Conferência Popular da Glória nº 203
Data: 11/10/1876.
Orador: José Martins da Cruz Jobim
Título: História de Portugal III
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras e meus senhores. — Na última vez que tive a honra de vos dirigir a palavra, comecei a tratar dos fatos históricos passados no reinado d'El-rei D. Diniz. Por essa ocasião fiz ver a bondade extrema e a probidade, que o distinguiu contra a vontade tanto do rei de França, Philippe Bello, como do Papa Clemente III, quando resolverão abolir a ordem dos Templários.
Mas antes, é conveniente expor primeiramente quais eram as ordens religiosas e militares, que n'essa época já existiam em Portugal, e quais as que depois se criaram e ainda hoje existem.
Havia ordens seculares externas e ordens regulares internas, com administração interna; estas erão as ordens dos Templários e dos Hospitaleiros ou hospitalários. Estas duas ordens tinham sido criadas em Jerusalém, por ocasião das guerras contra os infleis. A dos Templários criada pelos Franceses, assim se chamava porque estabeleceu-se o seu convento e residência no mesmo lugar em que existira antigamente o templo de Salomão. Depois passou-se para a ilha de Rhodes no meio do Mediterrâneo, mas nem aí puderam permanecer por muito tempo, por que o sultão Saladino tendo derrotado os cristãos e feito n'eles uma mortandade de mais de quarenta mil na batalha de Tiberiades, ficou senhor de Jerusalém, e depois senhor também d'aquela ilha, e a ordem foi obrigada a mudara sua residência para a Itália, d'onde passou-se logo para Paris.
Aí estabeleceu-se no bairro ainda hoje chamado do Templo, onde estava o seu convento.
Estas duas ordens religiosas eram as que tinham feito maiores serviços, e mais nociva guerra aos infiéis.
Aquele edifício permaneceu por muitos séculos e ainda no tempo de Luiz XVI existia a torre, onde aquele rei esteve preso, mas creio que foi destruída pelos reis depois da restauração: mandarão destruí-la, como quase todos aqueles edifícios que lembravam as desgraças d'aquela revolução horrorosa.
A ordem dos Templarios tinha adquirido uma riqueza nunca até então vista, não porque eles mesmos a tivessem solicitado, pelo contrário eles faziam os três votos que fazem os frades de obediência, pobreza e castidade, de obediência cega ao seu superior, como os jesuítas atuais, que prestam um voto de obediência cega ao seu Geral residente em Roma, tendo este Geral o direito de mandar-lhes fazer o que quiser, sem que eles possam opor a menor dúvida, o que torna esta ordem extremamente perigosa em todos os países, porque se acaso o Geral ordenar que eles se reuniam em qualquer parte de um país e promovam uma revolução no seu interesse, ou da sua ordem, eles não têm que duvidar, nem têm o direito de refletir sobre o facto qualquer que ele seja, seu dever é obedecer cegamente, hão de cumprir à risca o que lhes for ordenado.
Assim sucedia a esta ordem, haviam de ir morrer, se lhes dissesse que fossem morrer, e o fanatismo era tal n' aqueles tempos, que apesar da mortandade sucessiva que havia n'essa ordem, os seus freires não se escarmentavam com isso, havia sempre grande quantidade de irmãos, que de novo se alistavam, e prestavam o juramento da Ordem, na ocasião de professarem.
Em Portugal esta ordem dos Templários, que estava espalhada por quase toda a cristandade, tinha prestado grandes serviços nas guerras contra os Sarracenos, assim como a ordem dos Hospitaleiros, que também tinha sido criada em Jerusalém.
Os Hospitaleiros tinham por fim tratar dos feridos nos combates, e ao mesmo tempo que assistiam a eles, também serviam de enfermeiros nos hospitais de sangue.
