua Historia naturalis et Medica Índice Occidentalis.

Marcgrave, encarregando-se da parte zoológica e Pizon da parte botânica, empreenderam esta cruzada acompanhados de alguns homens intrépidos e de alguns guias que conheciam a língua indígena e por que obtiverão ser acompanhados por caboclos domesticados,

Eles descreveram com uma fidelidade extraordinária nossos vegetais e animais, apresentando desenhos muito exatos, embora pouco perfeitos, das localidades e dos tipos; fizeram observações barométricas e termométricas que se acham nas páginas 9, 10 e 11 do Tratado topográfico e meteorológico do Brasil com a eclipse solar, por Marcgrave. N'este segundo capítulo ele se ocupa - dos ares/temperatura e tempestades nos anos de 1640, 1641 e 1642.

Aprenderam depois com bastante perfeição várias línguas de tribos indígenas, podendo, por esse modo, por si saber pedir e procurar o que precisavam.

N’esse livro precioso Pizon se ocupou do Jaborandy, entrou em moda agora, que há pouco, entre nós, quando já em 1648 se achava descrito e suas diversas espécies, usos e propriedades médicas! Tratou dos venenos e antídotos e de  centenares de outros pontos.

Meus senhores, eu deveria falar de vários indivíduos que, não se tendo ocupado de ciências naturais propriamente ditas, e particularmente de botânica, prestarão serviços a esta ciência; mas entendo que isso fora sair do plano que tracei para expor-vos a matéria.

Assim, por exemplo, poderia lembrar-vos o nome de Christovão Acuña. que em 1639 escreveu alguma cousa em relação às riquezas naturais do Amazonas; de Dampier, simples oficial de marinha inglesa que foi um colecionador por ocasião da viagem da fragata Roebuck; de Ray, que, conquanto distinto botânico inglês, não tendo estado no Brasil, foi, contudo, quem fez a classificação e descrição das plantas colhidas por Dampier, e de vários outros, mas eu iria muito longe.

La Condamine em 1744, depois de ter terminado sua comissão com José Jussieu em Quito e Tarqui, e depois de estudar, as quinas em Loxa, veio pelo Amazonas, embarcando-se em S. Francisco de Borja e tocando em Pauxis e Curaqé até o Pará, d'onde seguiu para Cayenna.

Commerson, sábio naturalista francês, em 1766 foi mandado em comissão, na viagem científica a roda do mundo com Bougainvillè; tocou no Rio de Janeiro e em outros pontos do Brasil, levando uma coleção da Ilha do Governador ou, de Paquetá e de outra ilhas da baia do Rio de Janeiro.

Sir Joseph Banks em 176- também esteve no Brasil por ocasião da primeira viagem do capitão Cook, e fez coleções interessantíssimas, que se acham no herbário do museu do jardim de Kew, em Londres. Por ocasião de sua estada aqui, no Rio de Janeiro, tinha por ajudante o Dr. Solander, botânico sueco.

Domingos Vandelli, botânico, natural de Padua, que residiu por muitos anos era Minas-Geraes, estudou muito nossa flora, principalmente n'aquela província e na do Rio de Janeiro; foi o mestre do botânico brasileiro Velloso. Seus trabalhos foram publicados em 1774 e 1788. D’eles, grande número serviu para a flora fluminensis do dito Velloso

John Reynuld Forster, botânico inglês, em 1775 veio ao Brazil (a Fernando de Noronha), como naturalista a bordo da fragata ingleza Resolution, um dos navios sob as ordens de Cook, por ocasião de sua segunda viagem à roda do globo. Estiveram na mesma ocasião seu filho e seu adjunto Jorge Forster e o Dr. Sparrman.

Houve também nos tempos coloniais um botânico, que foi o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, sobre cujo nascimento houve dúvidas, porque uns diziam que ele nascera na Bahia, outros que em Portugal. Hoje sabe-se positivamente que era baiano, e um professor muito distinto de botânica, que formou-se em Coimbra. O governo da metrópole, depois de ter visto e lido tudo quanto Pizon, Marcgrave e outros tinham referido mandou-o seguir pelo Amazonas até á fronteira do Peru.

Pois bem, Ferreira não só fez isso, como, segundo afirmam alguns historiadores, explorou o rio Madeira, o Teffé e vários outros confluentes do Amazonas (que também há poucos anos acabam de ser explorados como se jamais o tiveram sido).

Ele não só fez os desenhos de todas as localidades, seguindo justamente as pegadas dos que o antecederão, como colecionou nada menos de doze mil plantas, das quais uma grande parte se extraviou e o resto existe no herbário do Museu da Escola Polytechnica em Lisboa.

Frei Leandro do Sacramento, pernambucano de nascimento, também merece ser citado.

São esses os botânicos mais dignos de menção que estudarão a nossa flora durante os tempos coloniais.

