Conferência Popular da Glória nº 22

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 15/02/1874.

Orador: José Liberato Barroso

Título: A educação da Mulher II

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Ainda bem, minhas senhoras, muito obrigado. Não possuindo eu os dotes necessários para atrair-vos a este recinto, e prender-vos a atenção, a vossa presença exprime somente o interesse que vos inspira o assunto de minhas conferências. Acercando-vos desta tribuna, quando se fala da vossa história e da vossa missão no mundo, sem deter-vos o desgosto que vos deve naturalmente causar a insuficiência do orador, dais um testemunho muito auspicioso para o futuro de nossa cara pátria.

E vô-lo agradeço, não por mim, mas em nome dos entes, que vos são mais caros, em nome de vós mesmas, em nome dos futuros destinos d’este país.

Ainda bem, minhas senhoras, muito obrigado.

São muito doces as impressões que recebo n’este momento. Renascem-me esperanças no coração: avigoram-se aspirações no espírito, já tão abatido pelas decepções, tão torturado pelas incertezas.

Ainda uma vez, muito obrigado, minhas senhoras.

Se não posso erguer a fronte ensombrada de louros, se não vos posso contemplar com o olhar soberbo de ufanias da mocidade, tenho um título legítimo para pedir-vos deferência e desculpas pelo mau desempenho d’esta incumbência, que me sobreleva os meios. É a minha sinceridade, a lealdade com que vos falo.

A mentira n’este recinto, na presença dos entes que fazem crer na existência dos anjos, revelada nos profundos vestígios d’esta existência impressos nos seus corações, como disse A. Herculano, seria um sacrilégio. Não o dirão meus lábios.

É sublime o assunto; é nobre tarefa que me impus: se não posso elevar-me pelas inspirações do talento até a sublimidade do assunto, nobilito-me no desempenho da tarefa pelas inspirações do coração.

Na minha primeira conferência folheávamos as páginas da história da mulher, desde a mulher do estado da natureza ou selvagem até a augusta personificação da mulher moderna. Mme Roland, mulher e cidadã, da família e da pátria; e vimos que a melhoria de sua posição na sociedade crescia na razão do progresso e do desenvolvimento da civilização. A todas as vezes que a civilização realizou uma conquista, sempre que um novo princípio fulgiu, como o astro do dia no horizonte da história, a mulher quebrou um elo da cadeia que ela tem arrastado através do passado até a sua completa emancipação nas sociedades modernas, filhas da revolução francesa.

Estudando a mulher nas diversas situações de sua história, na marcha da humanidade, nós compreendemos a sua missão no presente; e podemos assinalar o papel que a Providência lhe destinou no meio das gerações por vir.

E sem nos deixarmos inebriar pela poéticas ilusões do patriotismo, mas acreditando todavia, que o continente americano tem de representar o primeiro papel na futura civilização da humanidade, esperemos que não caberá o menor quinhão de gloria à terra de Santa Cruz; porque não é lícito duvidar, de que há de ser o teatro das futuras grandezas na humanidade e do complemento da missão divina da mulher cristã este país, que contempla  no seu horizonte o símbolo sagrado da redenção do gênero humano, e cuja natureza prodigiosamente rica parece a expressão suprema do verno de Deus, escrita na face da terra.

A mulher moderna é, como eu vos disse, minhas senhoras, a mulher da família e da pátria, - filha, esposa, mãe e cidadã. É em cada uma d’estas situações que devemos estudar a mulher, e a sua missão no seio da família e no seio da sociedade.

Antes de tudo, porém, minhas senhoras, o que é a mulher? Os poetas vos chamam mistério, intermédio entre o céu e a terra, infinito, alma formada de um beijo delicioso, oásis mimoso, nos desertos da existência, estrela polar dos que andam perdidos nas solidões do mundo, suprema ambição de todas as almas generosas, e tantas outras expressões sublimes d’essa arte suprema, a poesia, que idealiza todos os sentimentos do coração humano.

Outros vos chamarão o terror do moralista, a eterna curiosidade do psicólogo, a esfinge indecifrável da ciência.

Outros finalmente... Mas para que expor esse novo martirológio da injúria que tanto aumentou o peso da cadeia arrastada pela mulher no longo período de sua escravidão?

Muito se tem discutido ultimamente a igualdade do homem e da mulher, e a capacidade d’esta para o exercício dos direitos políticos nas sociedades modernas. O mundo chora ainda a perda de um inglês ilustre, filosofo, publicista e economista, notável pela sua excepcional retidão e generosidade na apreciação do caráter e das qualidades dos outros povos. Estudando a mulher nos dotes elevadíssimos do coração e do espírito de uma esposa, que foi, como ele o diz, em suas Confissões, a sua mestra, a inspiradora de suas melhoras ideias, Stuart Mill consagrou páginas eloquentes e cheias de generosas aspirações à causa dos seus direitos de cidadã.

