Conferência Popular da Glória nº 195

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: <03/09/1876

Orador: Rodrigo Otávio

Título: Kosciusko

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras, meus senhores. – Subo a esta tribuna, que reconheço superior aos meus méritos (não apoiados), em obediência ao gracioso pedido de uma ilustre compatriota nossa.

Feita esta declaração que julgo diamantino escudo a broquelar-me as fraquezas, justificação forçosa do cometimento não cogitado, desculpai a palidez das flores que vos ofereço em estação, como esta, rica de tantas grandezas.

Na verdade: a estação em que entramos, marco que alumia um futuro que deve ser trabalhoso e denuncia os desfalecimentos, senão erros gravíssimos do passado, oferece campo vasto para explorações utilíssimas.

Olhando além das fronteiras pátrias, a humanidade, nas constantes evoluções do pensamento, mostra-se preocupada com problemas, cada qual mais digno de ser desenvolvido nesta tribuna.

Limitando o círculo, contemplando o estado das coisas que constituem a pátria brasileira, encontramos aí campo imenso, onde o dever manda ferir mais de uma batalha.

O resultado a que chegou a ilustre comissão de estatística assinÁ-la, senhores (doloroso é dizê-lo), assiná-la a mais desastrada derrota que n’esta hora adiantada do século XIX pode sofrer um povo! (Apoiados)

Espetáculo desolador!

No vasto campo erguem-se apenas os colossais destroços, monumentos vivos da ignorância, diante dos quais a civilização recua cheia de surpresa e encanto!

Não nos domine, porém, o desanimo!

Deus que nos deu esta terra grande e vasta, é porque somos dignos d'ela.

Querer é poder.

Queiramos; e a necrópole de hoje escura e feia, será em breve o empório fulgente e belo das letras! (Apoiados!)

Esforço obrigatório, é dever santo e intransferível o fazermos convergir para aí toda a preocupação de nossos espíritos.

Dominado por este sentimento, devera hoje, senhores, por diminuto que fosse, empenhar-me em qualquer trabalho atinente ao desenvolvimento da instrução em nossa terra.

Mas, como os confessei, subo a esta tribuna em obediência a uma grata imposição.

Estranho, talvez, ao pensamento que anima estas conferências, o assunto que terei de desenvolver prende-se por laços íntimos a um grande acontecimento da atualidade; à terrível tragédia que desenvolve suas cenas de sangue e horror sobre as montanhas dos Balcãs.

Aí, em pé, em frente um do outro, batem-se em duelo de morte, embora desiguais as forças, o princípio santo da nacionalidade e o direito da conquista; o turco a inspirar-se no barbarismo de uma história, que só consagra as epopeias do ódio, e o eslavo a proclamar o século, a humanidade e seus direitos!

Foi ao cântico místico dos bosques sombrios da Lituânia que se embalou o berço de Kosciusko.

Os lituânios eram eslavos; e os polacos; chamavam-se também os eslavos da planície.

Eis a razão porque vos disse que um laço íntimo, o espírito de uma nacionalidade pujante, prendia o grande acontecimento da atualidade ao assunto desta conferência.

Lituânio, eslavo, Kosciusko fora a alma da Polônia, guerreiro sagrado das aspirações das raças eslavas.

Senhores, é talvez pouco, muito pouco, para um auditório, como vós, a ligeira notícia com que vos ocuparei a atenção.

Mas, de parte os grandes agentes da moral e da escola, e que educa com mais força, o que ilustra com mais persuasão do que o ensinamento do exemplo, o conhecimento das altas virtudes que assinalam os membros distintos da humanidade?

Nascido, e até certo tempo educado no meio dos bosques imensos da Lituânia, o espírito do jovem Thadeu Kosciusko apropriou-se das influências místicas e sonhadoras aspirações do torrão natal.

Seu pai militar sem carreira, fidalgo e pobre, passava a vida no remanso da administração rural, tendo apenas uma paixão, a música.

Impaciente, impelido talvez pelo anjo que, no livro dos destinos escrevera o seu, Kosciusko tinha impetuosidade que se assimilavam ao bater das ventanias nas arvores dos bosques pátrios.

Esgotados os conhecimentos do desenho, matemáticas e francês que lhe transmitira um velho tio, o estudo dos homens ilustres de Plutarco era a preocupação dileta de seu espírito.

Em 1767, aos 21 anos de idade, abandonando a solidão em que vivera, matriculou-se na Escola dos Cadetes de Varsóvia, criação recente do rei de triste memória, Stanislau Augusto.

Já eram n’essa época calamitosos e núncios de desgraças os tempos que corriam para a pobre Polônia.

Coração heroico, espírito superior, grande, qual depois se revelou, Kosciusko compreendeu as necessidades da pátria e correu ao encontro d'elas.

Vergado sobre a mesa do estudo, seu sono começava ao desmaiar das estrelas e seu acordar seguia de perto o trinado alegre do passarinho pousado nas arvores vizinhas.

Os gênios são os profetas de si mesmos.

Em 1770 alcançava ele o prêmio escolar destinado aos vencedores, que o habilitou a completar nos países mais cultos da Europa os estudos tão brilhantemente concluídos em Varsóvia.

A França, o país que com mais vantagem podia-lhe oferecer as lições de que precisava; a França que pelo desenvolvimento de sua filosofia se constituíra o pontificado da humanidade, foi o país que Kosciusko escolhera para mestre.

É supérfluo dizer que o jovem polaco, o futuro herói de feitos legendários, não iludiu a expectativa da pátria que o enviara.

Não se perdera no doce labirinto dos prazeres; não se enobrecera nunca, ocultando ou desdenhando o nome da pátria!...

Estava ele ainda em Paris, quando se consumou o primeiro atentado, inaudito, incrível perante o progresso e a história, prenuncio escuro da grande desgraça da grande Polônia! D’esta época em diante a história do povo mártir se confunde com a do seu esforçado herói, permitireis, pois, que arranque da verdade da história algumas páginas.