ÉPOCA DE D. JOÃO VI.

Por ocasião de começar a ser a península ibérica ameaçada e invadida pelo exército francês, D. João VI resolveu dar a mudar a corte portuguesa para o Brasil; pelo que trouxe consigo pessoal capaz de fazer com que a infeliz colônia pudesse conseguir melhoramentos.

N'essa época houve algum progresso nos diferentes ramos de conhecimentos humanos, e, portanto, nas ciências naturais. Fez-se o Jardim Botânico que, pode-se dizer, era n'aquele tempo mais Jardim Botânico do que é hoje, porque as plantas se achavam ali colecionadas e havia de ordinário, senão um botânico que se ocupasse d’elas, ao menos um prático que entendia da matéria. Fundou-se também o Museu, e fez- se aquisição de tipos para estudos, etc.; mas n'isso se ficou porque só mais tarde houve unia cadeira de botânica na antiga escola militar e no antigo colégio médico fundado por El-rei

Em 1812 o Dr. Bernardino Antônio Gomes, português estudou e descreu diferentes plantas nossas e suas aplicações a medicina e à indústria.

Em 1815 um outro naturalista brasileiro, João da Silva Feijó, publicou aqui no Rio de Janeiro vários trabalhos relativos as plantas do Ceará.

Em 1816 Fréireiss (de Francfort), Sellow, o Príncipe de Neuwied e Sauerland, exploraram nossas florestas, campos e margens de vários rios; fazendo belas coleções que ainda hoje figurão nos herbários europeus.

Por ocasião do consórcio do príncipe D. Pedro de Bragança houve uma feliz circunstância que deu lugar aos progressos d'este ramo das ciências naturais, cujo estudo começamos: foi a vinda de vários botânicos e zoologistas eminentes d Áustria, Baviera e Itália, a fim de estudarem nossa flora e fauna.

Deveria tratar d'essa fase, como na regência e reinado de Pedro 1, por cuja pessoa verdadeiramente foi que aqueles sábios foram mandados estudar nossas riquezas naturais por ter ele esposado a Sra. Arquiduquesa D. Leopoldina d'Austria.

Isso teve lugar em 1817, época brilhante para a botânica no Brasil, mas não do Brasil.

Vieram pix, Martins, Shott, Mikan, Pohl e Raddi; sendo os três primeiros por parte do rei da Baviera, o último por parte do Grão-duque da Toscana, e os outros pelo governo austríaco. Na mesma época se achavam entre nós Augusto St Hilaire e o príncipe Maximiliano de Neuwied; todos os quais, como verdadeiros sacerdotes da ciência, se internaram pelas nossas florestas virgens e estudarão com verdadeira sofreguidão a nossa natureza; chegando até as mais longínquas regiões; de modo que desde as províncias de Mato Grosso, Goiás e Amazonas, até as do litoral grande área foi percorrida e estudada.

A comissão austro-bavara-italiana se ocupava, além da botânica, de zoologia, que era a principal especialidade do Dr. Spix. O Dr. Alartius e ele estudaram também as línguas indígenas; de fôrma que puderam prestar um valioso contingente paia a confecção d'um dicionário das línguas dos aborígenes do Brasil.

ÉPOCA DA REGÊNCIA E REINADO DE D. PEDRO I.

Mais tarde, principalmente quando teve por ministro José Bonifácio de Andrade, que era naturalista e professor em Coimbra, as ciências naturais fizeram algum progresso também entre nós. Os botânicos que figurão n'essa época são os que vão mencionados na relação que lerei depois.

ÉPOCA ATUAL.

Depois de D. Pedro 1 eu deveria mencionar os botânicos que têm concorrido para os progressos da época cientifica atual; mas, como entendo que não se deve erigir monumentos aos vivos, me limitarei apenas a citar dois nomes venerandos conhecidos em todo o país, e mesmo na Europa, e que dos tempos modernos são os únicos que merecem ser citados como botânicos propriamente tais. Um, o Dr. Custodio (vulgarmente conhecido por Frei Custodio) Alves Serrão, que morreu há poucos anos paupérrimo em uma choupana na Gávea, esquecido quase completamente; e que fora diretor do Jardim Botânico, sem ter sequer os elementos indispensáveis até para o trabalho de asseio e conservação do estabelecimento! Davam-lhe um número limitadíssimo de trabalhadores que, além de tudo, mal sabiam um pouco amainar a terra, e tudo mais se lhe negava.

Que contraste com a época atual em que o Jardim Botânico só o é de nome, e despende boas somas! Tendo deixado o jardim bem classificado e muito aumentado, retirou-se desgostosíssimo para a Gávea, tendo pedido demissão ao governo, como antes já o havia feito da diretoria do Museu.

