Conferência Popular da Glória nº 24
Data: 08/02/1874.
Orador: Joaquim José Teixeira
Título: Pensamentos
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras e senhores – A benevolência com que fui ouvido, quando neste mesmo lugar vos disse algumas palavras sobre Lafontaine e suas fábulas, animou-me a aceitar o convite que me fez o Sr. Conselheiro Correia para substituir a pessoa que se encarregara da conferência de hoje. Sem essa vossa benevolência, eu teria procedido como certas meninas, que, quanto mais rogadas são, menos se prestam a cantar e a tocar. Não vereis hoje, como tendes visto, catadupas de eloquência; porque os velhos só servem para conversar, e eu conversar apenas venho.
Perguntado qual seria a minha tese, dos lábios me saio a expressão: Pensamento. Foi resposta não meditada, devida sem dúvida ao meu gosto natural por essas verdades morais que constituem a alma da fábula; mas que vivem também desligadas dela como o espírito desprendido do corpo.
Pensamentos! Referindo-me unicamente aos dos moralistas, e não aos desses grandes pensadores que com uma só palavra revolucionam uma ciência, não é verdade que já são antigualhas? E não seriam antigualhas os próprios moralistas? E antigualhas não vai sendo até... a religião?! Porque pois venho entreter-vos de assunto fora de moda?
Porque sou velho, e como tal creio que é útil espalhar a verdade por meio de lições claras, firmes e concisas. E tenho para mim que uma nação chega ao seu maior esplendor, ao menos literário, quando no seu seio aparecem escritores exclusivamente moralistas.
Já que queremos pensar no povo, educar o povo, e raros são os do povo que podem dar muitas horas à leitura, tenhamos na lembrança o que escreveu Condorcet no seu esboço de um quadro histórico do progresso do espírito humano.
Que nos importa a moda? Que nos importa que em outras partes busquem formar o gosto por meio de narrações de logros aos pais ou aos maridos?
É a educação moral, diz Thomas, que acaba o homem e constitui sua grandeza.
Haverá mal em dizer ao povo com Epictéto, com esse moralista pagão, mas tão apreciado por Santos Padres da Igreja: Quando te chegares aos príncipes e aos grandes, lembra-te que lá em cima maior principie há que te vê, que te ouve, e a quem deves agradar com preferência? Haverá mal em dizer com Cícero: Tudo nesta vida está sujeito a deveres: guardar-lhes fidelidade, eis a honra; desprezá-lo, eis a vergonha?
Sei bem que nem todos os pensamentos são para o geral do povo; pois muitos se encontram tão elevados e tão metafísicos, que só os alcança inteligência cultivada. Mas é certo que um grande número deles pode ser facilmente compreendido; e eu não vejo razão para excluir o povo do conhecimento das verdades que eles encerram. Tudo quanto tende a formar o coração na família ou na cidade, deve merecer a atenção do governo, e das pessoas que se interessam pelo progresso moral do nosso povo.
Eu, pela minha parte, pretendo, se Deus me ajudar, fazer alguma coisa em tal sentido; tanto mais que não encontrarei constrangimento em minhas inclinações naturais, habituado como estou, desde os verdes anos, a escrever minhas pequenas observações.
Alguns pensamentos meus vos trago hoje, e desde já vos advirto que a minha musa nem sempre correu a prestar-me seu auxílio quanto à forma.
Nesta não haveis de achar merecimento, porque a coitadinha não calçou botinas à Luis XV; e sim seus sapatinhos de cordovão, com os quais acompanha algum rebanho de ovelhas, ou vai verter lagrimas sobre algum tumulo.
Convidado para substituir, não tive tempo de preparar-me de modo digno de vós. Sim, o histórico dos diversos moralistas que pensamentos escreverão, a razão de seus escritos, a influência que estes puderam exercer, seria sem dúvida uma tese mais digna de vós. Eu podia mesmo ter lançado mão de alguns dos grandes pensamentos de Epiteto, de Pascal, de Larochefoucauld, de Vigni, de Bouché, e de outros moralistas pensadores, para sobre eles entreter-vos com elevação. Mas, senhores, em uma reunião repentina, dança-se ao som do primeiro instrumento de casa fosse bom e bem tocado!
Para preencher a hora que me foi marcada, irei lendo alguns pensamentos que escrevi neste caderno e conversando acerca deles.
Entre as cousas que existem d’excellencia Merece a boa esposa a preferência.