A Polônia! Nome cuja pronúncia acorda nos corações os ecos ainda vivos de uma dor eterna e de uma simpatia delirante; a Polônia tão maltratada por destinos tão ásperos; vítima sacrificada aos direitos da brutalidade e da ambição; a Polônia, desconhecida e desprezada dos povos, tinha direito não simplesmente aos movimentos estéreis de sincera simpatia, mas direito sagrado aos respeitos e profunda veneração d’esses povos!

Diante dos muros de Vienna, heroica e nobre, abatendo a invasão do turbante indomado e fero, ela se constituíra a benemérita das nações.

A não ser o esforço sublime do Sobieski, o ilustre e seus soldados, o que seria da nascente civilização do ocidente e consequentemente do mundo? Pensai um momento sobre as consequências d'esse facto.

Pois bem: a Polônia que, no congresso dos povos, vê o seu lado apenas a nobre França a escrever na história uma data memorável, a ressureição do homem a Polonia foi vil e miseravelmente sacrificada a caprichos que a razão estigmatiza e mal compreende.

Em 1573, cansada das lutas, estéreis de estéreis sucessões, a pátria de Kosciusko proclamou-se em república, ou melhormente em monarquia eletiva.

N’essa ocasião sua constituição que consistia apenas em editos guardadas na memória do povo, passou a ser um código escrito, onde por fatal desgraça lançou o gênio do mal as sementes da anarquia em que mais tarde devia esfacelar-se a grande nação.

É digna de estudo e meditação essa fase e a evolução política por que passou a Polonia. Origem de males que se robusteceram com o andar dos séculos, muito país que ainda hoje se agita em demanda do bem ser social, pode aí encontrar motivos de ensinamento sério, que deve ser aproveitado.

Como sabeis, ainda em época bem próxima de nós, a Polonia se apresentava ao mundo com as vestes do velho feudalismo. Ela possuía seus nobres, ou antes, ela se compunha dos nobres exclusivistas e intolerantes a recalcar para o fundo das terras os pobres paisanos, que só eram polacos, quando era preciso que servissem

D'aqui senhores, o resultado em fatal da divisão da pátria em duas classes distintas: a dos opressores e a dos oprimidos. Uma, limitada em número, mas poderosa e absoluta, depositária exclusiva dos negócios públicos que geria segundo os interesses e cálculos pessoais, quase sempre incompatíveis apenas com o capricho e corrupção do poder. Outra, imensa em número, mas alheia à própria intuição do fim social; massa bruta a soldo da imprevidência do nobre, do fanatismo do padre e da miséria profunda da ignorância!

D’aqui também, senhores, a indiferença em matéria política, a pior peste que pode afligir uma nação; e, por isso, logica e naturalmente, o rareamento das falanges polacas, quando nos momentos solenes e críticos, a pátria chamava aos campos da honra os filhos que a deviam defender contra as cortes numerosas e compactas das potencias invasoras.

Corriam os tempos e a anarquia, que tivera sua origem nos fatos em que ligeiramente venho tocar, mantinha-se desgraçadamente n’aquele solo que devia ser sagrado.

No trono da Rússia surgira um homem, verdadeiramente gênio e a quem a história concedeu o apelido de grande.

Nesta ocasião, segundo a crítica de bons historiadores, a sentença da Polonia oi lavrada.

Aproveitando-se da incapacidade do que então empunhava o bastão polavo, Pedro, o grande, aparentando receios e combinações políticas imaginarias, enreda-o na aliança, sem o nome contra Carlos XII; ocupa o território virgem com suas tropas e, entre os legados de seu famoso testamento, escreve o nome da Polonia!

Incapaz de tão grande cometimento, seu imediato sucessor transferiu a celebre Catharina a execução de tarefa tão difícil.

E ela a quem a tolice humana conferiu os foros de grande rainha, quando a história indignada só lhe aponta os grandes vícios e crimes, desempenhou-se na verdade brilhantemente!

Emancipada dos sentimentos delicados que constituem o encanto e força de seu sexo, filosofa e bacante, mulher por excelência ambiciosa, tão ambiciosa que para subir depressa fez do cadáver do marido o primeiro degrau do trono, Catharina, intrigante e cruel, começa a execução de seus desígnios, tirando d’entre os amantes o que apenas de fato foi rei da Polônia!

Stanislau Augusto, eis o nome do mísero.

Elevado ao trono da Polônia pelas baionetas, intrigas e dinheiro da Rússia, em vão protestou contra semelhante indignidade o partido patriota polaco, a parte inteligente e ativa da nação!

Estava escrito: assim deva ser. Dotado de uma presença gentil, brilhante, se quiserem; mas espírito fútil, acreditando-se mais que qualquer outro conhecedor de seu pais e único apto para reformá-lo, foi Stanislau Augusto o instrumento dócil que nas mãos de Catharina se prestou maravilhosamente às realizações dos negros intentos.

N’esta ocasião, tarde demais, operava-se nos espíritos polacos um movimento regenerador. Olhando para trás e não vendo senão ruinas, inquirindo do futuro e não lobrigando senão incertezas, a nobre Polonia, acalentada ao sopro das ideias de progresso que vinham da França, pensava seriamente em quebrar as peias que a jungiam e caminhar para diante.

Todos os ramos da atividade humana estremeceram. E, até na ordem política, tornou-se geral entre os homens ilustrados e patriotas a necessidade de extinguir-se a incompreensível instituição constitucional – o liberum veto – fonte inesgotável das calamidades públicas.

Mas arrancar da constituição polaca o liberum veto; quebrar nas mãos de muitos de seus nobres um talismã que os tornava outros tantos reis, consentir que a Polonia, esmagando a anarquia, que a devorava e enfraquecia, se abraçasse com os destinos gloriosos que lhe apontava a nobre índole de seus filhos, era rasgar em tiras o pergaminho fatídico dos pensamentos de Pedro, o Grande!