Pareceu-me, porém, minhas senhoras, que é prematura esta discussão entre nós; e que no estado atual de nossa civilização não podeis nutrir, não nutris certamente a aspiração de exercer direitos políticos. A humanidade, como disse Lamartine, o poeta do ideal, o vosso poeta, ainda está no período de sua juventude, embora se arruínem e desabem as suas formas sociais. Chrysalida imortal, ela quebra laboriosamente, o seu invólucro primitivo para revestir-se do seu manto viril, tomar a forma de sua madureza. E as revoluções do espírito humano são lentas como os períodos da vida das nações: são como o fenômeno da vegetação, que faz crescer a planta, sem que a vista possa medir o seu crescimento. Se contemplando das eminencias da história o caminho passado e futuro da humanidade, à luz da moral que emana de Deus, podemos assinalar o brilhante papel da mulher nos destinos das gerações por vir e nas glórias da nossa pátria, devemos estudar principalmente o seu papel da mulher nos destinos das gerações por vir e nas glórias da nossa pátria, devemos estudar principalmente o seu papel no século que passa; e pelo que particularmente nos interessa, estudar os meios de sua educação e habilitá-la a preparar a geração que nasce, para ocupar o seu posto de honra na vanguarda do progresso à frente dos cruzados do futuro.

A mulher, como diz o Sr. E. de Pelletan, no ponto de vista psicológico, no ponto de vista físico, é um ente completamente formado desde Eva; é um ente perfeito.

Sob a relação da graça e da beleza, o seu espelho já não tem mais nada a ensinar-lhe; e sob a relação do toilette, (permiti-me o francesismo) que não outra coisa senão a beleza exterior, também parece, que não há mais nenhum progresso a realizar.

Mas no ponto de vista do ente que sente, que pensa e quer, como ente dotado de sensibilidade, de inteligência e de vontade, a mulher ainda se acha no estado de evolução. Felizmente para a humanidade, aproxima-se o tempo em que ela será o que deve ser, na plenitude de suas faculdades, livre e igual ao homem, concorrendo para o mesmo destino, mas semeando a verdade por meios diversos nos caminhos da vida.

Consultando, meus senhores, a natureza que, me diz o mesmo escritor, é a melhor mestra n’estas matérias, ela nos ensina que se a anatomia descobre diferenças entre o homem e a mulher, a psicologia não as conhece.

Se o homem e a mulher diferem nos corpos, não diferem nas almas, que são idênticas pelas faculdades de que se compõem.

Há porém uma notável diferença no modo porque se equilibram as faculdades d’alma n’estes dois entes privilegiados da criação: se no homem domina a razão, na mulher domina a sensibilidade, a imaginação. Dando-lhes funções diferentes na sociedade humana, a Providência criou também essa diferença no equilíbrio das faculdades.

O homem é destinado para viver a vida exterior, que faz a sua glória e a sua grandeza: a mulher é destinada para viver a vida interior, tão grande, tão gloriosa como a outra. Não quer isto dizer, minhas senhoras, que o homem deve viver exclusivamente a vida exterior, separado da vida do lar, e que a mulher deve viver exclusivamente a vida interior, separada da vida social. Não: como já vimos, a Grécia para corrigir esse erro de sua civilização teve necessidade de inventar a hetaira. Engrandecendo-se na vida social pelo complemento de sua missão, o homem reflete sua glória no seio da família. Engrandecendo-se na vida do lar pelo complemento da missão divina da mãe de família, a mulher reflete a sua glória na vida social. E assim ela é glorificada na felicidade da família e na prosperidade da nação.

Traçando o caminho, dizia eu n’esse livro de que vos falei, que devem seguir no mundo todas as sociedades humanas, a natureza distribuiu à mulher aptidões naturais, que lhe assinalam um papel importante no complemento dos desígnios eternos. Desenvolver e organizar essas aptidões é o dever da mulher cristã, é o supremo interesse das sociedades modernas. Desenvolver as aptidões naturais da mulher é educá-la, prepará-la para sua missão de esposa e mãe.

Para sua missão de esposa e mãe, disse eu. É pelo casamento que a mulher se reveste d’esta dignidade augusta de esposa e mãe: é, portanto, a instituição do casamento a base fundamental da constituição da família, e da ordem social. A indissolubilidade do laço matrimonial é uma instituição cristã, o mais sólido fundamento em que o cristianismo firmou a ordem moral das sociedades modernas. Foi a moral cristã que levantou no seio da família o trono em que colocou a esposa e a mãe para exercer sua influência salutar e admirável, que é uma das mais maravilhosas manifestações da vontade de Deus.