Ele jubilou-se depois de ter bem cumprido seus deveres na escola central, onde professara a cadeira de química.

O segundo nome é o de Freire Alemão, que há bem pouco desapareceu do mundo, e cuja vida foi modesta e cheia de glórias que não ofuscam, mas engrandecem e honram, e cuja alma cândida estava de acordo com as puras e honradas cans que lhe cobriam a cabeça.

Seu nome abençoado de seus discípulos e conhecido dos sábios estrangeiros é um talismã que anima ao estudo mesmo aqueles que tem certeza de nada conseguir por esse meio.

RELAÇÃO POR ORDEM CRONOLÓGICA DOS BOTÂNICOS E PRINCIPAIS COLECIONADORES QUE TEM VINDO AO BRASIL DESDE A SUA DESCOBERTA ATÉ O ANO DE 1845

1

João de Leri..............................................................................1557 Francês

2

Pizon ........................................................................................1636 Holandês

3

Dampier……………………………………………………………1699 Inglês

4

La Condamine…………………………………………………….1743 Francês

5

Sir Joseph Bancks………………………………………………….1768 Inglês

Adjunto: Dr. Solander.................................................................1768 Inglês

6

Vandelli....................................................................................... 1774 Italiano.

7

João Reynold Forster................................................................. 1775 Inglês.

Adjunto: Jorge Forster, seu filho................................................

Adjunto: Dr. André Sparrmann............................................................Sueco.

8

Dr. Alex Rodrig. Ferreira ......................................................... 1783 Brasileiro que

se achava em Portugal

9

Bernardino Antônio Gomes................................................... Português

10

Siebe………………………………………………………………. 1790 Alemão

11

Allan Cunningham...................................................................1814 Inglês

Adjunto: James Bowie....................................................................Inglês

12

João da Silva Feijó (por erro conhecido....................................1815 Português

pelo nome Freijo)                                                                (embora nascido no Brasil)

                                                                                                                               

13

Príncipe Maximiliano de Neuwied...............................................1815 Alemão

Adjunto: Sellow

Adjunto: Freireyss (de Francfort).

14

Chamisso....................................................................................1816 Russo

Adjunto: Eschscholz................................................................... Alemão

Adjunto: Wormskiold ..................................................................Dinamarquês

15

Aug. St. Hilaire ........................................................................... 1816 Francês

16

Gaudichaud ................................................................1817-1832-1836 Francês

17

Dr. Martius................................................................................. 1817 Bávaro

18

Mikan.......................................................................................1817 Austríaco

19

Schott .....................................................................................1817 Austríaco

20

Dr. Pohl ................................................................................. 1817 Austríaco

21

Raddi ...................................................................................... 1817 Italiano

22

Von Olfers ...............................................................................1817 Alemão

23

Landsdorft ................................................................................1820 (?) Russo

24

Riédel .......................................................................................1821 Russo

25

Jorge Donn .................................................................................1822 (?) Inglês

26

Forbes (João) ............................................................................1822 Inglês

27

Dumont d'Urville ........................................................................1822 Inglês

28

Dr. Scouler .....................................................................................1824 Inglês

29

David Douglas ................................................................................1824 Inglês

30

Lay ..................................................................................................1825 Inglês

31

Burchell …………………………………………………………….…… 1825 Inglês

32

D’Orbigny ...................................................................................... 1826 Francês

33

Dr. Badaro (J. B.) …………………………………………………….. 1827 Genovês

34

Cláudio Gay ………………………………………………………….. 1828 Francês

35

Anderson …………………………………………………….…………..1829 Inglês

36

Poeppig ...........................................................................................1831 Alemão

37

Vauthier ………………………………………………………………... 1828 Francez.


38

Eydoux …………………………………………………………………. 1832 Francês

39

Dupré (geologista e botânico) .......................................................1833 Francês

40

Arsenio Isabelle .............................................................................1833 Francês

41

Jorge Gardner ...............................................................................1836 Inglês

42

Barão Karwinski .............................................................................. (?) Bávaro

43

Dr. Hombron ................................................................................ 1837 Francês

44

Twedie ........................................................................................ 1837 (?) Inglês

45

Guillemin ......................................................................................1838 Francês

Adjunto: Houlet .....................................................................................Francês

46

Claussen (que esteve 20 anos no Brasil) em 1842 mandou uma grande coleção

.........................................................................................................Suiço (?)

47

Weddel ...................................................................................1843 Francês

48

Dr. Regnell .............................................................................. 1843 Suíço

49

Salzmann ................................................................................ 1844 Suíço (?)

50

Blanchet ..................................................................................1844 Francês

Além d’esses vários outros têm vindo ao Brasil depois d’isso, mas, por falta de tempo e de documentos não pude ainda colecionar seus nomes; e como preparo um trabalho detalhado sobre a história da botânica no Brasil, guardo-me para então dar desenvolvimento e completar este esboço histórico.