Estes freires denominavam-se irmãos de S. João de Jerusalém e passaram-se depois para a ilha de Malta, onde ainda hoje existe esta mesma ordem, mas já degenerada e simplesmente honorífica. Não é mais o que foi no tempo das guerras com os Sarracenos; hoje é uma ordem meramente honorífica que recebe qualquer esportula, ou esmola que se lhe queira fazer, cujo destino é favorecer aqueles que sejam irmãos da mesma Ordem. Qualquer pessoa em certas condições pode solicitar uma condecoração da ordem de Malta, e fica então com o direito de receber algum benefício no caso de cair em necessidade.
Além d'estas Ordens internas havia em Portugal também uma ordem que tinha sido criada pelo primeiro rei D. Affonso Henriques, era a ordem de S. Bento de Aviz, completamente portuguesa.
Esta ordem tinha um regulamento conforme a instituição de S. Bento, até que acabando-se as guerras com os Sarracenos, continuou a ser simplesmente honorífica, mas, se d'antes pertenciam a ela todos os que se propunham a militar contra os infiéis, depois não podiam pertencer-lhe senão os militares, que tivessem mais de vinte anos de bons serviços, e o posto de capitão pelo menos; e assim passou para nós, grãs-cruzes só podem ser aqueles que chegam ao posto de general.
Depois d'essa instituiu-se no tempo de D. Diniz a ordem de Cristo. Procurou ele obter permissão do Papa, para esta criação, logo que soube que ia ser destruída a Ordem dos templários, a fim de fazê-la herdeira d'estes que existiam também em Portugal com o seu prior, sujeito ao grão-mestre de Pariz, cujos bens tencionava o rei passar para a nova Ordem.
A perseguição aos templários aconteceu, como fiz ver na conferência pasmada; foi o resultado de uma combinação entre o rei de França Felippe Bello e o Papa Clemente V.
Felippe Bello tendo ido refugiar-se na torre do Templo, que era uma fortaleza inexpugnável, viu, porque lhe mostrou o grão-mestre Jacques Molai, uma grande quantidade de ouro e as riquezas extraordinárias que possuía em joias preciosas aquela ordem. Acendeu-se-lhe logo a avareza de apoderar-se de toda esta imensa riqueza, e nesse intuito intendeu-se com o bispo de Bordéos com o qual combinou fazê-lo Papa. Depois de empregar todos os meios para este fim, o Papa por sua influência nomeado, convocou um concilio no Delphinado em França.
Esse concilio chegou a reunir mil trezentos e tantos bispos. O Papa mandou sondar as disposições dos bispos a respeito dos Templários, e pensando eles que não havia razão alguma para que fosse abolida a ordem, e que quando o devesse ser, não havia motivo para sê-lo do modo, porque previam, o Papa à vista d'essa oposição a abolição da ordem, de motu próprio, e a seu arbítrio expediu uma bula abolindo-a.
Esta bula foi remetida diretamente ao rei de França, que foi em pessoa ao concilio, apresentá-la e fazê-la ler; nenhum dos bispos foi capaz de dizer uma só palavra contra, todos se conformarão com ela.
Imediatamente depois que a ordem foi abolida o mesmo Jacques Molai, grão-mestre que tinha mostrado ao rei as riquezas, foi preso, e assim aconteceu a quase todos os irmãos que erão mais notáveis e influentes. Em um só dia foram queimados na praça pública uns cinquentas ou sessenta e tantos, e Jacques Molai quando o lançarão na fogueira gritou, dizendo que emprazava o rei e o Papa para que dentro em muito pouco tempo comparecessem perante o juízo de Deus, a fim de darem conta de tamanha malvadez.
Com efeito no fim de três meses morreu o Papa, e o rei apenas viveu mais seis ou sete meses.
Há em Portugal uma ordem de que ainda não fiz menção, é a ordem da Torre e Espada que foi criada por D. Affonso V.
N'aquele tempo havia em Portugal muita superstição, muita credulidade e muita ignorância. Corria uma profecia, não sei de quem, que dizia, que o rei que fosse ao reino de Fez na África ou a Tunis onde existia uma torre, na qual estava uma espada, e se apoderasse d'ela, seria senhor de todo o norte de África.
