Conferência Popular da Glória nº 199

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 17/09/1876.

Orador: José Martins da Cruz Jobim

Título: História de Portugal I, os quatro primeiros reinados

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras e meus senhores—O estudo da história das nações é um dos mais importantes, a que nos podemos aplicar (apoiados); é com tona a razão, que se exige d'aqueles que pretendem dedicar-se aos estudos superiores o conhecimento da história senão de todas as nações, o que é impossível, ao menos d'aquelas, cuja história nos importa mais saber.

Todos conhecem qual é a etimologia da palavra história; vem do verbo grego historeo, historeis, que quer dizer eu examino, eu perscruto: é o exame, a indagação de todos os acontecimentos memoráveis, e de todos os fatos autênticos passados durante a vida das nações.

Este conhecimento faz-nos reconhecer o que são os homens, o seu modo de proceder, o seu modo de viver, as suas paixões, as suas inclinações, as suas guerras, enfim as suas diversas espécies de governo; e assim aqueles que se dedicam a este estudo preparam-se para poder ter uma ideia exata dos meios de governo. Para o homem de Estado é, pois, mais que tudo, indispensável o conhecimento da história das nações.

Pretendo ocupar hoje a vossa atenção com os principais fatos dos tempos primitivos dos primeiros reinados de Portugal.

A nação portuguesa, como todos sabemos, é aquela d’onde descendemos; a sua história, depois da nossa, é, pois, a que mais me interessa conhecer, porque de lá veio a nossa língua, de lá vieram os nossos costumes, de lá a nossa religião, enfim d’ela tiramos todas as nossas preocupações, os nossos hábitos, etc.

Não me ocuparei dos povos primitivos, que existiam em Portugal, antes do reinado cristão. Muitos povos aí tiveram a sua residência por mais ou menos longo tempo. Entre eles, foram os primeiros os iberos, depois os celtas, depois os cartagineses, depois os gregos e dos romanos, depois dos godos, depois os sarracenos, que foi o último povo que invadiu e conquistou quase toda a Espanha, à exceção das províncias Vascongadas ao Norte, onde eles nunca puderam penetrar.

Os primeiros acontecimentos da monarquia portuguesa foram ainda durante o domínio dos sarracenos, n’esse tempo em que havia um furor extraordinário provocado pelos Papas e principalmente por Pedro Ermitão, que percorreu as nações da Europa fazendo ver quanto eram maltratados os cristãos na Palestina, o que ele enxergava de algum modo, porque os turcos mostraram-se sempre muito mais generosos e tolerantes para com os cristãos, do que os cristãos para com eles.

O certo é, que os Papas e Pedro Ermitão suscitarão tal fanatismo, que todos corriam para a Palestina, e corriam todos para lá por uma razão muito simples. Esta razão, como bem diz Guizot, não era só fundada no fanatismo d’aquela época, mas porque os Turcos tinham avançado tanto, não só na Asia e na África, como até mesmo na Europa; e então para os fazer recuar era necessário ir feri-los ao coração no meio dos seus próprios domínios.

Este fanatismo, este desejo de acompanhar as instâncias dos Papas e de Pedro Ermitão, que pregava por toda a parte contra os Turcos, fez também com que muita gente viesse para a Espanha, onde dominavam os Sarracenos, que erão uma mistura de Turcos, Árabes, Persas, e outros povos Conquistados pelos sectários de Maomé.

Entre as pessoas que para a Hespanha se dirigiam foram dois moços, um chamado Raymundo, e outro Henrique.

Os espanhóis já tinham estabelecido alguns reinos no meio dos Sarracenos., havia, por exemplo, o reino de Leão, o de Castela e mais alguns outros, como Navarra, Aragão, etc.

No remo de Leão dominava Affonso VI. Este rei tinha conseguido pela sua bravura e a dos seus antepassados, repelir os Sarracenos de todo o território que fica ao' norte do Douro, assim como da Galiza, de maneira que ele estava senhor d’estes dois países, da Galiza e de todo o norte do Douro em Portugal.

Os Sarracenos erão extremamente inquietos, não se limitavam a um lugar; se eram hoje corridos d'uma parte, d'aí a tempo, logo que viam que havia ocasião propicia, entravam outra vez para aquele mesmo lugar, d’onde tinham sido corridos, e recebendo socorros frequentemente d’África, disputavam sempre os seus ddomínios anteriores.