Senhores – Quando outra prova não houvesse de verdade que acabo de expressar, senão a mágoa que trago no fundo d’alma, bem provada estaria. Entremos, porém, no paraíso, e vejamos Adão antes da aparição de Eva. Deus não o podia pôr em melhor lugar; estava ele cercado de delícias, era rei da criação, e... estava triste. Porque? Faltava-lhe a companhia da mulher, o osso de seu osso, a carne de sua carne. Ah! Senhores, qual homem, se encontrou uma verdadeira esposa, deixará de sacrificar por ela tudo, menos somente o seu Deus? Quem é que como ela se identifica conosco? Qual é a fonte das nossas maiores alegrias na família? Qual é o balsamos mais certo nas nossas aflições? Eu falo das verdadeiras esposas, e não d’aquelas a quem se refere o seguinte pensamento:
Às vezes, coitadinho, o contraente, Indo Eva receber, traz a serpente
Este pensamento me faz lembrar o dito de uma senhora, a quem muito amei e respeitei. Criaturas há, dizia ela, feitas por Deus, e outras mandadas por Ele fazer. Uma razão principal há que assim muda a mulher para serpente: o mau exemplo da casa materna. E vem ao caso os dois seguintes pensamentos:
Cuidado mãe, atrás vem tua filha, Caminho que tu levas ela trilha.
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A filha tem na mãe seu grande espelho O exemplo dela é mais que bom conselho
As impressões que nos chegam pelos olhos são muito mais fortes do que aquelas que nos chegam pelos ouvidos. E a criança é naturalmente imitadora, sobretudo das pessoas a quem amam e em cujo contato vivem. Aconselhe a mãe o que quiser, e como quiser, se a menina outra coisa observar por fatos no seio da família, dará ao diabo o conselho, e praticará como viu praticar. Isto está na natureza, e só índoles muito privilegiadas escapam aos resultados do mau exemplo. Acontece às vezes que a menina, não vindo serpente da casa materna, em serpente contudo se transforma. Mas neste caso, quase sempre a culpa toda cabe ao marido.
Quando peca a mulher que pura vem. Do pecado o marido a culpa tem
Não é verdade, senhores, que há marido cujo primeiro cuidado é contar à noiva suas extravagancias de rapaz? Esta e outras imprudências não são decerto flores que alcatifem o caminho. Pensemos, e havemos de ver a boceta de Pandora aberta pela própria mão do imprudente marido. É sempre mau ofender o capricho de uma mulher ou acordar-lhe o ciúme.
Capricho de mulher é qual serpente Que morde o pé que a toca brandamente
Consagro ao sexo amável tanto respeito e tanta admiração que receio haver de algum modo olvidado que falava perante senhoras. Mas, porque temo? Esta mesma atenção que se me está prestando não é prova ardente de que os delicados ouvidos querem a voz da verdade? Continuemos.
Nunca terá perdão do que falou Quem de feia a mulher então chamou
A mulher em geral liga importância ao seu físico, e eu acho que ela tem razão, porque a natureza não lhe deu a beleza e a graça senão para agradar. A própria Mme Roland, que foi um tipo, teve o cuidado de por meio de sua hábil pena retratar-se fisicamente, pouco tempo antes de subir ao cadafalso, como que querendo imortalizar também o seu corpo. A mulher tem razão e muita razão, e nós homens somos a causa disso. Seja-me porém dado expressar aqui uma verdade: mulher que só tem por si o físico, não deve estar segura de cativar por muito tempo o homem. São as qualidades morais que lhe firmam o domínio.
O amor não passa às vezes da cabeça Um ar mais fresco o mata antes que cresça
Nunca encontrastes rapazes loucamente apaixonados, dizendo-se prontos a tudo em favor do ídolo? E não os vistes, alguns dias depois, já frios, e sem mais lembrança de tal ídolo? Há com efeito um chamado amor que, semelhante à embriagues, facilmente se evapora; é o da cabeça, porque o do coração, aquele que tem uma verdadeira razão de ser, esse permanece, e até aumenta com a ausência, com os embaraços. As meninas devem ser muito cautelosas, e não acreditarem nesses amores de bêbado, amores que nascem de uma valsa, e se apagam n’outra.
O nosso amor não chega a ser perfeito, Se auxílio sem lhe dá nosso respeito.