O rei Affonso V na esperança de obtê-la para fazer o mesmo que fez o rei dos Hunos, que quando descobriu a espada que tinha sido do seu Deus acreditou que havia de ser senhor do mundo inteiro, assim também Affonso entendeu que indo apanhar aquela espada, poderia conseguir conquistar toda a Mourama, e portanto passou-se a África, Ceuta, e d'aí foi tomar algumas outras cidades; mas ia-lhe custando caro o entrar pelo país, teve de fugir e de comprometer a guarda, que o acompanhava, .que foi toda sacrificada, enquanto dava tempo a que se salvasse o rei.
Entretanto ele tinha instituído essa ordem da Torre e Espada que continuou e continua ainda hoje em Portugal.
Outra ordem havia muito antiga, a de S. Thiago, que era espanhola, e lã tinha o seu grão-mestre. D. Diniz, como foi muito zeloso pela dignidade da nação e da sua coroa, trabalhou quanto pôde para tornar esta Ordem independente da Hespanha, o que muito lhe custou pela oposição dos Espanhóis; mas conseguiu livrar o seu país do perigo de serem os freires portugueses obrigados a obedecer a Hespanha nas guerras contra ela, vindo segundo o juramento que faziam contra o seu país, e conseguiu torná-la independente.
Finalmente aqui no Rio de Janeiro foi criada em 1818, na aclamação de D. João VI a Ordem de N. Senhora da Conceição de Villa Viçosa, para comemorar a revolução de 1640, que acabou com o cativeiro da Espanha durante 60 anos, e que elevou ao trono a casa de Bragança; esta ordem ficou sendo meramente portuguesa.
Agora passaremos a referir alguns factos do reinado de D. Diniz que mostram que foi este rei, como já tive ocasião de dizê-lo que mais se interessou pela prosperidade e engrandecimento da sua pátria.
Uma das coisas que ele tinha mais a peito era a prosperidade da agricultura, que é a primeira de todas as artes; todos os anos costumava viajar por quase todas as províncias, mas a que era da sua predileção era o Alentejo, onde costumava demorar-se por muito tempo conversando com todos os lavradores, dando-lhes instruções e bons conselhos, como um verdadeiro pai; era dotado de muito bom senso, e de bastante instrução para aqueles tempos; tinha recebido uma educação esmerada por dois homens, um português que tinha ido estudar em Bolonha e outro que para ser seu mestre, tinha vindo de propósito de Paris, por mandado de Affonso III, seu pai.
Com os seus conselhos e benefícios aos lavradores o rei soube promover a agricultura a tal ponto, que Portugal n'essa época não só tinha grande abundância de trigo para as suas necessidades, corno exportava também muito, como antigamente acontecia na província do Rio Grande do Sul, onde os agricultores não sabiam no tempo da colheita onde guardar tanto trigo.
Toda essa fartura no Rio Grande do Sul que enriqueceu a muitos dos primeiros colonos, pela maior parte Açorianos, desapareceu quase repentinamente, mais por relaxação e desleixamento do que por mudança da natureza do clima; passarão os seus habitantes a servir-se do farinhas estrangeiras alteradas, que formão um pão ainda que claro, muito menos saboroso, e por um preço exorbitante; esperemos que as novas gerações de colonos ativos, e inteligentes das atuais colônias, facão voltar a antiga abundância, e que enriquecendo como os primitivos metam inveja á multidão de vadios, e de malfazejos que abundam por toda a província.
Não era só a agricultura que merecia a atenção de D. Diniz. Ele promovia também a indústria extrativa.
De Portugal exportava-se em seu tempo muito ferro, muito sobre e muitos outros metais, e havia no Alentejo uma mina na serra da Adiça, que os Romanos tinham já explorado, e que ele mandou de novo explorar por muito tempo, d'onde se tirou muito ouro, e se continuou a tirar até a época em que os Portugueses foram à índia, e vieram ao Brasil, o que foi de algum modo fatal para aquele país, porque deu-lhes a preguiça; geralmente, contentavam-se com o ouro que ia d'estas colônias, com o qual compravam tudo aos estrangeiros, que tudo lhes levavam, a troco de muito ouro que recebiam das suas colônias.