O rei de Leão tinha duas filhas, uma chamada Ximena e outra Thereza, ou Tereja como se dizia n’aquele tempo. Ele recebeu os dois moços nobres de que falei, e depois de experimentar a sua habilidade para a guerra, deu a cada um d’eles uma das duas filhas que tinha, Ximena a Raymundo e Thereza a Henrique, mandando que fosse este para a embocadura do Douro, onde ele havia de servir de guarda contra os Mouros, para que não passassem para o Norte, e ao mesmo tempo invadisse sempre que pudesse todo o território, que ficava ao Sul, a fim de obrigá-los a retroceder.

Ele assim fez, residia ora no Porto, que era então uma pequena povoação, ora em Villa-Nova de Gaya do outro lado do rio. O Porto foi que deu o nome a todo o Portugal, porque no tempo em que os Romanos dominavam, aí costumavam mandar buscar muita cal, pois Portugal abunda muito em excelente cal de pedra, e esse era o principal gênero de exportação; e ao mesmo tempo que vinham buscar cal, eles também tiravam ouro de Portugal, porque havia então lá muito ouro, não porque o rio Douro o tivesse, pois o nome d'este rio não se deriva da palavra ouro, mas porque os Romanos chamavam a esse rio fluvius durus, rio duro, rio difícil de navegar por causa da sua correnteza ser extraordinária, e então ficou lhe o nome de rio Douro; mas como os Romanos aí vinham também buscar cal, ficou este lugar denominando-se Portus calicis, isto é, porto da cal, e d'aí vem a palavra Portugal, que aplicou-se a todo o reino.

O príncipe Henrique não se limitava a residir n'esses lugares do Porto, ou de Villa Nova de Gaya, ia muitas vezes residirem Guimarães, percorrendo toda a margem direita do rio e assim defendia a entrada de novas partidas de Sarracenos; começou também a fazer incursões para o lado do Sul, correndo com eles e obrigando-os a retirarem-se até o Tejo; mas não tinha a força necessária para tomar a cidade de Lisboa, nem Cintra, onde eles se tinham fortificado.

Quando ele andava nestas empresas, lembrou-se, como um meio de agradar ao Papa, e aos Cruzados, de ir também à Terra-Santa fazer a sua cruzada.

Em 1103 foi ele em um dos muitos navios que passavam pela costa de Portugal com aquele destino para a Palestina.

Da Inglaterra, da França, da Holanda, da Dinamarca, da Suécia de todos os países que eram católicos, e obedeciam ao convite do Papa, de todos ia gente continuamente como em romaria para a Palestina; essa gente aportava e refrescava nos portos de Portugal. Tendo chegado uma esquadra a Lisboa com bastante gente, D. Henrique apresentou-se, e também seguiu para a Palestina onde se demorou mais de dois anos, nada se sabendo que por lá passou. Depois que voltou para Portugal, conseguiu do Papa permissão para que os Cruzados o ajudassem a conquistar Lisboa. Pos-lhe sítio, que durou mais de quatro meses, e por fim d’este tempo, em que ele e os seus praticaram atos de muito valor, ficaram senhores de Lisboa. N’esta ocasião os Cruzados, que eram um composto de gente de todas as qualidades, homens alguns de muito más propensões, e mesmo perversos, de maus costumes, como em uma ocasião o mostraram saqueando Constantinopla e outras cidades do Oriente, porque havia de tudo entre eles, quiseram fazer um saque em Lisboa, mas o príncipe Henrique portou-se com toda a coragem impedindo que fizessem o menor mal, e tratou com a maior generosidade possível aos sarracenos, que tinham ficado em Lisboa, e da mesma sorte aqueles que ainda permaneciam pelas vizinhanças, adquirindo com isso boa reputação na opinião dos mesmos mouros, entre os quais era conhecido pelo nome de Ebn-Enri, reconhecido não só como príncipe valente, mas também como muito generoso; eles muito o temiam nos combates, mas ao mesmo tempo reconheciam o quanto era, depois da vitória, humano e benfazejo.

Depois de tomar Lisboa e Cintra, e aí deixar uma boa guarnição, retirou-se para Guimarães onde costumava residir. D’aqui foi à Espanha auxiliar sua cunhada D. Urraca contra o rei de Aragão e de Navarra, que a queria despojar dos seus domínios, e faleceu em Astorga, d’onde foi seu cadáver transportado para Braga, onde jaz.

Depois da sua morte ficou governando sua mulher D. Tereja.

D. Tereja portou-se bem, animou a guerra, e conservou aqueles domínios, que seu marido tinha podido conquistar; mas relacionou-se depois com um fidalgo espanhol, chamado Fernão Perez de Trava, que era de uma família nobre de Espanha, mas que não estava no caso de casar com ela. Não se sabe, porém, se ela casou-se, e se casou foi de mão esquerda (hilaridade); o seu casamento nunca foi publicado nem sabido.