RELAÇÃO DOS PRINCIPAIS NAVIOS QUE VIERAM AO BRASIL, TRAZENDO BOTÂNICOS, NATURALISTAS OU COLECIONADORES

1

Roebuck, navio inglês, que veio ao Brasil em comissão científica em 1699. Seu comandante, Guilherme Dampier, colecionou inúmeras plantas cuja relação foi feita pelo grande naturalista inglês Ray.

2

Nau inglesa Endeavour (1ª viagem do capitão Cook), 1769. Esteve no Rio de Janeiro. Naturalista Sir Joseph Banks, adjunto Dr. Solander.

3

Nau inglesa Resolution (2ª viagem do capitão Cook), 1775. Esteve em Fernando de Noronha. Naturalista João Reynold Forster, tendo como seus companheiros de trabalho seu filho Jorge Forster e o Dr. André Sparrmann.

4

Rurick (russa), 1816. Esteve em Santa Catarina. O naturalista que veio a seu bordo foi Chamisso, e seu adjunto o Dr. Eschscholz.

5

Corveta francesa Uranie, 1817. Esteve como naturalista Gaudichaud no Rio de Janeiro.

6

Corveta francesa La Coquille. Esteve em Santa Catarina em 1822. Era seu naturalista colecionador Dumont d'Urville.

7

Nau inglesa Blosson. Esteve em 1825 e em 1828 no Rio de Janeiro. O naturalista n'aquela viagem foi Lay:

8

Naus inglesas Adventure e Béagle. Estiveram em 1829 m Rio de Janeiro. Era o naturalista J. Anderson.

9

Fragata francesa Herminie. Esteve no Rio de Janeiro em 1832 O naturalista da comissão foi Gaudichaud.

10

Corveta francesa La Favorite. Esteve em 1832 no Rio de Janeiro. O naturalista foi o Sr. Eydoux.

11

Corveta francesa La Bonite. Esteve em 1836 no Rio de Janeiro. Naturalista Gaudichaud.

12

As corvetas Astrolabe e Zelée. Estiveram no Rio de Janeiro em 1837. Dumont d'Urville foi o naturalista colecionador.

13

Fragata francesa La Venus. Esteve em 1837 no Rio de Janeiro. Naturalista colecionador, Du Petit-Thouars.


Permiti que eu entre agora na segunda parte do programa, isto é, que trate em geral das diferentes partes de que se compõe o vegetal, seus nomes e usos, para depois entrar em particular no estudo de cada um d’esses órgãos, para cuja compreensão darei primeiramente noções resumidas acerca das distinções entre os principais tipos dos seres criados.

Meus senhores, visto haver tempo bastante ainda, antes de começar o estudo da botânica em particular, consenti-me que vos mostre praticamente que não é hoje mais aceitável a divisão dos reinos da natureza em três, como geralmente se diz; para isso vou apresentar-vos exemplos que vos trarão à convicção.

Devereis sem dúvida conhecer o aforismo de Linneu:

“Os minerais crescem, os vegetais crescem e vivem, os animais crescem vivem e sente”. O naturalista baseado nos princípios da ciência, interpretar pode a natureza; mas toda a vez que ele pretende traçar limites positivos entre os diferentes seres que a compõem, naufraga.

Assim sucedeu aos que estabeleceram definitiva e absolutamente que o vegetal não tem locomoção própria, enquanto que o animal a tem; que o vegetal tem celulose, e o animal não; que o vegetal respira, fixando carbono, e desprendendo oxigênio, o animal, ao contrário, fixa oxigênio e expira ácido carbônico, etc.

Tudo isso é uma verdade em geral; porém não são pouco os vegetais que respiram como os animais: as ascidias têm celulose ou substância análoga em sua túnica, etc.

Dizem outros: o vegetal tem lenho, o animal não tem. Contra isso lembraremos que há milhares de vegetais celulares que não têm lenho portanto. Quanto às suas formas, modo de viver, etc, direi a mesma cousa. Não é possível traçar uma verdadeira linha divisória para cada reino, quanto mais, como pretendeu alguém, traçar os limites que separam o homem dos animais superiores.

Houve quem tivesse a veleidade de admitir em ciências naturais o regnum hominale, ou reino nominal, cujo ser único apenas é gênero homem! Abaixo d'ele estaria o reino animal, seguindo-se o vegetai e depois o mineral; de modo que haveria verdadeira separação décima para baixo, até que os ínfimos não se podiam parecer em cousa alguma com os primeiros, nem entrar no mesmo reino!

Com o estudo das Campanularias e d'outros animais que passam por duas e três gerações para reproduzirem o ser d'onde se originarão, e com o conhecimento de factos que demonstram que há seres que vivem a princípio como verdadeiros animais, passando depois a ser planta, pretenderam criar - o reino intermediário, ou reino dos seres ambíguos!