Assim perderam todo o gênero de indústrias, que já começavam, todo o amor ao trabalho, para só se ocuparem com festas, e construções de conventos de frades e freiras por toda a parte; o alimento e vestuário vinha quase todo de fora para a troco do ouro, e das preciosidades coloniais. Além d'isto a população das raças proletárias escoava-se quase toda para as colônias, e só lá ficavam os fidalgos senhores de quase todo o reino sugando o escasso trabalho do povo no meio da ociosidade, dos divertimentos da caça, e das festas sem fim.
Não foi, porém, somente a agricultura e a indústria extrativa que merecerão os cuidados de D. Diniz, ele também promoveu por todos os modos a navegação. A costa de Portugal sempre teve navegação, principalmente por causa dos piratas da África, que vinham muitas vezes desembarcar na costa, para tomar e cativar gente que iam vender na África; por isso erão obrigados a ter sempre uma esquadra na costa de Portugal. Também os Portugueses faziam o mesmo aos mouros; e era um costume antigamente entre as senhoras o terem as suas mucamas escravas mouras, com as quais iam acompanhadas por toda a parte.
A navegação era uma necessidade, e tornou-se um dos grandes elementos de progresso para Portugal, porque ela favorecia n'esse tempo o comercio externo transportando os gêneros produzidos no país, em navios portugueses.
Além d'isto o rei não esquecia-se de transportar do estrangeiro para o país todas aquelas coisas, que podiam ser de alguma utilidade. Promoveu a cultura de plantas de utilidade de todas as partes do mundo, d’onde ele as podia haver; mandou vir de França, e do norte da Europa, grande porção de sementes de diversas espécies de pinheiros, com que plantou nas vizinhanças de Leiria um pinhal imenso, que ainda hoje existe. Este pinhal era o que fornecia madeiras necessárias para as construções de navios; e estabeleceu outro pinhal ao pé de Azambuja.
Todos sabem que na Europa existem várias qualidades de pinho, que são muito superiores ao pinho que nós temos nos nossos imensos matos de pinhais nas províncias do Sul, na província do Paraná, na do Rio Grande do Sul, etc; mas o nosso pinheiro não é para se comparar com o pinheiro da Europa, porque não tem a mesma rigidez e força, não pode servir para mastros de navios, por ser madeira fraca que verga com facilidade. Além disso, o Taboado não é para se comparar com o Taboado de pinho da Europa.
Entretanto nós que temos necessidade de possuirmos também nas nossas praias alguma cultura de plantas, que impeçam o transporte das areias como nas da Laguna, de Bojuru, de S. José do Norte e do Albardão, ainda não tivemos a curiosidade de mandar vir d’esses pinheiros como fez D. Diniz, para se plantarem de modo a impedir que os grandes areais esterilizem aqueles terrenos, nem temos tido o cuidado de ter à mão uma plantação que seja empregada com proveito à navegação. Não se faz senão destruir as nossas arvores mais uteis, sem se cuidar na cultura de outras que não seriam menos uteis. Hoje há imensa importação de pinho americano, que só serve para pasto do cupim, quando temos à mão madeira de forros, que além de muito bela, não é sujeita aos estragos de tão daninho inseto.
Abunda a tababuia nas praias de Jacarepaguá e outras vizinhanças do mar, e quase ninguém tira partido de tão rica madeira, para a empregar em lugar do maldito pinho americano, que só serve para os climas frios, onde não medra o estragador cupim. É muita miséria!
Mas convém dizer em tudo a verdade; D. Diniz com todas as suas boas qualidades tinha um grande defeito, era excessivamente galanteador. Era casado com uma senhora de grandes virtudes, filha do rei de Aragão. Esta senhora tinha sido solicitada por muitos príncipes da Europa e tinha rejeitado todos os casamentos; a Providência que a destinava a ser uma santa, a reservou
para um esposo, que não sabia guardar-lhe o respeito que lhe era devido, o que ela sofria com a maior resignação e paciência.