Quando D. Henrique faleceu, deixou três filhas e um menino de dois para três anos apenas; Foi seu aio Egas Moníz, que pouca coisa ou nada lhe podia ter ensinado, porque naquele tempo nada se sabia. Era tempo de trevas, todos viviam na maior ignorância possível. Depois da invasão dos bárbaros, o gênero humano naquela parte como em toda a Europa caiu na maior obscuridade e ignorância possível, por uma razão muito simples, o povo não podia ter meios nem tempo de instruir-se, de aprender cousa alguma, mal chegava o tempo para adquirir meios de subsistência. Os bárbaros tudo destruíam, a todos atormentavam. Apenas a Irlanda e poucos conventos conservarão alguma instrução.

Não se conhecia o valor das letras e das ciências. Os padres mesmo eram muito ignorantes, alguns mal sabiam ler o latim, sem entendê-lo.

Tudo caiu, pois, na mais profunda obscuridade e ignorância, e os primeiros quatro reis de Portugal não sabiam escrever nem ler, nem assignar o seu nome. A ignorância era profunda como mostra um escritor recente de Portugal, o Sr. D. Antônio da Costa, que publicou uma excelente memoria sobre a instrução publica naquele país.

O filho de Henrique chamava-se Affonso Henriques, bem como o filho de Raymundo e de D. Ximena chamava-se Affonso Raymundes, e foi este que sucedeu a Affonso VI, vindo, portanto, a ser Affonso VIl rei de Leão, sobrinho de D. Tereja, e primo irmão de Affonso Henriques, rei de Portugal.

A princesa Tereja era tratada pelos seus ora como rainha, ora como simples princesa. O rei de Leão, que era mais velho do que Affonso, quiz que ela o reconhecesse como seu soberano e obrigou-a em uma ocasião a reconhecê-lo como tal, porque seu avô não tinha feito doação alguma ao Conde D Henrique tinha-lhe permitido unicamente ir para Portugal, como seu lugar-tenente, correr com os Mouros, reconhecendo sempre a sua soberania, e tanto a reconhecia ele que os forais, que deu naquele tempo, são todos passados em nome do rei de Leão.

Mas a princesa com o seu Trava queriam já erigir-se em reis, gostava que a chamassem rainha, mas nunca, se animava a tomar para si esse título. Durante a minoridade D. Affonso Raymundes, sua mãe Ximena, reconheceu a soberania de D. Tereja, em agradecimento do socorro, que lhe prestou contra uma revolução da Galiza, mas o filho chegando à maioridade disputava-lhe esse direito; e D. Tereja todas as vezes que se achava em apertos, reconhecia a soberania do sobrinho, mas logo que achava ocasião favorável o desconhecia como seu rei, e assim andavam.

O povo de Portugal, sobretudo os fidalgos, mostravam-se muito desgostosos com o procedimento da rainha, por viver ou ter-se casado com um fidalgo galego, de condição inferior à d’ela.

Dizem que as filhas de Affonso VI não eram legitimas, mas afirmam outros que o eram. O que deu motivo a dúvida foi que Affonso VI, que era como Henrique VIII de Inglaterra, teve seis ou sete mulheres, e tendo casado com a mãe de Ximena e Thereza, recebeu ordem do Papa para separar-se d'ela, por ser parente da precedente; mas sanou-se o impedimento mediante a competente espórtula ao Papa.

Quando Affonso Henriques se aproximava dos 14 anos, época da maioridade em Espanha, o Arcebispo de Braga foi o primeiro que procurou animar uma conjuração para apear do governo a princesa e o seu Trava, e fazer com que o filho do conde D. Henrique assumisse o governo do país. A princesa mandou prender o Arcebispo, mas o príncipe com os fidalgos seus apaniguados saíram de Guimarães, e foi para Braga unir-se ao Arcebispo. Aí juntarão força suficiente para fazerem frente à princesa. Ela por sua parte juntou também força. Apresentaram-se os dois exércitos, o do príncipe e o da princesa, no campo de S. Mamede, e aí teve lugar um combate em que Affonso Henriques saiu vitorioso, e depois indo para Guimarães, diz Camões, que aprisionara a mãe, a encerrara e lhe pusera ferros aos pés. Nada d'isto, porém, é exato. Camões deixava-se levar pelas tradições vulgares, que eram inexatas. Affonso Henriques apenas limitou-se a expatriá-la com D. Fernão Peres correndo com eles para fora de Portugal, mas não lhes fez algum outro mal.