Depois da descoberta do microscópio, como já vos fiz ver, o estudo do mundo dos infinitamente pequenos ou dos microcosmos, como os denominam alguns naturalistas, fez-se a luz para a resolução de diversos problemas que hoje servem para nos convencer de que aqueles que pensavam ser entes quase divinos sob o ponto de vista material e na escala dos seres criados não tinham razão; e que, apesar de nossa vaidade, somos na escala zoológica o tipo logo acima dos quadrúmanos ou macacos.

Por ora nos limitamos apenas a mostrar as diferenças entre animais e vegetais, e a fazer o paralelo entre eles, paralelo que justifica a opinião dos que dizem que a natureza criou uma série não interrompida de seres desde o vegetal até o homem!

Aqui temos n'este desenho representado a Flabellaria Raquetta, que, sendo verde e tendo completamente a fôrma e porte de uma planta, é um animal; aqui temos outro da chamada Clavicularia verde; e me quer parecer que basta olhá-lo com atenção para que ninguém possa ser capaz pelo aspecto, pelo modo da sua contextura, etc., convencer-se que na realidade é também animal! Temos ali os Vorticellos, que são animais celulares de uma organização especial; e como ele vários outros que acham-se em condições e circunstâncias idênticas.

Os Vibriões, que são de igual modo animálculos infinitamente pequenos, como aqueles ou ainda mais, e que estão aumentadíssimos aqui (pouco mais ou menos um milhão e quinhentas mil vezes), como vêdes, e que são ainda exclusivamente formados de células ovais ou apresentando forma de hastes, em nada parecem animais. Sua vida é toda vegetativa.

Temos neste desenho também representada a Euglena verde que, como vêdes, parece mais um fruto do que um animal; está aumentado como os precedentes. Esse corpo ou apêndice que ali vedes é o chamado cilio vibrátil, graças ao qual ela move-se quando quer, de um lado para o outro. É uma verdadeira célula tendo vários núcleos e nucléolos.

Temos aqui um outro tipo de animal, que consta de uma célula somente munida de dois pelos ou celhos vibráteis, graças aos movimentos dos quais faz-se neles a locomoção. Chama-se protozoário (que quer dizer animal primeiro), por sua simplicidade e colocação na escala zoológica.

Temos, enfim, o Monadio lentilha, que ainda é um animal, tendo uma porção de núcleos no seu interior, e tendo um pequeno cabelo que por sua semelhança com os pelos da pestana é chamado cílio, com o qual executa sua locomoção de um lado para outro, como ficou dito em relação aos precedentes tipos.

Vedes, finalmente, n'estas outras figuras representadas outros tantos exemplos.

Agora que já vimos todos estes animais celulares, vejamos outros seres que nos sirvam para demonstrar que pela fôrma pelos movimentos e por outros caracteres inteiramente semelhantes que alguns naturalistas apontam como distintivos da animalidade, não se pôde chegar a uma conclusão exata e rigorosa, relativamente à distinção dos seres naturais em três reinos distintos.

Temos aqui uma planta muito curiosa; ela é formada por uma vesícula esférica inteiramente semelhante ao anima que vos disse ser um Volvoce; é o Protococcos nivalis (ou Protococo da neve). Essa vesícula apresenta em seu interior uma substância gelatinosa de cor vermelha; em tudo mais e idêntica aquele Volvoce, cuja cor é verde. Foi classificada esta plantinha microscópica a princípio como um animal, porque tem locomoção e se reproduz de modo idêntico ao outro ser com que a comparo.

Temos aqui n'est'outra figura, meus senhores, um vegetal que é uma alga, ou planta marinha (que o povo chama sarqaço molle) na sua primeira fase vegetativa, e que pôde ser denominada uma semente de alga. Como vedes, é também uma célula; tem uma quantidade imensa de pelos ou cílios, graças aos quais se move quando tem necessidade, e fá-lo com grande vivacidade.

Esse vegetal pôde muito facilmente ser estudado; basta para isso tomar-se um fragmento fértil d'essa alga na ocasião em que vai começar a reprodução, e colocá-lo com água num pequeno vidro de relógio ou n'um pequeno vidro próprio para o estudo microscópico em líquidos. Vê-se que da planta se desprendem uns corpúsculos denominados espórulos, que sobem à tona d'agua, e, ao cabo de pouco tempo, entram em movimento!

Se porventura com a vista armada de microscópio estudardes estes seres, vereis que, nascendo de uma alga, a respeito da qual não há a menor dúvida de que é um vegetal, seu germen goza da propriedade animal havida como típica: - locomoção.

Estes outros desenhos que servirão mais particularmente na próxima preleção, demonstram e confirmam eloquentemente o que acabo de referir.

