Conferência Popular da Glória nº 218

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 26/11/1876

Orador: José Martins da Cruz Jobim

Título: História de Portugal III

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se domingo a conferência n. 218 no salão das escolas da Glória, em presença de grande número de senhoras e cavalheiros. Ocupou a tribuna o ilustrado Sr. Senador José Martins da Cruz Jobim, que disse:

Na nossa última conferência começamos a exposição de alguns fatos notáveis do reinado de D. Diniz, hoje continuaremos a tratar do mesmo assunto, dos relevantes serviços que ele prestou à nossa nação, do que se passou com sua esposa, Santa Isabel, e com seu filho, que foi depois dele Affonso IV, e se o tempo permitir trataremos também das desgraças de Ignes de Castro. Mas antes disso convém dizermos quais foram as ordens religiosas e militares que prestaram relevantes serviços a Portugal, e muito contribuíram para o estado de segurança, de independência, de paz e tranquilidade daquele reinado, depois de terminada por Affonso III a guerra continua com os Sarracenos, sustentada pelos reis antecedentes durante mais de duzentos anos.

Dessas ordens algumas havia que tinham um governo superior externo, outras eram completamente nacionais. As externas eram a dos Templários, a dos Hospitalários ou Hospitaleiros, e a de Santiago; as internas era a de Bento de Aviz, a de Cristo criada neste reinado de D. Diniz veio depois a da Torre e Espada criada por D. Affonso V, e finalmente aqui no Rio de Janeiro foi criada por D. João VI, na sua coroação, a de Nossa Senhora de Villa Viçosa, a 8 de dezembro de 1818, para comemorar a independência de Portugal pela casa de Bragança, depois do cativeiro á Espanha durante 60 anos.

Tinham todas estas ordens as suas insígnias, o seu uniforme e os seus estandartes, faziam os três votos, que fazem todas as freiras, de pobreza, castidade e obediência cega aos seus superiores, como fazem atualmente os jesuítas ao seu Geral, residente em Roma, o que os tem tornado suspeitos e perigosos aos olhos de muitas nações.

Daquelas ordens uma havia, que D. Diniz com razão considerou como perigosa, que foi a de Santiago, a qual era espanhola, e obedecia a um gran-mestre e administração espanhola; vendo o grande perigo que daí podia resultar para a sua nação, trabalhou muito para destaca-la de uma administração externa, e a grande custo o conseguiu, apesar da oposição dos espanhóis; mas ele tinha jeito para tudo conseguir, donde proveio dizer-se como proverbio que el-rei D. Diniz fez tudo quanto quis. As ordens dos Templários e dos Hospitalários tinham sido criadas em Jerusalém, para socorrer os peregrinos, assistir aos combates e tratar dos feridos. Os chamados Templários, assim se chamavam por ter o seu mosteiro no lugar onde esteve o templo de Salomão, passaram-se depois de terminadas as cruzadas, para um bairro de Paris, chamado de Templo, onde tinham a sua residência; os Hospitalários chamavam-se irmãos de S. João de Jerusalém, depois passaram-se para a ilha de Rodes, no centro do Mediterrâneo, e aí mesmo prestaram muitos serviços à cristandade contra os Sarracenos, mas depois da célebre batalha de Tiberíades, em que o sultão Saladino matou mais de 40 mil cristãos, e tornou a tomar Jerusalém, apoderou-se aquele sultão de Rhodes, e os Hospitalários refugiaram-se na Itália, daí passaram para a ilha de Malta, por doação que lhes fez o imperador Carlos V, a quem pertencia aquela ilha como rei da Espanha. Hoje esta ordem é simplesmente honorífica, como outras. A ilha foi tomada pelos franceses, quando foram com Napoleão ao Egito em 1789, e em 1800, depois da derrota da esquadra francesa em Abukir, os ingleses apoderaram-se daquela ilha, e lá param as suas esquadras do Mediterrâneo até hoje.

Na nossa última conferência fizemos ver como acabaram os Templários por uma horrível combinação de interesses, entre o papa Clemente V e Philippe Bello de França, que tinha visto no Templo as burras cheias de ouro que possuía a ordem. Ela tinha-se enriquecido imensamente pelas doações contínuas e espontâneas de toda a cristandade, em consequência da simpatia que lhes consagrava pelos seus grandes serviços por toda a parte, onde ela estava ramificada. Em Portugal e na Espanha foram muito grandes esses serviços na guerra contra os sarracenos, eram eles e os Hospitalários que nos combates avançavam na frente, e nas retiradas guardavam sempre a retaguarda, e depois das vitorias guardavam os castelos tomados e às vezes retomados de castelos, eram passados todos à espada pelos mouros, e logo eram substituídos por outros, que se apresentavam voluntariamente para o serviço da religião naqueles tempos de tanta incredulidade e dedicação religiosa.