Ele teve nove filhos naturais e mais duas meninas. Trouxe estas crianças todas para o interior de palácio, onde sua mulher com a maior resignação e paciência as recebia, tratava d' elas como se fossem seus próprios filhos, e as fez criar a todas. Da santa rainha teve D. Diniz sete filhos, entre os quais uma menina que foi casada, com o rei Affonso XI de Espanha e um menino que foi depois Affonso IV. Este era o tempo dos Affonsos; na Espanha e Portugal havia sempre uma porção de Affonsos; por isso ainda hoje se costuma dizer - é do tempo dos Affonsinhos,- para dizer-se que qualquer coisa é muito antiga.
Mas ninguém n’este mundo pratica o mal que não venha depois a receber o castigo. D'estes filhos naturais vieram a D. Diniz grandes desgostos e teve muito que sofrer. Tinha um natural, chamado Affonso Sanches; este era o seu predileto;
mostrava ter-lhe mais amizade e amor do que ao filho legitimo e seu herdeiro, que veio a ser depois Affonso IV. Este encheu-se de ciúme por ver que seu irmão natural era mais estimado, e era levado pelo rei a todas as partes, tendo-o feito seu mordomo, governador do seu palácio; enfim tinha-lhe feito toda a sorte de honras, o que não praticava com o filho legitimo. D'aqui resultou que este desesperado sublevou-se com o adjutório de alguns fidalgos, que estavam sempre prontos para o acompanhar, porque tendo esperanças de o verem em pouco tempo feito rei, deseja vão agradar-lhe.
Os fidalgos, que tinham sempre na soa companhia grande número de paniguados criminosos pelo direito de coutada, com que os acolhiam para o seu serviço, sem que a justiça os pudesse perseguir, dispunham, de gente que armavam, e faziam seguir o partido do príncipe.
O príncipe aproveitou-se d'estas disposições dos fidalgos e pôs-se em campo a fazer depredações em todo o reino, indo primeiramente para Traz os Montes, onde se fizeram muitos roubos - depois foi a Guimarães, a que pôs sítio, mas ali o povo corajosamente resistiu-lhe. Não podendo entrar n’aquela cidade e tendo notícia de que o rei estava em Coimbra para lá se encaminhou, a fim de obrigá-lo a deportar o irmão, ou a desfazer-se d'ele.
Ao mesmo tempo que D. Diniz tinha bom fundo, tinha também rompantes de homem colérico.
Disseram-lhe que a rainha Santa Izabel, (assim a chamamos, porque todo o mundo já em vida a considerava como, tal pelas suas virtudes,) mandava dinheiro ao filho; o rei acreditando n'isso, viu a santa dispor-se a sair levando um
embrulho no seio, e pensando logo que era dinheiro, que ia mandar ao filho, avançou-se a ela para lh'o tirar, mas em lugar de dinheiro, diz a tradição que achou-se com um ramalhete de flores. Ella era incapaz de mandar dinheiro ao filho para entreter uma guerra parricida, mas na persuasão d'isso degradou-a o rei para a Villa de Alomquer, onde ele e ela mesmo gostavam de passar algum tempo, aí tinham um palacete.
Achando-se aí retida, quando soube que o filho vinha de Guimarães para Coimbra atacar o pai, saiu do degredo em que estava, montada apenas n'uma burrinha, acompanhada somente de uma dama e de um criado, e foi encontrar-
se em caminho com o filho, e com aquela eloquência que só a virtude pôde dar, fez-lhe ver o mal que fazia, o ato criminoso que praticava, revoltando-se contra seu pai. Convenceu-se o príncipe do mal que fazia, e foi na companhia d'ela lançar-se aos pôs do rei pedindo-lhe perdão, e este então não lhe fazendo mal algum prometeu-lhe demitir Affonso Sanches de seu mordomo; mas pouco tempo depois continuando Affonso Sanches na administração da casa, o ódio do filho reapareceu de novo, sublevou-se outra vez, e veio atacar o pai, que teve a fraqueza já na sua velhice de fazer muitas concessões ao filho, e fazer seguir para Espanha Affonso Sanches.