Depois de assim proceder e de continuar a deixar-se chamar rei, ainda que ele não se animasse a tomar publicamente este título, o rei de Leão veio a Guimarães com o fim de fazê-lo reconhecer a sua soberania. Quando se aproximava, saiu-lhe ao encontro D. Egas Moniz, que, como disse, foi aio de A. Henriques, e pediu-lhe que desistisse de sua empresa, de atacar o príncipe em Guimarães, porque ele como seu mestre, julgando-se com toda a influência sobre ele, havia de conseguir que reconhecesse a sua soberania. O rei de Leão, primo irmão de Affonso Henriques, reconhecendo a probidade de Egas Moniz, acreditou na sua palavra e retirou-se.

Voltando, porém, Egas Muniz e dizendo ao príncipe o que tinha prometi o em seu nome, não quiz este estar por isso e disse a iodos os fidalgos e padres presentes, que com a sua espada havia de sustentar a soberania e a independência do seu país, se eles o ajudassem, no que todos concordarão.

Então Egas Moniz foi a Espanha acompanhado por toda a sua família, e apresentou-se ao rei com uma corda ao pescoço, dizendo que fizesse d'ele o que quisesse, que o podia enforcar, visto não ter podido conseguir de seu discípulo o que lhe havia prometido. Mas o rei portou-se com generosidade, mandando-o embora; Affonso VII via-se, como seu pai, embaraçado continuamente em guerras com os Sarracenos, e não insistiu n'essa ocasião para que sua soberania fosse reconhecida.

Affonso Henriques foi-se desenvolvendo, e mostrou-se um grande guerreiro. Tomou conta do governo, e continuou a guerra contra os mouros: passou muitas vezes o Tejo para o lado do Algarve e aí os perseguia, mas eles continuamente recebiam reforços da África, e traziam o príncipe em um tormento; passou-se este para a Andaluzia e o rei de Leão para o Algarve. Um batalhava em Andaluzia e o outro no Algarve. Depois de terem expelido quase todos os Mouros d’esses lugares, o rei de Leão tomou conta da Andaluzia, e Affonso Henriques do Algarve, que não pôde limpar de todo porquê ficaram ainda alguns portes e terrenos em poder dos mouros.

N’esta ocasião é que teve lugar a batalha do Campo de Ourique que não foi como a tradição a referiu alguns tempos depois; foi ela uma batalha insignificante, como muitas outras, sem resultado, e se assim não fosse não havia de acontecer o que se viu logo depois d’ela, os Mouros virem até Lisboa e passarem o Tejo para o Norte.

Esta batalha, pois, não teve consequenciais, foram invenções talvez para fazer acreditar em milagres que Alexandre Herculano nega que tivessem existido.

N’estas ocasiões Affonso Henriques retirava-se para Coimbra ou para Guimarães, depois de fazer pazes com os Sarracenos. Foi ao reino de Leão socorrer o rei contra um grande exército inimigo, e faleceu em Astorga, d’onde foi o seu cadáver transportado para Braga, onde se acha a sua sepultura.

Sucedeu-lhe seu filho Sancho I, já maior de 25 anos, e que já tinha ajudado muito seu tempo que apareceram as grandes pretensões dos padres, que trouxeram os monarcas de Portugal muito atormentados n’aquelas eras, durante perto de duzentos anos.

Estas questões consistiam em que os padres queriam gozar de certas imunidades, que os reis não queriam conceder-lhes.

Eles pretendiam regular o modo porque se deviam fazer os testamentos é ser os testamenteiros de todas as pessoas que morressem; e determinaram nas suas constituições eclesiásticas, que todas as pessoas que morressem, e fossem proprietárias, deixassem parte da sua propriedade para a sua alma: esta alma era um convento, uma irmandade, ou uma mitra. Era esta a alma a que queriam que todos fossem obrigados a deixar alguma coisa (Risadas), e aqueles que nada deixassem, como hoje se deixam as missas, eram sepultados como cães no meio dos campos.

Os reis resistiram sempre a estas pretensões, mas o Papa tomava o partido dos Bispos, que instigavam a sua classe.

O Arcebispo de Braga tornou-se muito impertinente com o rei, e queria que cumprisse a força de excomunhões o que desejavam os padres. Tinha ele convocado um concilio, e n'este concilio tinha-se resolvido o que convinha estabelecer em benefício da sua classe, mas Sancho I resistiu a isso, e o resultado foi, que tomando o povo o partido do rei, o Arcebispo de Braga viu-se na necessidade de tugir para Roma, tendo o rei mandado destruir-lhe as temporalidades.