Para se apoderar das riquezas dos Templários, de combinação com Philippe Bello, convocou o papa um concílio em Viena, no Delfinado, aí reuniram-se mais de 300 bispos, mandando o papa sondá-los sobre a abolição, sabendo que todos repugnavam aprova-la, enviou-lhes uma bula acabando com a ordem, sem dar outro motivo senão que era uma ordem muito suspeita Ordinem valde suspectum, dizia ele, na bula; foi esta lida perante o rei, e nenhum bispo tugio nem mugiu, e logo que foi abolida mandou o rei prender o gran-mestre Jacques Molai e os principais membros da ordem, que depois de martirizados e de confessaram no potro e na roda o que se queria que dissessem no meio das dores, foram queimados em vida. Jacques Molai, quando o lançaram à fogueira gritou emprazando o papa e o rei para comparecerem brevemente perante o juízo de Deus, a fim de darem conta de tanta malvadez. E com efeito o papa faleceu daí a três meses, e o rei no fim de seis ou sete meses.

El-rei D. Diniz, vendo estas disposições acautelou-se logo, solicitando a criação de uma ordem nova, a de Cristo, para a qual passou todos os bens dos Templários, de sorte que, quando o papa os quis haver e distribuir pelos seus protegidos, já estavam com novos donos. Irritado por este logro, mandou por uma bula repreender o rei de Portugal, de Castella, e de Aragão, por não terem prendido todos os Templários, com o que eles pouco se incomodaram.

A ordem dos freires de Aviz, que tinham a sua sede no Alentejo, na vila de Aviz, foi criada por D. Affonso Henriques, e foi depois simplesmente militar, para os que tivessem mais de vinte anos de bons serviços e a patente de capitão, e só os tenentes generais podem ter a gran-cruz. A ordem da Torre e Espada foi criada por Affonso V, em consequência de uma profecia, não sabemos de quem, que prometia o domínio de todo o norte da África a quem se apoderasse de uma espada, que estava em uma torre do reino de Fez ou de Tunis. Lá foi à África D. Affonso, chamado o Africano, atrás da espada; apoderou-se de Ceuta defronte de Gibraltar e de outros lugares, mas, estranhando-se pelo país, foi obrigado a retroceder, perdendo quase a vida, se não fosse a dedicação de um fidalgo de nome Menezes, que expos a morrer com seus soldados, para dar tempo ao rei de refugiar-se em Ceuta, cidade esta que ficou pertencendo aos portugueses desde então, até o cativeiro de Espanha, que dela apoderou-se até hoje.

Na administração interna D. Diniz bem-fazejo e instruído como nenhum de seus antecessores, e sempre guiado por seu mestre Emery d’Ebrard, que seu pai tinha mandado vir de Paris, e Domingos Jardo, português que lá tinha estudado, esforçando-se sempre por promover tudo o que podia contribuir para o engrandecimento e prosperidade do seu país. A agricultura, que é a primeira de todas as artes, e da qual dependem quase todas as outras, merecia-lhe tanto cuidado, por isso deram-lhe os povos o título de rei lavrador; percorria todos os anos as províncias, no meio de paz profunda, que soube conservar com os vizinhos, entendia-se com os lavradores, animava-os por todos os modos, dando-lhes terras e protegendo-os contra as usurpações dos fidalgos.

Felizmente para Portugal nunca lá se pode estabelecer o feudalismo como em outros países da Europa, o direito de confirmação que os primeiros reis estabeleceram o vedava, e as inquirições no começo de cada reinado encurtavam as pernas dos que queriam abranger mais do que podiam cultivar; daqui nasciam odiosidades aos reis, mas ganhavam os povos, mormente com os direitos que os forais davam aos municípios.

O comercio também merecia-lhe muita atenção; no seu tempo existia uma caixa de socorro, que não era uma instituição egoística, como os bancos atuais no interesse dos que são ricos que querem ficar mais ricos, mas no interesse daqueles negociantes honrados que, por um incidente qualquer, ficavam desgraçados independente de culpa sua; nessa caixa achavam socorro, ou para começar o seu negócio, ou para poderem viver na sua desgraça, e para isso contribuíam todos desinteressadamente.

Atendia muito aos progressos e à prosperidade da navegação, e para que não faltassem madeira de construção, mandou vir do norte sementes de penisco, e criou dois grandes pinhais, um em Ericeira, e outros nas vizinhanças de Azambuja, donde se tiram excelentes mastros de navios, como nós podíamos ter, plantando desses pinheiros nas nossas praias do sul, nas da Laguna, do Bojuru de S. José do Norte e do Albardão, onde há imensos areais, que deixariam de esterilizar as terras e incomodar os moradores fixando-se nas áreas, como fez D. Diniz nas vizinhanças da cidade de Eiriceira.