Catharina, é escusado dizê-lo, opôs-se com todo o vigor de sua alma de ferro e sangue a patriótica tentativa dos polacos. O ouro, a corrupção, a intriga, a violência pública e brutal, tudo se pôs em movimento.

Foi notável, senhores, a sessão da dieta polaca em que, graças a política da Rússia, o veto liberum continuou a ser instituição política da Polônia.

Dar-vos-ei d’esta sessão ligeira notícia.

Discutia-se aí a abolição do veto liberum, desejada pelos dois partidos nacionais em que se dividia a Polônia.

O veto liberum era o poder constitucional que, manifestado que fosse por um só deputado, impedia a adoção de qualquer medida.

Um dos Cezartoryski, colaboradores inconscientes da ruína da pátria, havia ilustrado a tribuna sustentando necessidade da abolição do veto liberum. Apesar da sua moderação, os ministros da Rússia e da Prússia, receando que seus partidários, os mantenedores da anarquia, fraqueassem, tomaram a palavras, falando em primeiro lugar o pérfido Repnin e em seguida seu colega, o prussiano. Declaram que seus soberanos, zelosos defensores dos privilégios dos nobres polacos opunham-se formalmente à adoção da maioria dos sufrágios, isto é, a abolição do veto liberum!

Diante d’essa afronta, afronta que é difícil qualificar, subiu à tribuna o ilustre Kosacki. A indignação que lhe causara o insulto dos estrangeiros, o entusiasmo que lhe inspirava a causa santa que defendia, deram talvez mais força à sua argumentação, que se tornou irrespondível!

Mas, embora na tribuna, em plena sessão do parlamento da pátria, ele combatia contra a czarina de todas as Russias e devia ser vencido!...

Korsacki, senhores, foi vítima de um tiro que o derribou morto na sala da dita, mas redivivo nas páginas da história.

É inaudito, senhores, sem nome nos anais parlamentares uma brutalidade tão violenta; mas, e não vos admireis, mais de uma vez as baionetas russas penetraram no recinto da dita polaca para executar a justiça de Catharina, a grande, arrastando para os gelos da Sibéria os deputados polacos!

Não passou, portanto, a medida salvadora da grande e infeliz Polônia; e foi esse o primeiro dia do seu cativeiro!

Segundo, porém, o plano da grande czarina, não bastava conservar no seio ofegante da mártir o veneno incurável da anarquia: era urgente apressar a crise.

D'aí a intervenção da Rússia e da Prússia, ambas despóticas, ambas intolerantes, em favor da liberdade política e religiosa dos polacos não católicos!

Justa na aparência, mas ignóbil e condenada em seus fundamentos, esta imoral intervenção estrangeiras na direção interna dos negócios da Polônia, provocou entre os patriotas polacos a mais lógica e legítima das oposições. Opuseram-se, e ninguém ousara negar-lhe razão diante da revoltante hipocrisia dos fingidos apóstolos;

Entretanto, tal é o prestígio das questões político-religiosas em todos os tempos e todos os países, os patriotas da confederação de Bar, ponto em que se reuniram todos os espíritos independentes, foram arrastados além de seus designíos, e inscreveram em sua bandeira de guerra – pro religione et pro patria!

Era o que Catharina desejava. Um segundo, segundo imenso sulco se abriu no seio da patroa polaca, e aí podia ela engrossar a sua vontade a fogueira do sacrifício!

Aventurada a experiencia das armas, cujo resultado para ninguém fora duvidoso, lutando um punhado de bravos contra as tropas inúmeras e brutalizadas na Rússia e Prússia, a confederação de Bar fora derrotada, dissolvida.

As bandeiras aliadas ergueram-se triunfantes diante da autoridade consolidada de Stanislau Augusto, o rei incrível; n’essa ocasião realizou-se o primeiro desmembramento da Polônia!

Kosciusko, quando tais calamidades dilaceravam o seio nobre da Polonia, estudava ainda em Paris.

Logo após, de fronte abatida, mas fervendo o peito de indignação e espanto, ele se recolhe a Varsóvia e incorpora-se ao seu batalhão.

Pouco importava a desgraça e os desastres da Polonia para seu rei e sua corte, uma vez que tinham eles a admiração dos sectários, os cânticos dos menestréis, o cortejo de todo os indignos, as honras e divertimentos reais!

Foi em 1776.

Stanislau abriu as portas de seu palácio a um sarau da corte. E porque ao exército não era lícito a menor demonstração de desagrado, Kosciusko, em obediência à ordem recebida, aí apareceu.

Este baile foi um acontecimento para Kosciusko, acontecimento que revelando-lhe o amor, desvendou à posteridade as belezas morais do mais privilegiado e nobre coração.

Sosnowska, a bela, a inteligente, a patriótica filha do governador militar da Lituânia, o soberbo Sosnowiski, arrebata o coração do jovem militar.

Era imensa a desproporção social dos dois; mas era igual a elevação e nobreza dos sentimentos que os caracterizava.

Sosnowska teve a intuição dos gloriosos destinos de Kosciusko; Kosciusko, inflamado pelo genio, não se julgou inferior à filha dos príncipes: amaram-se.

Tempo depois, o rico hetman da Lituânia segue para seus domínios e comando, levando a ilustre filha.

Mas esta separação, que sem dúvida foi dolorosa, não foi longa; pois o regimento de Kosciusko por sua vez fora destacado para a Lituânia.

Aí chegando, abriram-se de par para o jovem capitão as portas principescas do palácio do governador.

Kosciusko, que trazia na fronte o selo augusto da superioridade, conquistou facilmente a estima do soberbo general e, para um coração amante, teve a felicidade inapreciável de ser o mestre da adorável Sosnowska.

Um dia, quebrada a timidez da moça, ela declara a sua mãe a natureza e extensão dos afetos que consagrava ao obscuro soldado.

Acostumado por demais ao mando e por demais orgulhoso para julgar que não fosse obedecido, o opulento chefe limitou sua formal reprovação a uma ordem: intimou Kosciusko a que não mais levantasse os olhos para a filha de seu chefe!