Segunda vez a rainha, que era sempre o anjo da paz interveio no conflito sem tomar parte nas concessões do rei. Estas concessões foram muito censuradas pelo povo; por elas ficou D. Affonso, seu herdeiro, com direitos soberanos em vida de seu pai e seu rei.
Mas estes fatos desgostaram tanto à El-rei D. Diniz que ele veio a sucumbir em pouco tempo, em Lisbôa sendo sepultado no convento de Odivellas.
Santa Isabel não o abandonou um momento durante todo o tempo cie sua moléstia, e logo que ele faleceu retirou-se da corte e foi para o seu aposento; d’aí a pouco voltou para o meio da corte vestida de freira de Santa Clara. O convento d' esta invocação em Coimbra tinha sido edificado à custa do seu bolsinho.
Os fidalgos quando a virão assim vestida de freira e com o cabelo cortado pediram-lhe muito que desistisse por ora do seu intento, que não abandonasse seu filho, porque, disseram-lhe, ela ainda era necessária para dirigi-lo que não tinha bastante experiência do governo.
Por fim acedeu conservando-se em Lisboa até ao aniversário da morte de D. Diniz, época em que ela retirou-se definitivamente para o convento de Santa Clara em Coimbra. Ainda viveu dez anos, e d' este convento costumava sair de vez em quando para ir a uma romaria a S. Thiago de Compostella na Espanha. Quase todos os anos fazia esta romaria com a maior simplicidade possível
D. Affonso IV, seu filho, no começo do seu governo não mostrava grande discernimento; por qualquer cousa promovia questões com os vizinhos, o que não acontecido com o pai, por me D. Diniz tinha evitado durante toda a sua vida dissenções com os povos vizinhos sem quebra alguma da sua dignidade e de seu país.
Não houve, pois, outras guerras no tempo de Diniz, mas no tempo de D. Affonso, seu filho, houve várias guerras por cousas insignificantes promovia questões com os vizinhos, mas n'estas guerras não costumava comparecer, mandava um exército saqueara Galiza, e o rei de Espanha mandava atacar o Algarve; assim faziam-se depredações n'aqueles, lugares e tudo ficava n'isso.
Em uma ocasião vindo o rei de Castela a fronteira, o de Portugal também se aproximou d'ela e Santa Izabel receando algum conflito, apresentou-se e acomodou-os; ela tinha tanta eloquência que tudo conseguia com sua eloquência maternal, com os seus bons modos, e a sua doçura; tornaram-se eles depois amigos, o que foi de grande benefício à Espanha contra os mouros.
D. Affonso tratou casamento para a filha de um príncipe de Hespanha com seu filho D. Pedro. Esse príncipe era primo co-irmão do rei de Hespanha e tinha uma fortuna colossal; era militar muito distintos, e de muito talento até como poeta; tinha muitas vezes combatido os Mouros em diversas ocasiões e feito grande número de presas, de modo que tinha ficado extremamente rico à custa dos Mouros. Quando tratou o casamento prometeu dar à princesa, sua filha, setecentas mil doblas, que era para aquela época uma soma enorme.
O rei de Espanha tinha-se desgostado muito com este ajuste de casamento, porque não gostava do parenta, parecia ter d'ele algum ciúme, viviam sempre em oposição, e, portanto, quiz impedir que D. Ignez, sua sobrinha, viesse para Portugal. D'aqui resultou partir o rei de Portugal para a fronteira com tenção de invadir a Hespanha; mas n'essa ocasião Santa Izabel que ainda vivia foi até lá, para novamente os acomodar.
Era na época da canícula, quando o sol na Europa toma um ardor extraordinário, a ponto dos pássaros chegarem a cair atordoados, ela fez a sua viagem como costumava e chegando à vila de Estremoz, achou-se de tal sorte alquebrada de forças e doente, que aí faleceu, d'onde a trouxeram para o seu convento de Santa Clara em Coimbra, onde está sepultada.