Temos aqui a Gorgonia laxa, que se confunde com certos sargaços ou plantas do mar, mas que é destituída de animalidade. Inúmeros outros exemplos poderia apontar-vos.

Não devo perder a oportunidade de pedir vossa atenção para a circunstância especial de serem todos esses animálculos e pequenos vegetais puramente celulares; porque isto serve para mostrar-vos a importância do estudo da célula, assunto que servirá para uma conferência.

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Passemos agora em poucas palavras a mencionar as principais partes de que se compõe um vegetal comum. Tomemos uma grande arvore, uma jaqueira, por exemplo. Seu tronco se continua com uma parte que fica debaixo da terra, e que limita-se com a raiz, e outra que está fora do solo, imensa na atmosfera.

Dir-se-ia que isso é tão comezinho que até faz rir! Não tenho a pretensão de tratar de tais assuntos como de coisas novas! Mas dir-vos-ei que, apesar de ser uma coisa tão comezinha pelo menos na aparência, ides ver um pouco que não é sempre na realidade.

O caule vive ordinariamente acima da superfície da terra, e a raiz abaixo.

Basta que por ora vos lembreis d’isso, e que não esqueçais que a parte que fica entre o caule e a raiz chama-se colo da planta.

Se cortássemos todos os galhos e ramos de uma arvore teríamos uma figura que representa dois cones reunidos por sua base; sendo o colo a superfície ou linha de reunião deles, como se vê d’esta figura que aqui fiz.

Pode-se traçar uma linha imaginária que passe pelo centro do caule e que vá da extremidade da raiz ao ponto culminante ou cimo da arvore. A essa linha chamarão os botânicos eixo da planta ou axophyto. (Esta palavra é justamente composta, de duas gregas, que significam: eixo da planta). Pois bem, evitemos o grego, e empreguemos a frase portuguesa.

O eixo da planta, divide-se em duas partes, uma ascendente (que se dirige para cima), e outra descendente (que segue a direção inversa); isto é, que busca o seio da terra ou do solo. O colo ou linha intermediária entre a parte ascendente e a descendente algumas vezes existe na realidade, como se vê em uma planta dos pântanos de diferentes países, e também do nosso, denominada Zanichelia dos pântanos (Zanichelia palustris dos botânicos) Outras vezes não existe realmente, e é apenas convencional ou imaginário. E indispensável admitir-se essa pane, porque d'ela realmente nascem, seguindo direções opostas, os diferentes órgãos que constituem o caule e a raiz.

Como em tudo quanto fez a natureza, há no caule tipos intermediários entre dois que se comparo; assim, por exemplo, no bambu, na grama, na araruta e em muitas outras plantas há um órgão que vive debaixo da terra como as raízes, cuja composição e funções são idênticas às dos caules aéreos nos caules propriamente ditos São esses os chamados rhysomas pelos naturalistas.

O rhysoma, pois, nada mais é do que um caule subterrâneo, quase sempre horizontal, é tendo de distância em distância olhos ou rebentões que se desenvolvem cada ano.

Relativamente às suas funções, a raiz serve para dois fins: um d'eles (que é o principal) é tirar do seio da terra os princípios nutritivos para vida, crescimento e reprodução da planta de que faz parte; e o segundo é fixar essa mesma planta ao solo.

Na. grande maioria dos casos há uma proporção maior ou menor entre a raiz e o caule.

De ordinário em uma mangueira, jaqueira, ou qualquer outra arvore as raízes são tanto mais crescidas quanto mais desenvolvida é a coma ou cimo da mesma. Outras vezes (muito mais raras) sucede o contrário; vê-se uma grande palmeira de uma altura imensa, cujas raízes são pequeníssimas; tanto assim que em lugares onde há grandes tufões estes vegetais são facilmente derribados: sendo isso menos fácil quando novas raízes se formam para vir em socorro da planta: são as raízes chamadas adventícias, de que me ocuparei mais tarde, e que representam o mesmo papel que as enxarcias nos mastros das embarcações.

Ha plantas que não têm quase raízes, e outras que não têm quase caules. Chamam-se as primeiras plantas arhizes (de duas palavras gregas que significam sem raízes), e as outras, plantas acauleas (nome igualmente originado do grego, e que significa sem caule); mas em rigor não se pode considerar assim; salvo em referência a certo grupo de plantas (chamadas pelos botânicos acotylledoneas cellulares), como algumas das que se acham nos desenhos que vedes; como algas ou sargaços, musgos, cogumelos e poucas outras, que oferecem prolongamentos em forma de raiz, e que preenchem o mesmo fim d'aquelas quanto ao fixarem a planta. Mas n'estas plantas não há necessidade de raízes, porque elas se acham de ordinário em lugares excessivamente úmidos ou em líquidos que contêm dissolvidos os princípios necessários à sua nutrição, e que atravessam, suas paredes em virtude de uma força física especial, chamada osmose, de maneira que podem dispensar as raízes propriamente ditas.