O povo tinha grande amizade a Sancho I, porque ele também o defendia contra as preterições dos fidalgos. Quase todo aquele território de Portugal e Galiza estava nas mãos dos padres e dos fidalgos, que erão, os descendentes dos Godos, e o povo vivia na maior opressão, tanto dos padres como dos fidalgos, mas Sancho empregava todos os meios para o favorecer e proteger, criava municipalidades a quem dava forais, e com esses forais que dava aos municípios, dava ao povo direitos e poderes, com o que os fidalgos todos se irritavam e declaravam-se contra ele.

De maneira que Sancho I e seus sucessores tiveram por muito tempo contra si a fidalguia e os padres. Era chamado pelo povo rei povoador, porque a colonização do país era um dos seus maiores cuidados, favorecendo a emigração do Norte da Europa.

Depois de vários combates, mais ou menos felizes em que ele comandava em pessoa, como era costume n’aquele tempo, sempre repelindo os infiéis, veio Sancho I a falecer na idade de 47 anos pouco mais ou menos, deixando um filho, que foi Affonso II.

Este filho quando viu o testamento do pai, que tinha sido injusto, como ele o considerava, entrou na sala em que estava exposto o cadáver e exclamou diante dos fidalgos, que estavam presentes na sala ardente “ora que testamento fez esse mentecapto!”, dirigindo-se ao cadáver do pai.

Os fidalgos arrepiaram-se com este dito, espalhou-se a notícia por toda a parte, e Affonso II ficou por isso bem mal visto, por mal dizer seu pai na presença do cadáver.

Tanta veneração aos pais se deve, como bem diz Camões.

O testamento determinava que certos territórios e vilas ficariam pertencendo a três filhas, que ele tinha. Estas filhas insistiam em que o irmão lhes desse os seus legados, e ele dizia que estes bens não podiam pertencer a elas, porque eram bens da coroa, que o rei não podia dispor deles, como por exemplo outros reis da Espanha costumavam fazer em seus testamentos, dispondo dos bens que eles levavam toda a vida a conquistar aos mouros, para depois os deixarem divididos, fora do domínio da coroa dilacerando o Estado.

Assim procediam alguns reis absolutos, como Carlos Magno, também dividiu o império que criou, por sus quatros filhos; e também Luiz XIV julgando que tudo podia fazer, deixou a regência a seu filho natural, o duque du Maine, esquecendo-se do filho legítimo de seu irmão, o duque de Orleans, o que não se cumpriu, por não ser justo.

Uma das irmãs deu a sua parte aos Irmãos Hospitaleiros que era uma irmandade que veio depois a ser dos cavaleiros de Malta e que foi de grande importância nas guerras contra os Turcos. Estes Hospitaleiros requereram ao Papa que obrigasse o rei a entregar os bens, que lhes pertenciam, e o mesmo fizeram as outras duas irmãs. O Papa mandou uma bula determinando que Affonso II entregasse os bens, que seu pai havia deixado às irmãs. Ele fez ver ao Papa que erão bens da coroa, e que isso era um mau exemplo, em que não podia consentir, porque era o que faziam às vezes os reis de Espanha, com o que mutilavam-se e enfraqueciam-se as forças da nação, no que ele não consentia para melhor resistir aos infiéis.

O que fez Sancho I distribuindo uma grande parte do território de Portugal pelas filhas, era um desfalque para a coroa, que não devia perder nenhum dos seus recursos; que o mais que podia fazer era dar às irmãs em sua vida as rendas, e só a elas, sem poder consentir em nenhuma outra amortização de terras e bens de raiz.

O Arcebispo de Braga voltou para Portugal por ordem do Papa; mas aconteceu n'esta ocasião falecer o bispo do Porto, o que deu lugar a uma grande desordem na meação no- do seu sucessor. N'aquele tempo os bispos erão nomeados pelo cabido. Anteriormente erão nomeados pelo povo cristão, depois pelos padres em geral, e ultimamente pelos cabidos, até que veio parar a nomeação na mão dos reis. Estas nomeações, como aconteceu com esta davam lugar sempre a muitas desordens, como sucedeu em Milão no tempo de S. Bernardo, onde houve grandes desordens e mortandades por causa da nomeação dos Bispos.

Morreu o rei na idade.de trinta e tantos anos, e deixou em minoridade seu filho que foi Sancho ll, quarto rei de Portugal.

Este Sancho II, ainda que não tinha letras algumas, como já disse que todos eles não as tinham, era homem de muita vivacidade; ficou em minoridade, de 13 anos. Os que governaram em nome d’ele deixarão quo os padres fizessem o que quisessem, e conseguissem o que desejavam conseguir.

Logo, porém, que ele chegou à maioridade, cassou tudo aquilo que considerava como direitos da coroa.