O casamento, minhas senhoras, é a suprema aspiração de vossa vida: é, e deve ser o vosso mais ardente desejo, a realidade do vosso ideal, porque é o vosso destino, o complemento de vossa missão no mundo. O título de esposa e mãe é a mais alta dignidade da mulher.

Quereis, e deveis casar-vos; mas que ideia fazeis do casamento? O que é para vós esse laço indissolúvel que prende a vossa vida à vida de um homem, do qual só a morte vos deve separar? Compreendeis bem o que é o casamento debaixo do ponto de vista fisiológico, moral, religioso e social? Sabeis o que é essa instituição que vos confere a dignidade augusta de esposa e a santa autoridade de mãe de família? O que ensinarão a vós, filhas, que muito breve deixareis a casa de vossos pais para irdes em companhia de um homem constituir outra família, da qual deveis ser a providência? O que ensinaste a elas, mães, que tanto desejais o casamento de vossas filhas, e sonhais para elas venturas na companhia de vossos futuros genros?

Como preparastes o espírito e o coração de vossas puras e mimosas filhas para exercer a dignidade de esposa e a mais nobre função do mundo?

Preciso de toda a vossa indulgencia, minhas senhoras, para dizer-vos que quase nada, ou absolutamente nada.

Uma só palavra que proferis em presença de Deus, quando pedis ao ministro do culto a santificação de vossa união, une o vosso destino ao de um homem por um laço perpétuo e indissolúvel: e quem é esse homem? Conhecei-lo?

N’estes tristes tempos em que vivemos, minhas senhoras, quando se faz do casamento uma operação de câmbio, são imensos os perigos que vos cercam; e contra eles estais desarmadas pela vossa incompleta educação intelectual, pela incompleta, senão perigosa, instrução que vos deram.

O casamento dever ser para vós, e eu creio que o é, um negócio de coração, uma questão de amor. O vosso esposo, o companheiro de toda a vossa vida, deve ser o escolhido do vosso coração, o homem a quem amais. Mas o amor, minhas senhoras, para ser o laço das uniões felizes, deve ser o resultado do conhecimento do ente amado, e não uma inclinação dos sentidos, uma surpresa da imaginação, um capricho da vontade.

Surpreendidas em vossa imaginação, pensais ligar o vosso destino ao homem que o vosso coração escolher: a ilusão dos sentidos, a surpresa da imaginação perdura até o momento solene, em que vos ligais pelos laços indissolúveis do matrimônio: depois a ilusão dissipa-se, a surpresa cessa, consultais o vosso coração que não palpita; e ... o homem que desfolhou a vossa grinalda de virgem é o vosso esposo perante o mundo e perante Deus; é o pai de vossos filhos; e vós sois depositária de sua honra!

Suprema responsabilidade, minhas senhoras!

O divórcio é impossível, vós o sabíeis; mas o divórcio das almas de dois corpos que se unem: e que é alguma coisa como a cadeia do galé. E a coisa ainda pior, porque lhe falta a virtude sublime da resignação; é essa coisa monstruosamente anômala, que se chama separação, esse divórcio legal que tira da mulher a dignidade de esposa, mutila o seu papel de mãe de família, e nada lhe restitui!

Contra esses perigos que vos cercam, minhas senhoras, só uma boa educação intelectual vos pode premunir: é a que deveis dar às vossas filhas, que eu vos desejo formosas e puras como anjos, filhas de uniões felicíssimas.

Suponhamos, porém que chegou o momento da vossa suprema felicidade. Eis-vos casadas e felizes: começa para vós a vida da esposa; e breve sereis mães: ides ser a educadora de vossos filhos, e por eles, a preceptora do gênero humano. Tendes em vossos braços um Emilio do século XIX; tendes uma filha, que será a mãe do Emilio do século XX. São os destinos da humanidade, que sustentais nos débeis braços com que a natureza vos embelezou.

Mas correu o tempo, minhas senhoras. Ele corre sempre tão depressa em vossa companhia! ... E eu tenho tanto ainda que dizer-vos! Parece-me, que os poetas têm razão.

Peço-vos permissão para dizer-vos ainda:

Até breve, minhas senhoras.”

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº5, maio, 1876, pp 97-120. (na íntegra). Capturado em 17 nov. 2025. Online. Disponível na internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/574

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 22. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=613

 


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