Xerxes açoitando as ondas não havia sido mais obedecido.

Movimentos do coração que todos compreendemos, se os não temos experimentado, Sosnowska desobedeceu formalmente ao pai e arrastou n'essa rebelião o nobre espírito que jamais tremera diante da deserção do dever.

Sosnowska resolveu fugir com Kosciusko.

O velho general soube d'esta resolução; mas, fidalgo e polaco da antiga escola, preteriu vingar-se a evitar o passo imprudente dos amantes. Atrás d’eles, enviou gente armada, incumbida de matar Kosciusko e reconduzir a fugitiva.

O valor que n'essa luta desigual desenvolveu o jovem soldado foi admirável.

Julgado morto, é deixado sobre o terreno onde se batera pelo amor, pela honra e pelo dever; mas volvendo a vida que o não abandonara, encontra-se apenas com a sua grande dor, as suas feridas e um lenço que catara das mãos desfalecidas de Sosnowska!

Este lenço, senhores desculpai esta minudencia da história, revela um traço distintivo da alma pura de Kosciusko. Este lenço, resto santo de um amor, que tão cedo naufragara, amor que fora único, ele o guardou sempre consigo através de todas as vicissitudes de sua longa e agitada existência!

Após este acontecimento, que angustiosa impressão devera causar-lhe, e no meio dos desfalecimentos em que se debatia a pátria, como Laffayette, como tantos outros apóstolos da liberdade e justiça, Kosciusko atravessa os mares e vai-se alistar entre os soldados da independência americana.

Recebido como simples oficial de engenheiros, seu valor nos combates, sua inteligência nos conselhos e suas virtudes em todas as relações da vida, conquistaram-lhe em breve o posto elevado de general, que tanto ilustrou em defesa de todos os direitos da humanidade.

Homem superior, ele soube conciliar sempre o furor das batalhas com os princípios da moral, o entusiasmo da vitória com a proteção aos vencidos!

A América conseguira por fim apresentar ao mundo as estrelas brilhantes de seu pavilhão vitorioso. Era tempo e Kosciusko regressou à pátria.

Ao clarão das grandes ideias que prometiam fazer a volta do mundo, a Polônia por sua vez sentiu a febre do progresso.

Uma revolução pacífica e benéfica, se bem que efêmera, a fez tremer ao contacto das ideias novas.

Sob a inspiração dos males passados, ensinamento que pudera ser proveitoso, se a desgraça a não houvera eliminado já do número das nações, a Polônia deu provas de honrada virilidade, chegando a arrancar das mãos do jesuitismo a instrução pública.

Uma constituição que definisse os deveres e os direitos dos poderes públicos e dos cidadãos, era necessidade palpitante.

E essa necessidade, graças ao patriotismo dos polacos, foi realizada com a elaboração da constituição de 3 de maio de 92.

Fraco palladium das liberdades polacas, ensaio patriótico, mas temeroso das legitimas aspirações de um povo egrégio, essa constituição que a princípio mereceu aplausos da própria Prússia, foi depois considerada como obra do... jacobinismo! Foi n’essa ocasião que Kosciusko entrou na Polônia.

A Rússia, e não há necessidade de justificar lhe o procedimento, declarou com franqueza guerra à Polonia, por causa da constituição projetada; alegando que assim praticava levada pelo interesse de garantir a prosperidade levada pelo interesse de garantir a prosperidade, a vida e futuro da República! ...

Esta afronta aos direitos universais da razão e dos povos, esta ostentação do cinismo político elevada ao seu maior apuro de grosseria e absolutismo, não era princípio novo no código político da Rússia. Catharina ceifava os louros com que se devia apresentar à história no seu trono de grande!

Esta declaração de guerra, porém, como é fácil compreender-se, provocou geral indignação entre os polacos não comprados pela Rússia.

A dieta, então convocada, e em que devia ser apresentado o projeto de constituição, renegando o tumulto das épocas passadas, ofereceu ao mundo o espetáculo de uma assembleia digna dos dias brilhantes da república romana!

O rei, o próprio Stanislau Augusto, sobra, que passava pelo trono de Sobieski como anúncio da dissolução e ruína, no meio da geral conflagração dos espíritos, teve também o seu momento de... pudor: fez causa comum com a maioria da dita!

Mas a Rússia, que conhecia o valor dos meios de que se servia zombava das veleidades de seu pupilo, o ex-amante da tenebrosa Czarina.

Obedecendo à senha de S. Petersburgo, o partido russo que contava em seu seio não poucos polacos ilustres pelo nascimento, mas degradados pela natureza saiu campo e proclamou a confederação de Targowia.

Esta confederação que tinha a sua frente Feliz Potocki, cuja ambição Catharina inflamara apontando para a coroa de Stanislau Augusto, queria destruir a constituição de 3 de maio e realizar o segundo desmembramento da Polônia.

José Poniatowiski, legendário, cujo nome figurou com brilhantismo entre os generais do primeiro império, foi posto à frente dos exércitos polacos na qualidade de lugar-tenente do rei, chefe supremo, segundo a constituição votada.

A Kosciusko coube o comando de um exército.

Contra as forças coligadas da Rússia e Prússia, e enfraquecida pela deserção dos bastardos da honra, que resistência poderia opor a Polonia?

A guerra começou sob maus auspícios.

Muito, porém, havia ainda que esperar do patriotismo e espírito revolucionário que se levantava nas vastas planícies da Polonia, quando Stanislau Augusto arrependido da nobre posição em que se colocara, escreve submisso uma carta à Czarina, pedindo o perdão de seus erros!

Catharina dignou-se de lhe responder apenas por meio de um recado.

Stanislau adere à confederação de Targowia; e como a república não estava em guerra com potência alguma mandou que os batalhões se recolhessem a quartéis ou fossem licenciados!

Não cometemos, senhores, tão inqualificável procedimento!

