Conferência Popular da Glória nº 230
Data: 31/03/1878
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: A Guerra das Investiduras
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se domingo passado, no salão da escola pública da Glória, a conferência n. 230, ocupando a tribuna o Sr. Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que tratou do seguinte ponto histórico: a guerra das investiduras.
Após uma ligeira introdução disse o orador que escolhera esse ponto para objeto de seu discurso por ser um daqueles que tem dado lugar em todos os tempos a grandes controvérsias, e que, portanto, é digno do estudo calmo, irrefletido, e desapaixonado de todos quantos prezam acima de tudo a verdade, e desejam-na ver sempre triunfante através do tempo e do espaço.
Por guerra das investiduras deve entender-se esse período da média idade, em que travou-se tremenda e heroica luta entre o então primeiro representante do poder espiritual da Igreja Católica, Gregório VII, e o representante do poder temporal na Alemanha, o Imperador Henrique IV, luta que se prolongou desde 1074 e 1122, durando, portanto, o longo espaço de 48 anos!
Subindo ao pontificado no ano de 1073, com a idade de 60 anos, e como sucessor de Alexandre II, Gregório VII, outrora o célebre cardeal Hildebrando, filho de um carpinteiro da Toscana, entrou logo franca e desassombradamente no caminho das reformas.
Dotado de grande e variada instrução, de uma energia a toda a prova, e de um caráter firme e resoluto, o ilustre pontífice não recuava diante de obstáculo algum, não encontrava barreiras uma vez que era mister fazer vingar a justiça, triunfar o direito, reerguer a moral.
Ao iniciar o seu pontificado decretou logo Gregório VII duas medidas tendentes a coibirem certos abusos do clero, foram elas: a condenação formal dos simonicos e incontinentes, aqueles que mercadejam com as coisas santas e a prescrição rigorosa aos padres de observarem restritamente o celibato.
Como é fácil de compreender-se, disse o orador, estas duas medidas encontraram vigorosa oposição da parte dos recalcitrantes, mas a vontade de Gregorio prevaleceu sempre, pois que ele não costumava ceder, quando tinha por norma o dever e a justiça.
Após estes dois primeiros atos de sua suprema autoridade espiritual, vieram outros da mais alta importância. Assim é que, no concílio de S. João de Latrão, celebrado em 1074, Gregorio VII fez publicar um decreto, retirando aos imperadores o direito da investidura dos bispos e dos abades, isto é, a cerimônia da cruz e do anel. O imperador Henrique, que a princípio não se opusera a tal decreto, fez-lhe depois vigorosa oposição, e daí a luta, a guerra das investiduras, que outra coisa não é senão a rivalidade entre o sacerdócio e o império, e que terminou em 1122 para concordata de Worms, que restituiu ao papado o direito da investidura espiritual pela cruz e pelo anel, reservando aos imperadores o direito de conferirem pelo cetro os benefícios eclesiásticos.
Henrique IV, a respeito de cuja vida o orador pediu licença para não falar, por ser ela deplorável, a princípio acedeu aos desejos da Santa Sé, mas foi porque achava-se em guerra com os saxônicos. Logo, porém, que se viu vitorioso esqueceu-se das suas promessas, e fez reunir ilegal e ilegidamente dois conciliábulos, os de Worms e de Pavia, onde foi deposto o Papa Gregório VII.
Todos os grandes da Alemanha, disse o orador, pronunciando-se franca e decididamente a favor do Papa, o escrivão de Henrique uma retratação formal, uma satisfação plena ao chefe da Igreja. Foi então que o monarca alemão se viu forçado a dirigir-se ao Castelo de Canossa, com os pés descalços, e [?] simples coberta de lã, apesar de um frio horrível e depois de três dias de jejum e provas, o soberano pontífice levantou-lhe todas as censuras eclesiásticas.
No entanto, continuou o orador, o arrependimento de Henrique IV não for sincero, pois que ele, voltando a seus estados, persistiu em seu procedimento anterior, com grande escândalo de todos.
À vista disso todos os grandes da Alemanha reuniram-se em uma dieta geral, em Frocheim, e depois de sete dias de discussão, resolveram depois Henrique, elegendo em seu lugar a Rodolpho, Duque de Suabia.
Continuaram, pois, as lutas, a confusão e a desordem por espaço de três anos; e durante todo esse tempo o [?] cujos reduplicados esforços para pacificar a Alemanha foram baldados, recebia constantemente representações dos grandes do Império, e dos eleitores pedindo-lhe que deixasse de ter uma paciência inútil e prejudicial, e que excomungasse e depusesse definitivamente a Henrique, que não se emendava. Foi só depois de muito esperar que Gregorio satisfez os desejos dos grandes da Alemanha, dos eleitores e do povo em geral.
Henrique, longe de corrigir-se, continuou a luta e as desordens, elegendo um anti-papa, Guiberto, arcediago de Ravenna, até que por fim abandonado de todos e até repudiado por sua família, foi morrer em Liège, no ano de 1166, ficando o seu cadáver por muito tempo insepulto!...
Gregório VII por sua vez, depois de lutar gloriosamente por espaço de doze anos, viu-se forçado a deixar a cidade eterna ameaçada, e a retirar-se para Salerno, onde faleceu no ano de 1085, com 72 anos de idade, pronunciando estas memoráveis palavras:
“A meia justiça e odiei a iniquidade, e por isso morro no exílio”. A guerra das investiduras continuou, porém, terminando somente em 1122, com a concordata de Worms.
Depois de haver assim apresentado resumidamente os fatos históricos, o orador passou a justificar os atos de Gregorio VII, mostrando que a guerra que ele sofreu sempre foi devida ao fato de haver cortado muitos abusos do clero incontinente, e posto barreiras à perversão e costumes de Henrique IV, cuja vida é negra de crimes e imoralidades.
O orador lembrou que nesse tempo a coroa da Alemanha era eletiva, e que o estado era feudatário da Santa Sé, e que, portanto, o papa tinha o direito de depor o suserano, desde que este se revoltasse.
Lembrou mais, que Gregorio VII depôs ao monarca alemão por pedido e instancias reiteradas dos eleitores, e depois de haver mostrado uma brandura imensa, uma grandíssima paciência.
Enfim, terminou o orador o seu discurso, declarando solenemente que Gregório VII foi um dos mais ilustres e dignos pontífices que tem ocupado a cadeira de S. Pedro, e que as calunias de que tem sido vítima a sua memória desaparecem inteiramente, perante um estudo sério e refletido da história.
O numeroso auditório do qual faziam parte muitas senhoras, aplaudiu o orador, ao deixar a tribuna.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 02 abr. 1878.Anno 57, n. 92, p.01 (resumo). Capturado em 27 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/18131
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 230. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=813
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)