Conferência Popular da Glória nº 236
Data: 12/05/1878
Orador: Antonio Ferreira Vianna
Título: Projeto para construção de estradas de ferro
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Ontem, no salão da escola da Glória, o Sr. Dr. Ferreira Vianna ocupou a tribuna, cercado de um auditório tão numeroso, que enchera completamente o salão.
A reaparição do orador ilustre n’uma tribuna que outrora engrandecera com as iluminações de uma palavra eloquente, de uma ciência consumada, era, por si só, um motivo para atrair a atenção de um auditório inteligente, preocupado da grandeza do assunto que era o objetivo dessa reunião.
Notava-se entre os ouvintes o nobre ministro de estrangeiros, homens políticos, jurisconsultos, engenheiros, médicos, negociantes e outras pessoas interessadas no progresso do país.
O orador, com os acentos de uma expressão sincera, começa pedindo escusa de haver faltado no dia marcado para a primeira conferência, e agradece o numeroso concurso do auditório.
Afirma que o assunto de sua conversação envolve o problema da mais alta importância, a questão de vida e morte para o Brasil, porque trata-se de estradas de ferro, elemento indispensável ao desenvolvimento da prosperidade nacional.
Pondera o orador que, apesar de ser alheio à profissão industrial e aos estudos técnicos dos engenheiros, reconhece que os homens que estudam os negócios do Estado devem instruir-se na parte econômica e financeira de um melhoramento que provoca e alimenta a atividade humana.
Declara que nesta primeira reunião o método e a lógica obrigam-no a limitar-se aos grandes traços de um quadro, ao esboço de um trabalho, que espera completar, inspirado no patriotismo, e auxiliado pela benévola atenção dos que, amando o país, e estão escutando, e não são indiferentes à grandeza dos seus destinos.
Exclama o orador – digamos a verdade sem esse pudor infantil, que é aflitivo, mas com a energia viril do pensador, que observa e denuncia o mal – o país ainda está na infância, no tocante à viação publica: tudo ainda é ensaios, incerteza, não há de racional, verdadeiramente prático e econômico. (Aplausos).
Se fosse dado ao orador historiar o estabelecimento e as ideias concernentes à nossa viação férrea, havia prevalecer-se-á da oportunidade para esmerilhar os erros dos sistemas incoerentes e radicalmente improfícuos que se tem adotado.
Diz que, desde 1835, agitaram-se no cérebro de alguns homens de progresso e iniciativa vagos desejos de dotar o Brasil com o melhoramento da viação férrea.
No parlamento levantou-se uma voz iniciando a propaganda do fecundo instrumento da civilização moderna; esta voz, porém, perdeu-se longo tempo, e só veio ecoar em 185. Deplorável é a lentidão da marcha das ideias, ainda mesmo salvadoras, quando não as auxiliam a dedicação e os esforço dos homens.
Entra o orador em alguns pormenores, propriamente históricos, acerca do primeiro tentamen; aponta as dificuldades que a inexperiência, a timidez, as ideias incompletas deveriam ter suscitado na execução de trabalhos ainda não praticados no Brasil.
Aponto a estrada de ferro de Petropólis, como a primeira prova da iniciativa particular, sem o concurso do Estado.
O orador diz que não esqueça o auditório de um fato, que é de grande alcance: - esta tentativa foi bem inspirada, porque nem os empresários nem o governo e parlamento lembraram-se uns de pedir, outros de dar auxílio ou garantia. Este péssimo expediente havemos de vê-lo dominar mais tarde com suas fatais consequências.
De 1852 até hoje entrou no domínio da realidade e conveniência de construir caminhos férreos: notai, porém (diz o orador), que em um país tão vasto, com recursos dissipados em outros empregos, somente podemos construir cerca de 3.000 quilômetros, dos quais 600 são do Estado e 2.400 constituem o patrimônio de empresas particulares.
Desenhando com vivos e eloquentes traços o quadro de tanto atraso, deplorando que o país atardado pareça estacar ante o esplendido espetáculo do progresso do mundo, o orador inquire as causas que tem empecido a realização e o desenvolvimento de um melhoramento que tem feito a grandeza de outras nações.
Assinala, entre muitas causas, a deficiência de estudos, quer econômicos, quer técnicos.
Neste ponto o orador procede a uma análise sobre o modo porque se originam e fundam-se as nossas empresas.
As condições com que o capital deve ser empregado, as condições econômicas, os cálculos financeiros, a produção de renda, as probabilidades e certezas da amortização deram aso ao orador fazer observações que não só ilustram os ouvintes instruem o país, advertem o governo, mas ainda trazem o cunho da autoridade de um pensamento avigorado pela meditação e metrido de profundos estudos.
Não escaparam à critica os diversos processos de proteção, de garantia, de subvenção quilométrica; discriminou os vícios de cada um, mostrou até que ponto tem eles sido improfícuos, e concluiu pela urgência de usar de outros que possam realizar os grandiosos intuitos da nação.