Quanto ao caule, ou haste póde-se dizer o mesmo.

As plantas que não necessitam respirar um ar mais puro, e que demandam mais ácido carbônico do que as outras, conservam-se com seus caules curtos, ou rasteiros: outras vezes, como sucede com o açafrão, quase não têm caule.

Este órgão é destinado a levar os princípios que as raízes tiram do seio do solo até as extremidades ou aos órgãos verdes, onde se executa uma função muito notável, de que me ocuparei depois; serve também para conservar durante o inverno os sucos nutritivos, e os germens das flores; frutos que se desenvolvem na estação quente, etc.

Em relação à folha, todos sabem que é uma expansão verde mais ou menos plana e membranosa que constitui o que se chama copa ou cimo das arvores.

Elas podem nascer diretamente do caule, ou, o que é mais constante, dos ramos, ramusculos e raminhos.

Uma folha consta do ápice ou ponto oposto ao da inserção com o tronco; uma base que fica do lado do ponto de inserção; uma lâmina interior e outra superior; um bordo, nervuras, e venulas.

Na página ou lâmina inferior da folha (que é a parte plana que olha para o solo) há muitos corpúsculos especiais chamados stomas ou stomatas (palavra originada do grego e que quer dizer boca pela semelhança que oferecem com uma boca). Esses corpúsculos prestam um serviço muito relevante aos animais.

O Sr. Zimnermann, ocupando-se das folhas, com muita razão disse que, de todos os órgãos da planta, eram os mais necessários à vida, porque sem elas nas primeiras fases geológicas fora impossível o aparecimento dos animais, na superfície da terra, pois a atmosfera então achava-se impregnadíssima de ácido-carbônico, que mais tarde e gradualmente foi fixado pelas folhas, as quais, em troca, lançaram milhões de metros cúbicos de oxigênio; e por esse modo, ao cabo de certo tempo, aquele ambiente envenenador ou mefítico se tornou apto a permitir a respiração dos animais, e, portanto, a vida!

A folha, pois, é a parte do vegetal mais digna de estudo; além d'isso, conhecida ela, temos conhecido os órgãos chamados de reprodução tais como flores, frutos e sementes.

Quereis convencer-vos da importância das folhas na vegetação?

Pois bem, é ela que, se modificando, dá origem a todos os demais órgãos que aparecem depois sobre o eixo do vegetal.

Essa verdade já tinha sido anunciada pelo grande Goethe, o poeta naturalista que sustentava que, o princípio das flores e das folhas é o mesmo. St. Hilaire depois d'ele, e alguns, mas, puderam demonstrar a verdade d’aquele aforismo, oferecendo grande número de provas tiradas da natureza!

Do mesmo modo que podem haver plantas quase sem raízes e sem caule, também as há sem folhas ou quase sem elas, como sucede nos cardos, onde são modificadas completamente e muita vez transformadas em espinhos; nesse caso o caule é verde ou herbáceo e preenche as funções das folhas.

A flor é tão conhecida por toda a gente, que não careço absortamente dizer o que seja.

Todos sabem que ela compõe-se de envoltórios, vulgarmente denominados falhas da flor ou pétalas, e de pequenos órgãos mais ou menos filamentosos que estão situados no seu centro, e de alguns dos quais desprende-se um pó, quase sempre de cor amarela.

Esses órgãos são destinados à reprodução da espécie, são os chamados – órgãos sexuais — pela analogia de funções com os equivalentes dos animais.

Já vedes, pois, que em uma flor há órgãos de proteção e órgãos de reprodução. Os indispensáveis já sabeis que são os que citamos em último lugar, porque eles garantem a progênie.

Dos órgãos de proteção há uns mais externos, de cor verde quase sempre, chamados sepalos ou sepalas, cuja reunião constitui o cálice, nome que lhe foi dado pela semelhança que oferecem muitos com um cálice, ou patera romana.

Os outros, que ficam por dentro d'este e que oferecem ordinariamente lindas cores e fôrmas graciosas, chamam-se pétalas ou petalos, cuja reunião constitui a corolla. Esta, por assim dizer, e o ninho dos estames ou corpos filamentosos que se acham em seu interior, e que, vos disse, representam os órgãos masculinos da planta, eles rodeiam um ou muitos outros mais centrais denominados pestillos ou carpellas, que são a noiva, ou noivas, ou órgãos femininos da planta.