Volvemos, porém, ao período da campanha, tão tristemente epilogada, relembremos uma derrota das armas polacas sob o comando glorioso de Kosciusko.

Foi em Diabienta. Modificando as ordens de Poniatowiski, Kosciusko colocara seu pequeno exército em magnífica posição utilizando-se da inviolabilidade da fronteira austríaca, que procurara como apoio de sua ala direita.

N’esta posição forças russas três vezes mais numerosas o acometem.

A luta foi sanguinolenta e porfiada. O anjo da vitória, estendendo o braço, oferecia ao herói polaco a palma do dia; mas perfidamente quebrada a inviolabilidade do território austríaco, a retirada tornou-se forçosa diante do imprevisto e das crescentes forças inimigas!

Esta retirada, através de uma escuridão que se tornara absoluta, foi pelos homens de guerra considerada como uma arma gloria.

Como, porém, consideraram os homens políticos o procedimento extraordinário da Áustria?...

Mas, como fulmina o raio que bate na arvore elevada da montanha, assim a inqualificável apostasia de Stanislau Augusto fulminou o nobre exército polaco!

Poniatowiski, Kosciusko, todo o estado-maior, todos os guerreiros ilustres da infeliz Polonia despiram por indigna de si, enquanto Stanislau fosse rei, a farda polaca!

Este proceder altivo e nobre repercutiu significativamente no espírito do partido russo, que o considerou como o cartel de um desafio de morte.

D’aqui o expatriamento dos polacos a levar à Europa espantada o prestígio de suas infelicidades, o brilhantismo de seus nomes, a moralidade de suas ações.

Para que não se agite e por fim se levante não basta mutilar, é preciso matar a liberdade

Abandonada por morta, mas ainda com vida, a liberdade polaca, refugiada no club patriótico de Varsóvia, ressurgiu em 1793, pálida embora, mas majestosa e santa.

Seu verbo era a revolução!

Kosciusko, unanimemente proclamado chefe, foi chamado do seu desterro para colocar-se à frente dos últimos filhos da Polonia.

Bem vira ele a impossibilidade do êxito; mas quando polacos, com seu nome nos lábios, em honra da pátria corriam ao sacrifício, não lhe era lícito pensar como estadista.

Contra os ditames da razão e certo do desastre em que ia precipitar-se, caminhou para morrer com a pátria, como antes tentara uma fuga impossível para não trair o amor imenso da mulher que adorava.

Toda a Polonia patriótica e revolucionária sabia e esperava a próxima chegada de Kosciusko; mas, fato honroso e talvez único que a história registra, entre os milhares dos conspirados não houve um delator!

No livro dos grandes martirológios, porém, já estava escrito o destino triste da Polônia.

Em épocas anteriores, por ocasião dos primeiros desmembramentos, permitiu o mau fado da Polonia que as intrigas da corte francesa fizessem cair o ministério Choyseul, que parecia disposto a impedir a brutal conquista da Rússia, agora, n’essa mesma França, retirado do poder o partido girondino, de quem Kosciusko tanto esperava, via a Polonia converter-se em cruel desengano a doce esperança que lhe iluminava o céu!

A imbecilidade de Stanislau Augusto, consequente derrota e exílio dos patriotas tiveram o lógico epílogo, a declaração de Grodno, datada de 9 de abril de 1793, em que para bem e garantia da Polônia, a Rússia e Prússia, com acordo da Áustria, se apossaram das províncias fronteiras da pátria dos Jagellões!

Stanislau Augusto não atirou-se das janelas do seu palácio nas pedras da rua; não abdicou nem deixou-se arrastar prisioneiro para os gelos da Sibéria ou alguma outra masmorra da Rússia!

Intimado e seus cúmplices, os confederados de Targowia a subscreverem o segundo desmembramento da pátria, sentiram os acicates da vergonha e do opróbrio!

Sentados nas cadeiras da dieta, invadida a sala pelas baionetas russas, e intimados de que o silencio que guardassem seria voto de aprovação, esgotaram a taça do vilipendio e da afronta, retirando-se depois que a deputação russa proclamou aprovada a declaração famosa!

Esta insolência inqualificável tivera lugar logo após a queda dos girondinos, quando a França em campanha com a Europa toda, não podia enviar à bela filha do norte senão o auxílio de seus votos e profundas simpatias.

Foi tragando as amarguras d'esta cruel decepção que Kosciusko pisou o solo sagrado da pátria.

Cracovia, apesar de tantas e profundas desgraças, arreou-se de suas últimas e fulgurantes galas para o receber, exatamente no dia e hora em que, por outra porta, a guarnição russa evacuava a cidade.

Kosciusko não desmentiu as esperanças que n’ele depositava a revolução.

O seu nobre valor nos combates, as suas notáveis qualidades de estadista e as invejáveis virtudes de homem assumiram as mais esplêndidas.

Mas as dificuldades, que o rodeavam, eram superiores a todo o esforço humano!

A organização secular e especial do país; as suas grandes qualidades e haveres; os servos, muito em número, quase nada em virtudes entorpecidos pela ignorância, não vendo na revolução mais que um troca de senhores; a superioridade assombrosa do inimigo, capaz de todas as crueldades; a pobreza do solo, pisado em todos os ângulos pela pata esterilizadora do cossaco e do prusso; a falta de quase todos os recursos e meios de guerra; todos estes elementos, todos estes estragos eram sem duvida correntezas por demais poderosas para envolver e abater o esforçado ditador e paladino da independência polaca.

No meio, porém, de todas estas dificuldades supremas, a história imparcial e reta proclama que ele fez tudo que humanamente era possível, quer como homem de guerra, quer como homem de governo!

O tempo urge. É preciso que, por não abusar de vossa benevolência (não apoiados), eu passe sobre fatos importantes com a rapidez do pássaro que corta o espaço.

O ato da insurreição de 21 de março foi solene como poucos pôde apresentar a história: foi uma estrofe sublime que inspirara o puro patriotismo de um grande povo.