A desordem, a anarquia durante a minoridade continuou ainda com uma força extraordinária. Todos quiseram obter reparações, e indenidades, o que lhes foi concedido pelo chanceler Julião, que foi quem na minoridade continuou a governar mas não foi possível sustentar-se este no meio da anarquia geral: até os conventos andavam em guerra viva entre si. O Papa mandou a Portugal um cardeal, d’Abevilles, que tinha sido bispo de Besençon, homem muito cordato e conciliador, o qual muito conseguiu em favor da ordem, mas ele retirou-se logo que o rei chegou à maioridade.

O rei começando a governar não procurou fortificou-se na opinião do povo, de quem parecia recear-se, esqueceu-se do que fez Sancho I favorecendo e elevando os municípios, que o tornou muito querido do povo.

Continuando a guerra com os Sarracenos, o rei mostrou capacidade militar em vários combates no Alentejo e no Algarve; passou-se da direita para a esquerda do Guadiana, correndo com os infiéis até Ayamonte, e Castro Marim na embocadura d’esse rio, entrou pela Andaluzia, mas Affonso VII passou-se para o Algarve, trocando depois entre si as conquistas, sem, contudo, terem conseguido limpar da raça agarena todo o país, que ficou inteiramente livre no tempo de Affonso III.

Quando o rei voltava para o refaço da paz, parecia mudar sua natureza, encerrava-se em palácio, e não queria saber senão da companhia das damas, tornava-se um maninélo [sic], um rei mulherengo (risadas gerais), até parecia aborrecer os homens; com coisa alguma se importava, deixava correr tudo à revelia. Casou-se com uma senhora, que dizem que era muito formosa, filha de um fidalgo galego da primeira classe de Espanha, mas que não pertencia a nenhuma família real; o rei a amava extremosamente, chamava-se Mercia Lopes de Haro.

Infelizmente para o rei, foi um novo elemento de ódio; ela não era de boa índole, trazia o paço em um torvelinho de intrigas, e o rei tomava sempre o partido d'ela, o que indispunha contra ele os maridos das damas; sucediam-se as desordens e as complicações. Aconteceu falecer o bispo de Lisboa, e o rei manifestai desejos de que fosse nomeado certo sacerdote, mas o cabido, que era quem nomeava os bispos, desprezou o pedido do rei, com o que ele muito se ressentiu. N'esse tempo erão os cabidos que nomeavam, no princípio era o povo cristão, depois foram os padres, depois foram os governos; e depois de nomeados erão logo sagrados por dois bispos vizinhos, sem intervenção alguma do bispo de Roma, como mostra o padre Antônio Pereira de Figueiredo na sua Tentativa teológica, por muitos exemplos, até de santos, nomeados pelo povo cristão, sem intervenção alguma do bispo de Roma.

Um filho do rei, conhecido pelo título de infante de Serpa, reuniu os seus criados e escravos, entre os quais havia alguns Mouros, e foi com eles à Sé em ocasião em que estavam os cônegos reunidos, a tomar-lhes uma satisfação, dirigindo-lhes impropérios e não sei se houve algumas vias de fato. Os cônegos queixaram-se ao Papa, e este ordenou ao rei que desse todas as satisfações aos padres, e excomungou o infante declarando-lhe que só ele podia levantar-lhe a excomunhão, e que para esse fim, se quisesse, fosse à Roma; o rei teve a consentir que seu filho lá fosse, embora fosse filho natural. Fizeram-no colocar-se à porta de uma igreja, onde recebeu muitas varadas da mão dos padres, e também ordem para partir imediatamente, como castigo, para a terra santa onde acabou os seus dias como outros muitos, que lá foram.'

Tal era o efeito das excomunhões n'aqueles tempos; mas veja-se a diferença de hoje: não há muitos anos que o general Curado, que muitos serviços prestou nas guerras do Rio Grande do Sul, deu aqui no Rio de Janeiro umas pancadas em um padre, e foi logo excomungado no tempo do Bispo Mascarenhas, e para se lhe tirar a excomunhão foi levado à porta da antiga igreja de S. José, chamada dos carpinteiros, que estava no lugar onde está hoje a nova, e aí recebeu varadas dos padres, para lhe levantarem a excomunhão; mas há poucos meses viu-se nas vizinhanças um padre ser fustigado com instrumento aviltante, e ficar tudo como se nada tivesse acontecido!! Como os tempos se mudam! et nos mutamur in illis.

Mas ainda temos muito que considerar a respeito de Sancho II. Houve quem dissesse no parlamento que este rei foi um malvado; pelo contrário a história refere que ele nada tinha d'isso. Tinha um grande defeito; era um guerreiro decidido, mas quando vinha para o regaço da paz não queria saber de nada mais.