Também a indústria extrativa mereceu-lhe especial cuidado; de Portugal exportavam-se muitos metais, como ferro, cobre, e da Serra da Adiça no Alentejo extraía-se bastante ouro, o que continuou até a descoberta do caminho da Índia e das minas do Brasil, que longe de trazerem vantagem a Portugal muito o atrasaram, não só pela grande perda de população , como também pela abundancia de ouro e outras preciosidades, à custa das quais compravam tudo aos franceses, aos flamengos, holandeses e ingleses, que tudo lhes levavam a troco de ouro, que absorviam, e o trabalho dos portugueses quase se reduzia à construção de conventos de frades e freiras, e de igrejas de grande custo; a indústria, as fábricas, os teares quase tudo desapareceu. Não era assim no tempo de D. Diniz, época de muita fartura e de tanta abundância de trigo que ia em navios portugueses para quase todos os países da Europa, como em outro tempo no Rio Grande do Sul, donde iam até carregamentos para Portugal; mas isto desapareceu de repente, dizem que por causa da ferrugem e da gangrena, como se esses males não tivessem remédios, e como se a natureza do clima tivesse mudado, hoje compramos farinhas alteradas e comemos um pão que não é tão saboroso como o que faziam as farinhas do Rio Grande.

Mas voltemos ao nosso assunto. Como todas as belas qualidades de D. Diniz, tinha ele um grande defeito, imperdoável em um pai de família, e ainda mais em um monarca pelo mal exemplo que dá. Era aquele rei muito galanteador e levava a sua impudicícia a ponto de trazer os seus filhos naturais para o interior de palácio, e sua virtuosa esposa, Santa Isabel, dizemos santa porque assim era considerada por todos que a conheciam, era encarregada por todos que a conheciam, era encarregada de prover a sua criação e a sua educação. Teve ele 11 filhos naturais, nove meninos e duas meninas, e daqui mesmo lhe vieram bastantes trabalhos e desgostos, não por causa de sua esposa que os tratava com o maior cuidado, e com uma resignação e paciência só próprias de uma santa. De sua esposa teve sete, dos quais só vingaram dois até a idade viril, que foram uma menina e um menino, D. Maria e D. Affonso, que sucedeu-lhe no trono com o título de Affonso IV.

Este, logo que tornou-se homem, tomou muito ódio a seu irmão natural, Affonso Sanchez, a quem D. Diniz amava sobremodo, tinha-o feito mordomo-mór da sua casa, andava sempre com ele de passeio ou nas caçadas; e o filho legítimo chegou a temer que o pai o deserdasse para dar o reino a Affonso Sanchez, seu predileto; exigiu do pai que o demitisse, e, como o pai o repelisse com azedume, armou-se com alguns fidalgos seus amigos, que nas suas coutadas tinham facinorosos que viviam debaixo de sua proteção, e começou a fazer depredações por quase toda a parte, pôs sitio a Guimarães, que lhe resistiu heroicamente, daqui partiu para Coimbra, onde o pais se achava.

Nesta ocasião tinha o rei degradado a rainha para Alemquer, por lhe dizerem aleivosamente que ela mandava dinheiro ao filho; e ela quando soube que o filho vinha com sua gente atacar o rei, saiu de Alemquer montada em uma burrinha, e foi encontrá-lo em caminho. Com a autoridade de mãe, aquela eloquência que só lhes podia dar as suas grandes virtudes, convenceu-o do mal que fazia, revoltando-se contra seu pai, e levou-o à sua presença para pedir-lhe perdão; perdoado desta vez, ainda tornou a revoltar-se, até que o pai despediu Affonso Sanchez, e fê-lo ir para a Espanha. Em a nova revolta conseguiu que o pai lhe aumentasse o apanágio. Estes desgostos abateram o rei, que caiu em hipocondria, e morreu em Lisboa, sendo sepultado no convento de Odivelas.

Santa Isabel, de quem ele despediu-se com uma fala muito tocante, e também do filho que estava presente, logo que ele faleceu retirou-se para o seu aposento, cortou o cabelo, e apresentou-se à corte com os hábitos de freira de Santa Clara, despedindo-se de todos para retirar-se para o seu convento de Coimbra, ao que muito se opuseram todos, pedindo-lhe muito que não abandonasse seu filho; consentiu em ficar para assistir às exéquias do rei, e logo se retirou.

Ainda viveu mais de 10 anos, e quase todos os anos fazia uma peregrinação até Santiago de Compostella, ora na sua burrinha, ora a pé com o seu bastão de peregrina, com o qual pediu que a enterrassem quando morresse. Ainda duas vezes foi como o anjo da paz acomodar as dissenções e uma guerra entre seu filho e Affonso XI de Castella; era no verão, apanhou muitos sóis ardentíssimos, com lá sucede no verão, e faleceu no Alemtejo, na vila de Estremoz; foi trazida para o seu convento, onde jaz sepultada.

Foi canonizada duzentos anos depois, e a sua festa marcada para o dia 4 de julho, que é solenizada nos hospitais de Portugal, e também na Santa Casa da Misericórdia desta Corte.

O orador continuou a tratar do reinado de Affonso IV, que casou seu filho D. Pedro com uma princesa castelhana, que trouxe na sua companhia a bela Ignez, que foi assassinada, e deu motivo a uma guerra civil, em que Santa Isabel já não pode valer ao filho, que recebia de Deus o castigo que ele também tinha feito a seu pai el-rei D. Diniz.

O orador referiu minunciosamente todos estes fatos e terminou a conferência no meio de numerosos aplausos”.

Localização

- Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 29 nov. 1876. Anno 59, n. 323, p.2 (resumo). Capturado em 26 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/094170_02/35287

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 218. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=800

 


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