Investido da tremenda responsabilidade de ditador e regularizados os negócios do Estado com a decisão e inteligência de estadista, que o era, Kosciusko corre a encontrar-se com os russos postados em Raslavici.

Era grande a desproporção das forças; mas, à frente do batalhão que estava-lhe mais próximo, atirando-se como simples soldado no meio da refrega, Kosciusko alcançou uma vitória que parecia impossível!

Varsóvia, Wilna, parte do exército às ordens do rei, quanto havia de ilustre na Polônia repete então o grito de guerra do ditador – Vencer ou morrer!

Era preciso organizar o exército, isto é, cria-lo.

Surgem dificuldades insuperáveis. Diante do duelo em que se debatia o espírito do nobre polaco desejoso da liberdade, mas atido a seus privilégios, a leva geral, que premeditava Kosciusko, teve de limitar-se à insuficiência do quinto, que nunca se completou!

A todas estas dificuldades, como se não bastassem, se agregavam ainda as intrigas do rei e sua corte, escravos da Rússia, intrigas funestas e de um alcance imenso.

Foi no meio d'estas circunstâncias dolorosas, mas que não lhe dobravam o ardor e o ânimo, que Kosciusko pôde confrontar com os russos que o evitavam.

A batalha que aí se travou, em Szezecoeyny, foi porfiada; e, como em Dabienta, quando os russos batidos fugiam diante do heroísmo polaco, entra em cena um inimigo não esperado!

Ali esse inimigo foi a violação da neutralidade austríaca; aqui foi o próprio rei da Prússia á frente de vinte e quatro mil soldados!

Esta derrota foi de grandes consequências; mas, a seu pesar, apesar dos numerosos exércitos inimigos, Kosciusko pôde realizar a sua entrada era Varsóvia.

O seu curto governo n'essa cidade, as medidas que fez adoptar tendentes a regularizar os diversos serviços públicos, as suas ações como ditador e como simples cidadão, constituíram uma página que a história guarda com admiração e amor.

Alguns historiadores, entre os quais polacos, arriscam censuras a Kosciusko; mas de todas essas censuras o defende a imparcialidade histórica que nos atos arguidos, enxerga apenas a passagem de uma virtude.

A impaciência dos patriotas, dos amigos do ditador, irritada pelo não julgamento dos presos políticos, os traidores, irrompeu ura dia; transformou-se em sedição; arrombou as prisões e manchou com o sangue das vítimas a santidade da revolução.

Foi indizível a dor que ao coração do mais puro dos homens infligiu o delírio popular; foi esse o dia mais triste de sua vida!

Pois bem. Embora a cidade se achasse convulsionada em seus fundamentos pela revolução em que ardia; trabalhada no íntimo do seio nelas intrigas e divisões do rei e dos seus; cercada, além disso pelas forças russas Kosciusko foi inflexível diante dos reclamos da justiça ultrajada!

Sabia muito bem que a desafronta da lei teria uma repercussão dolorosa e grave cogitações; que os seus amigos, finalmente, cheios de entusiasmo e desespero, murmurariam...

Não trepidou. Vítima, com a pátria, do direito da força, mostrou ao mundo que só se curvava diante da força do direito!

Kosciusko era o ideal, a esperança, a alma da Polonia. Era justa esta confiança; tão justa que se transformara em culto; mas era desgraçadamente certa a impossibilidade da vitória sobre as armas reunidas da Rússia, Prússia e Áustria!

A Polonia revolucionária sabia que não podia vencer; mas presa pelos deveres da honra ao mote glorioso do seu ditador – Vencer ou morrer – combatia pela morte!

Houve entretanto, no meio de tantos desfalecimentos, um momento que quase pareceu uma ressureição da esperança.

Este momento foi aquele em que a Grande Polonia, reduzida já a província russa, levantou também o estandarte da revolução na Lituânia, o berço de Kosciusko.

Compreendendo o alcance d’esse movimento, Kosciusko intentou ir em pessoa colher-lhe as vantagens; mas apenas pôde enviar Dombrowski.

Após as lutas quase diárias de sete semanas, em que parecia multiplicar-se, levando o terror aos inimigos e o entusiasmo aos polacos, Kosciusko obrigou os prussos a levantar o sítio de Varsóvia.

Este fato foi uma luz, que rápida se acendem e rápida desapareceu!

Na Grande Polônia, onde o prusso Sekuli fez esquecer todas as cenas de sangue conhecidas, os interesses polacos caiam de desastre em desastre;

Agravou esta situação a derrota do bravo Sierakowski, tornando iminente a junção do execrado Suwarow com Fersen.

A todo o transe era preciso impedir essa junção, e Kosciusko não hesitou um só momento. A sua partida foi aclamada com o enternecimento e entusiasmo de todos os seus, para os quais, com a mais justificada razão, era ele mais que um pai, era um ídolo!

Cerca de cinquenta mil russos e prussos avançaram em 4 de outubro contra o pequeno exército polaco, forte apenas de uns seis mil homens mal equipados, nas históricas planícies de Maciejowici.

A luta foi enraivecida e desesperada. Kosciusko esperava Poninski; mas exatamente na ocasião em que essa junção poderia ter-lhe dado ganho de causa, apesar da desproporção das forças, viu, em lugar do amigo esperado, arremeter contra seus patrióticos companheiros uma forte coluna de cavalaria russa!

Kosciusko então espantou os bárbaros com prodígios de heroico valor! Justificou o comando que lhe haviam concedido os patriotas polacos, mostrando-se guerreiro exímio, como havia-se mostrado cidadão superior.

Acompanhado de um punhado de bravos, sua passagem indistinta no meio das massas enormes dos bárbaros era irresistível, como, se ele, que era o mais santo dos homens, fosse o mais terrível gênio da destruição e da morte!

Mortos ou feridos os seus companheiros escasseiam, assomando apenas imperturbável e combatendo sempre seu vulto legendário!