Quão sabiamente a natureza dispões esses órgãos! Por fora o cálice, que resiste facilmente às intempéries e que protege as delicadas, aveludadas e aromáticas pétalas, cuja reunião constitui a corolla, que, como disse, envolve e protege os órgãos que se destinam à reprodução. D’esses os que representam o ser masculino acham-se por fora, defendendo o mais interessante e delicado (carpella ou pistillo), que se encarrega de formar e alimentar o produto da concepção, como sucede com os animais.

As cores das pétalas atraem os insetos, que não poucas vezes são portadores do polen ou fecundante dos estames que o enviam a suas noivas, quando habitam outras flores, o que sucede muitas vezes.

Depois do casamento das flores ou de sua fecundação, aparece o fruto, em cujo interior a semente se cria e desenvolve.

É a esta semente que compete um papel interessantíssimo. Ela é o ovo vegetal, que, como o das aves, dá lugar ao nascimento de um novo ser idêntico aos pais!

No interior da semente propriamente dita há um ou dois corpos de fôrmas variáveis, denominados cotylédones, que apresentam uma cavidade muito pequena onde se acha alojado o chamado gemen ou plantula, que nada mais é do que o pequeno ser que mais tarde vai reproduzir a planta mãe, da qual é a miniatura.

A cotylédone é um órgão constante nas plantas: ela preenche fins admiráveis, pelo que não podemos deixar de pedir-vos que conserveis seu nome (que vem do grego e quer dizer caixa, estojo, ou melhor cavidade).

A plântula (que é diminutivo da palavra planta) pode ser dividida em três partes: uma que é a raiz, ou melhor a radícula; o caule (ou clauliculo), e outra, a gemmula (palavra que quer dizer pequeno renovo ou broto da planta).

Embora muito sucintamente e como convém, tenho-vos feito conhecer os principais órgãos da planta e seus fins na vegetação; guardando-me para voltar de novo ao estudo em particular de cada um deles

Me parece que, do mesmo modo que nos grandes poemas clássicos, antes de cada canto se apresenta o argumento, ou resumo dos principais assuntos, para predispor os leitores, assim também se deve praticar antes de começar o maior dos poemas – o estudo da natureza.

Minhas senhoras, meus senhores – Não é verdade que todo aquele que, tendo alguma inteligência, estudar as leis inimitáveis da criação, e que souber compreender suas belezas, sua harmonia, seus fins, não pode ter um coração irascível, não pode experimentar sentimentos impuros?!

Perguntai à viúva, à orfãzinha e à chorosa mãe porque espalhou flores sobre o tumulo querido do ser que se finou, porque a noiva adora sua grinalda de flores de laranjeira, porque não há festins sem flores, porque se adornam enfim os altares com fragrantes ramalhetes?! Eles não vos poderão talvez dar a razão d’isso, mas é porque sentem que as flores simbolizam os sentimentos mais puros e mais castos de nossos corações! E porque elas são o verbo gracioso e sublime com que a natureza entoa seus hinos; são o turibulo que se agita movido pelas mãos das brisas ante o templo grandioso da criação!!

E podereis resistir agora a esse natural desejo de conhecer a vida intima das plantas e todas as outras maravilhas que a botânica, verdadeira sacerdotisa do templo da natureza, vos pode explicar? Podereis continuar a olhar para uma bela flor sem procurar conhecer sua história, sua pátria, seus amores, e os benefícios que têm feito à humanidade?!

Dizei francamente agora, não é verdade que n’estes seres que vos pareciam tão sem interesse há poemas harmônicos que extasiam e que elevam nosso espírito a regiões místicas?! Não é verdade que aqueles que conhecem os segredos das plantas não carecem dos homens para ser felizes; para curvar-se submissos ante a grandeza de um Ser admiravelmente sábio e inspirador?!

As plantas, por isso que acabais de ouvir, e por muito mais que sabereis mais tarde, abrandam os costumes, convidam à oração, e aproximam o homem de Deus; mas de um modo muito diferente daquele que a crença pura, mas sem a convicção profunda poderia fazê-lo?

Os poemas que se baseiam no estudo da natureza são, como a própria natureza, símplices e admiráveis: elevam o coração e a inteligência até o arroubo! Deixai que digam que o naturalista é materialista, porque em nossas consciências bem sabemos que não!!

O estudo dos seres criados nos leva ao estudo do Criador. O que separa o naturalista do teólogo puro é principalmente modo de compreender a obra grandiosa do Ser Supremo. O primeiro como o segundo ama-o e se abraça com Ele e pasma ante a perfeição da criação em sua simplicidade sublime e harmonia de suas leis criando o homem com a mesma facilidade que de uma célula criou a planta; o segundo fazendo-se preparar o universo com tudo quanto o homem pode precisar, e ocupa-se cada dia de uma cousa, destinada somente ao nosso bem estar!"

(Aplausos do auditório; o orador é cumprimentado.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº9, set.1876, pp. 03-29 (na integra). Capturado em 12 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/949

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 194. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=774

 


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Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)