Depois d'isso veio a princesa, que tinha de casar com o príncipe D. Pedro, filho legitimo de D. Affonso IV. Esta princesa, que era a segunda mulher d'esse príncipe, pois quando o pai morreu ele já tinha vinte e sete anos, trouxe na sua companhia uma dama, que era Ignez de Castro, moça de muito espírito, muito prendada, e de uma formosura extraordinária. Quando chegou à corte logo as damas, com a sua propensão ordinária, para a crítica (hilaridade) puseram-lhe o apelido de pescoço de garça, por ter um pescoço alongado, sobre um belo colo.
O príncipe ficou embebido á vista de tanta beleza e de tantas prendas; a princesa com aquela perspicácia que as senhoras costumam ter e nada lhes escapa quando têm amizade a seus maridos, com o competente ciúme, percebeu logo a inclinação que tinha o príncipe para a dama formosa, e incomodava-se muito com isso. Apenas teve o primeiro filho no fim do tempo certo, pensou que convidando-a para comadre criava uma barreira a paixão do marido; ela foi, pois, madrinha do primeiro filho que teve a princesa. Esta chamava-se Constança, e perdeu os dois recém-nascidos sucessivamente.
O parentesco espiritual parece que produziu antes o resultado contrário; a título de comadrinha o príncipe ainda mais se chegou para ela, (hilariedade); d'aí resultou viver a princesa em grande desgosto, e quando teve o segundo filho uma febre ardente lhe sobreveio e foi a causa da sua morte.
O príncipe e a família real, estavam por vezes em Coimbra, aí mudou-se ele do paço para uma casa que ficava ao pé do convento de Santa Clara, levando para sua companhia Ignez de Castro, a pretexto de morar também com dois irmãos,
que tinham vindo de Espanha.
O príncipe alegou depois que se tinha casado com Ignez, mas se casou nem ele mesmo o comunicou a ninguém, era um segredo que só revelou muito depois da morte de Ignez, e de ter subido ao trono, e de uma maneira muito solene como veremos depois.
Os fidalgos portugueses tinham muito ódio, e muito ciúme dos dois espanhóis irmãos de Ignez, que ela tinha mandado vir para Portugal e viviam na companhia do príncipe. O príncipe D. Pedro tinha-lhes uma amizade extrema, era com eles que passeava, e ia frequentemente as caçadas, e sempre com eles andava por toda a parte.
Os fidalgos faziam ver ao rei que o príncipe devia casar terceira vez, com outra princesa, e chegou-se a realizar um tratado de casamento com urna princesa da Europa, mas o príncipe não queria ouvir falar de casamento, e por isso fugia do rei quanto podia.
Os fidalgos instavam como rei, e diziam que o único meio de acabar com esta paixão ilícita, e contraria aos interesses do Estado era tirar Ignez de Castro da companhia do príncipe, matando-a ou degradando-a. O rei persuadiu-se d'esta necessidade cruel, para que pudesse o príncipe decidir-se a casar-se com ama outra princesa. Abalou-se de Lisboa, que era a residência de sua predileção e foi para Coimbra.
Ignez de Castro já tinha notícia das indisposições que contra ela havia, porque o príncipe lh'o havia comunicado, tendo sido avisado com antecedência pelo seu amigo arcebispo de Braga, mas não acreditou no aviso, pareceu-lhe impossível que houvesse quem tanto ousasse.
Quando Ignez soube que o rei tinha chegado a Coimbra pressentiu logo que não ia lá senão por causa d'ela, e assim tira-se dos seus cuidados, sai de casa sozinha com os filhos e vai a palácio; tinha já três meninos e uma menina. Chegando apareceu-lhe logo D. Affonso IV; ela prostrou-se lhe aos pés e tanto chorava ela, como as crianças; o rei pareceu muito comovido, e ordenou-lhe que se retirasse assegurando-lhe que nenhum mal lhe faria. Ella entre muitas lagrimas e soluços só lhe pedia perdão, declarando-se inocente, sem fazer ao rei as exprobações que refere Camões, nem elas erão próprias de quem pedia misericórdia, serão até ridículas em extremo tal. Tais palavras não eram capazes de ser postas na boca de uma infeliz, nem por Corneille nem por Racine.