Cai por fim o cavalo que montava, e os bárbaros se abatem sobre ele como a avalanche que tomba das alturas sobre o viandante da planície!

Extenuado de forças e sangue, com o corpo crivado de largos e numerosos ferimentos, beija por fim o chão ultrajado da pátria o libertador da Polônia!

Trajando apenas as vestes que lhe permitiam a sua modéstia e caractere, dificilmente o reconhecerão os soldados de Catharina e Frederico Guilherme!

Para exercer o comando, dispensava as distinções da vaidade humana, quem, em ele, fora por Deus sagrado rei.

Nos cálculos abomináveis da graciosa Czarina não estava escrito o assassinato de Kosciusko; por isso, feito prisioneiro, sua vida foi respeitada e suas feridas pensadas.

No pensamento das cortes hipócritas que afetavam tanto horror diante dos delírios revolucionários da França, mas que, a sangue frio, excediam todas as crueldades imagináveis, o ditador da Polonia estava reservado para armar a popularidade, que com tanto dispêndio se comprava nas capitais do ocidente.

Quanto puera n’este momento dizer-vos das atrocidades praticadas pelas três grandes potências!

Há imaginação que compreenda em todos os seus detalhes a caminhar melancólico das caravanas degradadas para os gelos mortais da Sibéria?

Descreve-se as dores supremas dos moribundos, velhos, moços, crianças que caiam nas estradas e mordiam o pó do cativeiro, volvendo para o céu da pátria o derradeiro olhar iluminado pela angústia e saudade que não se definem?

Já se achou vocábulo para significar o assassinato de dez ou dezesseis mil pessoas, cometido contra os inermes habitantes de uma cidade tomada?

Que espírito infernal lembrou-se algum dia de decepar as mãos de milhares de indivíduos e largá-los nas estradas como anúncio do respeito à lei?

Que salteador, depois de assassinada e roubada a gente da pequena aldeia, lembrou-se algum dia de pôr em leilão a cabeça dos poucos que fugiram?

Ah! E Catharina foi chamada – a grande! E Frederico e Alexandre foram também – grandes!

Volvendo os olhos, senhores, das páginas da história em que as três grandes potencias, diante do espanto e covardia da Europa inteira, escreveram o martirológio da Polonia, acompanhemos no seu resto de peregrinação sobre a terra o heroico Kosciusko.

Remetido a S. Petersburgo pelo general Fersen, o ilustre prisioneiro foi por fim arremessado nos úmidos subterrâneos de Petro Pawolvvsks, entregue aos cuidados dos dignos carrascos de Catharina.

Aí, nem um raio de luz nem o som de uma voz piedosa! Eram seus companheiros as dolorosas cogitações de um espírito enfermo, o tétrico silencio da masmorra e o sofrer constante das grandes e mal pensadas feridas!

Mas, como convinha á imperial grandeza da czarina, nas cortes do ocidente e até na própria Polônia, afirmava-se Kosciusko era que nobremente tratado, gozando até do gracioso favoritismo da sua imortal vencedora!

Grosseira mentira, mas a caráter da pessoa e da imperatriz da Rússia.

Uma outra falsidade, adrede preparada, armando a uma consequência de grande alcance político, foi a que teve por mote as notáveis palavras - finis Polônias - que o interesse da Rússia emprestou ao heroico ditador, depois da derrota de Maciejowice.

Estas palavras, estando aquele a quem erão atribuídas. encerrado nas prisões de Petro Pawolwsks, correrão por muito tempo o mundo, sendo afinal nobremente contestadas.

O caráter, as ações todas de Kosciusko, ecos que se partiam sinceros e puros do imenso coração que lhe dera a natureza, repelem essa manifestação de egoísmo com que procurou amesquinhá-lo o gênio corrompido da política russa.

Eram, porém, passados dois anos, quando, por modo desusado, o glorioso defensor da mártir Polônia vê abrirem-se as portas de sua prisão.

Além do carcereiro, três outras pessoas penetraram a úmida cova. Eram elas o Czar Paulo I, e seus filhos, os duques Alexandre e Constantino!

Catharina havia falecido; e esta visita foi um dos primeiros atos do novo soberano de Todas as Russas!

Seria ela o cumprimento de um legado imposto pelo remordimento da consciência da famosa czarina?

Seria o movimento natural do bem formado coração do infeliz Paulo, ou a necessidade política de prestar uma homenagem à opinião da Europa justamente indignada diante do despotismo revoltante da Rússia?

Só a imaginação de cada um pode dar conta das peripécias intimas deste momento solene.

Diz a história que Paulo e Alexandre, enternecidos diante da majestade de tão grande desgraça, não puderam impedir o movimento piedoso das lágrimas!

- Sois livre! Disse o filho e sucessor de Catharina.

- E meus amigos, replicou Kosciusko, depois do tempo que lhe foi preciso para voltar a si, meus amigos serão também livres?

Com a liberdade, Paulo I ofereceu também a Kosciusko todos os bens imagináveis, inclusive o posto de feld-marechal; e a jovem imperatriz o agraciou com todos os desvelos de um nobre coração.

Recolhendo no íntimo d’alma os benévolos consolos da bela czarina, Kosciusko do Czar aceitou apenas a liberdade.

Sendo-lhe impossível permanecer na Polonia, o ilustre cidadão volveu os olhos para aquela outra pátria por cujo liberdade havia batalhado vitoriosamente.

Velho, paralitico, mutilado no corpo e no espírito, já não era ele o jovem, infatigável e brilhante soldado que aportara à América, consagrando-lhe seu coração e sua espada. Mas a terra de Washington, iluminada pelos raios vivos de suas estrelas livres, presto reconheceu o valente general de suas batalhas e pressurosa correu a seu encontro!

O congresso americano, digno representante de um povo livre, decretou o pagamento do soldo devido ao general da República e inscreveu lhe o nome glorioso no quadro do seu exército.

Chegando, porém, à América foi o primeiro cuidado de Kosciusko escreveu a Paulo I uma carta de agradecimento e depositar-lhe nas mãos a doação de terras e servos, que fora obrigado a guardar, como condição da liberdade!