Não se importando com o governo do Estado, deixando correr quase tudo à revelia, daí resultava grande desgosto não só por isso, como também porque este rei não animava o povo como tinha feito Sancho I; não procurou interessar por ele o povo dando-lhe proteção contra os fidalgos e o clero.

O Arcebispo de Braga, que já se tinha conciliado com o rei e tinha voltado, começou a fazer novas exigências; ele mandou destruir-lhe as temporalidades, e o Arcebispo fugiu com outro Bispo, creio que o da Guarda, para Roma Mas n’essa ocasião o Papa Gregório IX vendo-se perseguido pelo imperador da Alemanha, Frederico lI, fugiu de Roma para a cidade de Lyão e lá abrigou-se debaixo da proteção da França. Foi o Arcebispo de Braga com o seu companheiro intrigar o rei, fazendo ver que ele era um inimigo da religião, que perseguia os padres, e uma tias provas que davam era, que lhes tirava os lavradores para as guerras contra os Mouros, como se o mesmo Papa não o animasse sempre a perseguir os infiéis. Queriam os bispos imunidades e privilégios até para os seus numerosos empregados nas terras que possuíam, e só o desgraçado povo era quem havia de carregar com o peso contínuo das armas. Estas, e outras acusações injustas lançavam sobre o rei. Então o Papa e eles combinarão em empregar todos os meios para obrigar o rei a apear-se do trono, e nomear outro que, os servisse melhor como rei de Portugal, ou antes para conformar-se com as suas pretensões. Lembraram-se do irmão do rei, D Affonso, que tinha ido para Pariz, onde tinha uma tia, a mãe de S. Luiz rei de França, D. Branca, que era irmã da mãe d'ele e de seu irmão Sancho. Esse príncipe, com a proteção da tia casou-se com uma princesa francesa, que possuía uma boa fortuna. Ele tomou o título, que ela tinha de Condessa de Bolonha, ficando conhecido pelo nome de Principe Bolonhês, e o rei por Sancho Capello, porque em moço tinha tomado capelo em uma ordem religiosa.

O Bolonhês não era de certo amigo do irmão. Lembraram-se d'ele o Arcebispo de Braga e o Papa, que, como disse achava-se foragido em Lyão, onde convocou um concilio com o fim de excomungar o imperador da Alemanha que o prosseguiu e desejava também mostrar quanto podia, com o exemplo do rei de Portugal, a quem ia mostrar o seu poder.

Dois bispos foram também a Pariz para tratarem, de combinação com o Arcebispo de Braga, do modo porque haviam de apeiar o rei do trono, e colocar Affonso no seu lugar, que era quem julgavam mais apto para ser rei no seu interesse.

Os bispos que foram ao Bolonhês apresentaram-lhe uma espécie de constituição eclesiástica, a que ele se devia sujeitar com juramento, contendo grande número de artigos, que a história refere longamente. Ele esteve por tudo na esperança de obter o trono, conformou-se com todos esses artigos, provavelmente à moda dos jesuítas com restrições mentais, e jurou seguir essa constituição com todo o rigor, e com toda a exatidão; mas não se resolveu a vir com os bispos Portugal, para porque tinha medo do irmão, quando ele percebesse que se apresentava a querer disputar-lhe o trono.

Então pediram ao Papa que mandasse uma bula, determinando ao príncipe Affonso que partisse para Portugal, com o fim suposto de se preparar aí para marchar para a terra santa. O papa com a maior indignidade favoreceu a tramoia.

N'esta ocasião tinham chegado más notícias da Palestina. Os cristãos tinham sido completamente derrotados por Saladino, e S Luiz, rei de França, preparava-se com um grande exército para ir à sua primeira cruzada; portanto o pretexto era plausível, o vir a Portugal preparar-se para partir também para a Palestina.

Com esta bula do Papa, partiu o Bolonhês para Lisboa, e chegando aí o irmão o recebeu francamente, na boa fé de que ele ia com efeito para aquele fim, mas começou logo a tornar-se suspeito, pelas suas relações, de declarar guerra ao irmão, que estava de boa fé.

O Papa então mandou logo outra bula, determinando-lhe que ficasse em Portugal mesmo, onde havia ainda muitos Mouros a combater no Algarve. Deixou-se o Bolonhês ficar em Portugal, e aí recebeu ainda outra bula, em que se determinava que todos aqueles que o acompanhassem nas suas operações obteriam muitas indulgências.