Na sua súplica não alegou que se tinha casado, e se o fosse, parece que não lhe era permitida tal declaração, por conselhos do príncipe.
Logo que ela se retirou a presentam-se os fidalgos seus algozes, que tinham vindo com o rei, que o decidirão pela razão de Estado que alegaram, de que o príncipe pela sua grande amizade aos espanhóis comprometeria a independência do reino, e desprezaria a eles, fidalgos portugueses; o rei como era de leviano propósito, mudou de parecer e deu ensanchas aos fidalgos para fazerem o que entendessem; eles correram logo a casa de lgnez. O príncipe n'esse dia tinha saído para suas habituais caçadas com os amigos Castros, irmãos de lgnez.
Eram os assassinos três, logo que a virão seguram-na e cravam os punhais que levavam.
Quando da sua caçada, voltou á cidade o príncipe D. Pedro, e achou lgnez morta, perdeu os sentidos, e ficou por tanto tempo estupefato, que parecia que não recuperava mais a razão; depois quis estrangular os criados, que tinham deixado entrar os matadores. Eles porém desculpavam-se com a grandeza das pessoas, que lá se tinham apresentado da parte do rei, que o fato se tinha passado com grande rapidez, e que eles o não tinham presenciado, nem podido prevenir.
O príncipe depois de voltar a si, fez edificar dois belos túmulos na Igreja de Santa Clara, um para ele, e outro para lgnez de Castro.
Esses túmulos foram muitos anos depois profanados por soldados franceses, quando Junot invadio Portugal. Estes invasores avarentos procuravam ouro por toda a parte; abriram os túmulos, e espalharam os ossos tanto de lgnez de Castro como de D. Pedro por toda a parte.
O príncipe combinou-se com os fidalgos da sua amizade e pôs em campo uma força formidável para obrigar o rei a entregar-lhe os assassinos de lgnez de Castro.
N'essa época já não existia Santa Isabel para valer ao rei.
O príncipe vendo que o rei se tinha entrincheirado no palácio e que lá se achavam os fidalgos que tinham assassinado Ignez de Castro, começou a fazer estragos por todo o reino como tinha feito D. Affonso, seu pai, no reinado de D. Diniz; de maneira que se D. Affonso fez esse mal a seu pai, veio a pagar, porque seu filho fez-lhe o mesmo que ele tinha feito a seu pai.
O rei juntou uma força suficiente para vêr se continha o filho, e depois de muitas marchas e contramarchas este acomodou-se com as promessas do rei, de dar-lhe muitas vantagens. Uma das cousas que ele desejava era que se lhe dessem maior apanágio, e maiores rendas. O rei dirigiu-se às cortes para esse fim mas as cortes fizeram-se de esquecidas nunca trataram d'isso.
E o príncipe tornou a aparecer em campo, mas afinal o rei deu-lhe novas atribuições, e passado pouco tempo veio a sucumbir o rei acabrunhado de desgostos, sucedendo-lhe este moço, que desde a morte de Ignez parecia estonteado dominado por um desejo insaciável de vingança, tinha uma propensão horrível, um gosto particular para castigar os criminosos por suas próprias mãos como diz Camões:
“Fazer nos mãos cruezas, fero e iroso, Erão os seus mais certos refrigérios.”
Em outra ocasião, se puder voltar a esta tribuna, trataremos das suas vinganças contra os assassinos de Ignez, que se tinham refugiado na Espanha, de seu amor a justiça que lhe mereceu o título de rei justiceiro, das honras que fez ao cadáver de Ignez, e de outros fatos da sua vida, que o tornarão um dos reis mais populares de Portugal".
(Ao terminar a conferência, o orador é muito aplaudido e cumprimentado.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº10, out.1876, pp. 89-107 (na integra). Capturado em 18 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/1131
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 203. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=786
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)