O soldo, nobre e delicadamente pago ao ilustre servidor do Estado, foi aceito, e nem pudera deixar de sê-lo: mas, imediatamente repartido em partes iguais, uma foi remetido à Polônia para socorro de míseros servos, e a outra aplicada ao resgate dos homens negros da América e educação dos meninos de côr!

Eis, senhores, factos que se narra, mas não se comenta!

Revendo-se na obra de que fora colaborador, a independência da União Americana, Kosciusko não podia, entretanto, sufocar os movimentos de seu coração de polaco.

Ele sabia e sabia perfeitamente que não lhe era dado cogitar de esperanças perdidas; mas, tal é a força e sentimento do amor da pátria, seus pensamentos erão todos pela Polônia.

Ele sabia que não podia vê-la; que não podia pensar-lhe as feridas nem levar-lhe aos lábios de moribunda um cordial da vida; mas a distância que d'ela o separava era angustiosa: ele precisava ao menos ouvir-lhe mais de perto os gemidos!

Regressou, pois, a Europa; e firmou sua residência na França, o país das suas predileções.

Sem família, velho, meio paralítico ainda, vivendo só do passado, passado que era um montão de ruinas, teve a fortuna de deparar na família do suíço Zeltner, que então habitava fontainebleau, com a felicidade única lhe era lícito ambicionar: um teto de paz e amor.

Na França, sempre grande e generosa, fora ele um objeto de culto.

Ela que nos tempos agitados e brilhantes da Convenção lhe conferira o ambicionado título de cidadão francês, agora na quadra olímpica de Napoleão, o grande, o solicitava para que aceitasse um lugar no senado do império.

Kosciusko não era só o guerreiro ilustre, o cidadão benemérito, o homem piedoso e justo, que temos visto; ele era também o político e estadista,

Embalavam-se seus compatriotas com a esperança de Napoleão seria o que redentor da Polônia, e isso muitas vezes prometeu o grande guerreiro e suas nobilíssimas legiões polacas.

Kosciusko, porém, pensava, e pensava com alto critério que quem com tanto arbítrio e nepotismo esmagava liberdade e futuro da própria pátria não podia ser o defensor da alheia.

Napoleão queria a Polonia como a uma peça em suas mãos para disparar sobre a Rússia e nada mais.

Assim pensava o vencido Maciejowvice; e por isso recusou sempre alistar-se nas fileiras do exército imortal.

Kosciusko era a alma, o estandarte vivo da Polonia; e, pois, não podendo dobrar-lhe as convicções, o 1º imperador não duvidou mentir ao mundo, anunciando em suas proclamações a próxima entrada do herói polaco na grande luta em que se batia!

É forçoso, senhores, deixar de lado fatos particulares e acontecimentos políticos que, relatados, trariam ainda muita luz a iluminar a fronte augusta do homem superior de que nos ocupamos. É preciso terminar.

Diante da sinistra presença de Fouché a insistir, em nome do imperador, pela aceitação do lugar de senador, insistência que impressionou a boa família Zeltner, e dos acontecimentos que se seguiram resolveram Kosciusko e seus hospedes procurar a Suíça, essa joia da Europa.

Aí na tranquilidade das montanhas, hospede sempre do bom Zeltner, passou ele os últimos anos de sua existência.

Alquebrado do corpo, como do espírito, tendo sempre um pensamento e nos lábios o nome sagrado da pátria, pode conservar-se sempre na altura d’aquela grandeza moral a que havia atingido.

Os pobres, as crianças, os enfermos nunca tiveram um amigo mais dedicado, um mestre mais bondoso nem médico mais solicito.

Era santa a igualdade com que tratava o mais desgraçado indigente que lhe aparecia.

O pequeno cavalo preto, que montava em suas excursões diárias, parava sempre diante de todo o transeunte que encontrava e de toda a choupana da estrada!

Chegara o ano de 1817, além do qual, na idade de 71 anos, não lhe era dado mais caminhar. Já era na verdade tempo de descansar!

A sua peregrinação tinha sida por demais agitada; seu peito muito batido pelas ondas do sentimento e o espírito açoitado pelos ventos abrasados do século.

Pobre folha seca, arrancada da haste, como ele se dissera, tinha-lhe chegado o momento de ir unir-se ao tronco eterno, o seio de Deus.

Ao justo, porém, estava reservada na terra uma d'essas consolações que só do céu podem vir.

Como já vos disse, senhores, Kosciusko amara uma só mulher.

Sosnowska, obrigada pelo pai, esposara um príncipe polaco. Não obstante isso Kosciusko foi fiel ao seu amor

Antes de morrer Kosciusko recebe uma carta. Era de Sosnowska! Estou viúva e livre, dizia ela, corro a ti; levo-te o meu amor, a minha fortuna, a minha virtude, as minhas consolações!

Era um pouco tarde!

Kosciusko leu a carta, tirou do bolso o lenço, branca única lembrança que possuía de Sosnowska, enxugou talvez a última lágrima e nos braços da família Zeltner entregou a alma a Deus I

Sosnowska o encontrou morto.

Eis senhores, como se finou um dos homens que mais tem ilustrado a humanidade.

Todas as nações, diz o ilustre Michelet, choraram este homem inocente e santo, quanto heroico!

Minhas senhoras, dirijo-me agora a vós que, em tão grande número, abrilhanteis esta pobríssima conferência.

A vós, minhas senhoras, que sois ou tendes de vir a ser mães de família; a vós, que estremeçais por esta pátria que é nossa e que, na grandeza de sua natureza física, denuncia a grandeza moral a que tem direito, ouso formular um pedido:

Educai vossos filhos na escola de Kosciusko!”

(Aplausos gerais do numeroso auditório. -- O orador é cumprimentado.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº9, set.1876, pp 63-89 (na integra). Capturado em 12 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/1007

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 195. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=775

 


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