O povo fanático e ignorante, porque n’aquele tempo era extraordinário o fanatismo e a ignorância, do que ainda lá existe hoje grande dose, segundo Alexandre Herculano; é ele homem de grande talento, que deve conhecer melhor do que ninguém o seu país; e diz muito positivamente que ainda hoje em Portugal não há religião nenhuma, que não há senão muito fanatismo, muita superstição e muita ignorância; ora se assim é hoje, o que não seria n'aqueles tempos?

Por consequência reuniram-se muitas pessoas ao príncipe Bolonhês. O Papa mandou-lhe ordem para que tomasse conta da regência do reino, e desligou o povo do juramento de fidelidade a seu rei, ao qual estava obrigado, dando-o por mentecapto, incapaz de governar, e excomungando-o; assim muitos o abandona vão, e fugiam d'ele como de um ente pesteado.

O rei ainda assim pôde reunir algumas pessoas de brio, que lhe erão fiéis para resistir a uma traição tão indigna, em que entrava o próprio chefe da religião cristã, para vergonha eterna das nações católicas, que lamentavam tanta indignidade e ousadia,

Na ocasião em que o rei estava empenhado n'esta guerra fratricida alimentada pelo Papa, obrigado a estar fora de palácio, a sua querida Mercia Perez de Haro deixou-se roubar por um fidalgo, que entrou no paço e carregou-a, como se fosse possível furtar uma mulher, como se furta uma boceta de ouro. (Risadas.). Entretanto é tal a disposição do nosso código! Se uma moça de 17 anos se deixar seduzir por um homem, é o homem só o criminoso, ela de modo nenhum, é sempre uma santinha (risadas), ainda que a sedução tenha vindo dela mesma, como um laço armado a simplicidade do homem; n’este caso há de casar a força, ou dotá-la na proporção da sua fortuna; creio que em nenhum outro código se vê disposição igual.

Depois que o tal sujeito carregou com Mercia, nunca mais se soube d’ela, nem ela se importou mais com o rei. Tendo sido infeliz nos combates com o irmão, viu-se ele obrigado a pedir socorro ao rei de Leão, quando já estava em estado desesperado; o rei mandou um filho com um exército a socorrê-lo, mas quando ele entrava por um lado na fronteira de Portugal, fugia Sancho II por outro lado, e foi para a cidade de Toledo, onde apaixonou-se de tal maneira, que veio a morrer pouco tempo depois.

Este pedido de socorro nos apuros do rei, que não chegou a tempo, foi muito censurado pelos traidores revolucionários, mas não tinham eles feito pior, recorrendo a um poder estranho, ao Papa, que nenhum direito tem de perturbar e querer governar as nações?

N’esta ocasião aconteceu o caso celebre do castelo de Coimbra. N'este castelo governava um oficial, de nome sempre memorável, Martinho de Freitas Este oficial resistiu sempre ao Bolonhês traidor, nunca consentiu a entrega do castelo. Mas quando soube que o rei tinha morrido, pediu um salvo conduto ao usurpador, a quem agora pertencia o trono, foi a Toledo, fez abrir a sepultura do rei morto, levou as chaves da fortaleza, e colocou-as sobre as mãos do cadáver; vendo que estava morto o rei voltou para Portugal e disse ao novo rei, como tenho agora certeza de que o rei está morto, aqui estão as chaves da fortaleza. O rei louvou-lhe a ação, e deixou-o ficar governando o castelo.

No seu governo Affonso Il portou-se de maneira que fez em quase tudo o contrário d'aquilo mesmo, que tinha prometido aos padres, portou-se com tal energia, que nada puderam conseguir, e acabou com os mouros no Algarve. Foi ele o pai do rei D. Diniz. Este rei, de quem o padre Antonio Pereira diz na sua biografia dos reis de Portugal, que três coisas o fizeram feliz, a mulher, que foi Santa Izabel, o seu amor à justiça e o seu amor à verdade foi quem mais fez para desenvolver a cultura das letras em Portugal.

Affonso lll tinha aprendido a ler e escrever em Paris, onde Carlos Magno com o seu monge irlandês Alcum tinha estabelecido uma universidade em seu palácio.

Affonso IIl foi quem começou, sendo depois substituído por seu filho D Diniz, que foi poeta distinto, e seus versos ainda hoje se leem; eu vi nas mãos do cardeal Mesophanti em Roma e seu cancioneiro; foi D. Diniz quem mais trabalhou pelo desenvolvimento dos conhecimentos humanos no seu país.

Meus senhores, a hora está dada e por isso não posso continuar; se tiver de voltar a esta tribuna então tratarei dos outros reis”.

(Aplausos gerais do auditório. O orador e cumprimentado.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº9, set.1876, p. 31-49 (na integra). Capturado em 17 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/976

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 199. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=781

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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