A garantia de juros e a subvenção quilométrica provocaram um exame consciencioso à vista dos fatos que aduziu para demonstrar sua opinião.
O orador entrou n’um terreno árido e ingrato: foi lá tenteando as trevas que o obumbram surpreender a centralização administrativa, que exibiu às vistas do auditório, como um monstro insaciável e repleto, mas ainda sedento de sangue e faminto da seiva dos povos que trabalham.
Nunca, em nossas tribunas, a palavra lançou, com tanta altivez e bom senso, o estigma da condenação sobre o regimen centralizador.
Salvando a centralização que entende com a unidade nacional, com a vida política, o orador provou que dessa imensa escravidão em que se absorve – anulado – tudo que é força, vida e inteligência provém uma das causas mais exuberantes dos nossos atrasos nos melhoramentos morais e materiais.
O orador faz neste assunto observações felizes, judiciosas. Neste teatro, em que só o Estado tem ação, em que só ele é a vida, pergunta o orador – o que será a cidadão, que nada vale, nada pode, e o Estado que é a onipotência? Não se pense que é uma estéril disputa; nesta matéria está comprometida a questão vital da liberdade civil, que, perante a ciência a política do século, não é somente a liberdade política que os povos ainda idolatram: uma completa a outra; ambas surgem da mesma fonte, ambas são necessárias ao cidadão.
Aqui a eloquência de todos conhecida, que inflama o orador, irrompe fremente de seus lábios quando vê a niilidade e a impotência do cidadão e a força opressora do Estado.
Ah! Exclama, o grande e salutar esforço do século é circunscrever o Estado – essa abstração dentro de limites razoáveis e compatíveis com o legítimo desenvolvimento da liberdade humana.
Não quero que se desarme o Estado: ele a autoridade, assim é benéfica; mas é preciso que no trabalho, na indústria, na capital o Estado não seja tudo; não se faça o tutor severo e inexorável. É preciso que o cidadão possa ter a liberdade do bem, e do mal e alta responsabilidade dos seus atos; sem responsabilidade que implica a liberdade, os povos e o cidadão não existem.
O orador denunciou a lei de 22 de agosto de 1860 como o tremendo obstáculo a todo progresso do nosso país; fez votos pela sua revogação.
A centralização, o orador compreende n’um país como a Bélgica, que se pode considerar como uma cidade de quatro milhões de habitantes.
N’um país vasto como o Brasil, de difícil comunicação, a centralização é um absurdo.
Roma outrora, hoje a França tem sido os modelos da centralização, mas para este sistema tinham meios, instrumentos; nós temos o regimen centralizador, mas não temos os instrumentos; colhemos somente os males, isso é detestável e irrisório!
Notando que, apesar das garantias do Estado, as empresas já se não podem organizar, e quando organizadas não prosperam: o orador lamente ver a firma do Brasil, que até hoje tem honrado seu nome, sujeita a apreciações e recusas de capitalistas estrangeiros.
É para o país uma necessidade desenvolver as estradas de ferro. Assim é sua opinião que, principalmente, deve-se cuidar dos prolongamentos e ramais nos centros mais povoados e de maior produção.
O orador compara as circunstâncias do Brasil com os Estados Unidos.
Faz várias considerações, aprofunda as questões importantes, alude à venda da estrada de ferro D. Pedro II, segundo se propala, e faz votos que o governo seja bem-sucedido; por seu lado não teme que se efetue esta venda.
Nós, apanhando rapidamente os traços largos de um vasto quadro, não podemos guardar a concatenação das ideias e sistematizá-las como o orador expôs.
Um discurso animado, colorido, que provocou repetidas vezes aplausos, e prendeu a atenção durante hora e meia, não é possível ser aqui reproduzido com a mesma clareza e ordem.;
Depois de traçar o plano das suas conferências, declara que na próxima reunião tratará de um projeto por ele elaborado e baseado sobre o princípio de associação da indústria com a lavoura.
Pretende demonstrar que os proprietários das linhas principais, associando-se em comandita com os lavradores das terras concomitantes às linhas, podem realizar os ramais vantajosos a uns e outros.
Os lavradores possuem terras e braços, aos proprietários das linhas é fácil fornecer o material metálico e rolante. Eis os elementos que o orador entende essenciais para se estabelecer um caminho de ferro.
Cada um dos [?], em proporção de sua comparação terá sua [?].
Esperamos que o grau e talento de Sr. Dr. Ferreira dará ao assunto a mais elevada importância práticas; convencerá de que a iniciativa individual, o concurso de todos podem ainda concorrer para prosperidade do Brasil.
O orador promete voltar à tribuna no dia que lhe for designado pelo ilustrado Sr. Conselheiro Correia, que, com patriótica e louvável constância, preside e dirige estas conferências.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 mai. 1878. Anno 57, n. 133, p.1 (resumo). Capturado em 28 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/18393
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 236. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=819
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)