Podeis compreender amor sincero sem atenções, sem delicadeza? Eu não o compreendo. N’uma assembleia deste quilate julgo inútil dissertar sobre este ponto.
Dizem que a mãe prefere ao mau filho! É compaixão de o ver no errado trilho.
Tenho observado muitas vezes que, ao passo que os pais mostram mais predileção pelo filho que estuda, que procede bem, que cumpre seus deveres, as mães parecem preferir o filho extravagante, mal procedido; e buscando a causa disto, não a pude achar senão na compaixão materna. O coração da mão, mais sensível, antevê o mau futuro do filho extravagante, e então se compadece do fruto de suas entranhas e o acaricia. O amor materno não tem limites. Passemos para outra ordem de ideias, já que o tempo não nos chega para muito.
A cada um marcou papel o Eterno, Da troca dos papeis vem nosso inferno.
Apesar de havermos todos recebido o sopro divino, é incontestável que as nossas disposições ou inclinações naturais diversificam muito, o que de certo tinha por fim melhor nos ligar em sociedade. O que vemos, porém, é que aquele que seria um bom padre, vai ser um mau soldado, e vice-versa; aquele que seria um bom alfaiate, vai ser um mau magistrado, etc. Ora, evidentemente, as coisas fora do seu lugar constituem a desordem. Pensai, meus senhores, pensai bem no que expressam meus dois maus versos, e afirmareis que eles não mentem.
Em quanto um pede o sol, pede outro a chuva, E Deus vai dando o trigo e dando a uva.
Entendo que o Supremo Árbitro vai regendo os mundos como entende ser melhor, sem embargo de tantas súplicas opostas e destemperadas que os homens lhe dirigem. Ocorre-me que o próprio Christo pediu o seu eterno Pai que lhe desviasse o cálix da amargura, e não foi atendido, e tragou todo o fel que nele se continha. De certo, Deus sabe melhor do que nós que nos convém, e o que devemos fazer é render-lhe todos os dias graças por tantos e tão inefáveis benefícios.
A nobreza que vem do nascimento Obriga o filho a ter merecimento.
É o noblesse oblige dos franceses. Mas infelizmente pensam muitos que a posição paterna os isenta da verdadeira habilitação. Triste pensar, porque nada há mais belo de que dever o homem tudo ao seu próprio esforço. Permita Deus que chegue brevemente o dia em que desapareça d’entre nós o patronato, o filhotismo, esse acabrunhador do mérito, contra o qual tantas vezes me falou o honrado naturalista Augusto de Saint-Hilaire, de quem gratas recordações conservo, pelo interesse que por nós mostrava.
Sem a virtude, humana ilustração, É qual Sol que requeima a plantação.
Por fortuna, todos nós estamos compenetrados desta verdade e pretendemos alguma coisa fazer o bem da educação popular.
Memória fresca, lábio desatado, Dão muitas vezes foros de letrado.
Não é verdade que neste nosso Brasil somos muitas vezes logrados por memorias e lábios dessa ordem?
Alguns julgam pobres, porque ignoram Os grandes bens que em suas casas moram.
Que verdade, senhores, que verdade tão digna de meditação brasileira!
De pretendentes é balda geral Falar mui bem de si, dos outros mal.
A vossa experiencia deve ser grande a este respeito.
Em finanças mais pode e faz o tino, Do que sem ele o cálculo do ensino.
Todos os dias estamos vendo as provas desta verdade
Depende muito o ensino que é primeiro, De um alto ensino firme e verdadeiro.
Olhemos para a Alemanha. Quando teremos uma universidade digna de tal nome?
Dirigir do menino a inclinação, É poder o maior da educação.
Quantos enganos! Quantas ilusões! Porque um menino brinca com soldados de chumbo, é considerado futuro general; e porque faz procissões com seus iguais, é considerado futuro bispo! Conhecer as propensões reais do menino ou do rapaz e dirigi-las, não é fácil tarefa; é tarefa para a qual o educador carece de muita perspicácia, muita experiencia e mui boa vontade.
Saber não é o mesmo que ensinar, O mestre tudo só e metodizar.
Não tive ocasião de ver em uma escola alguns meninos que sabiam mais do que o mestre, apesar de não haverem tido lições senão dele. Eu era ainda rapaz, e, contudo, busquei o fio do segredo, e o achei no modo por que o mestre ensinava na clareza com que procedia. O menino avisado do caminho, corria depois melhor por ter melhores pernas. Não basta que o mestre saiba, é preciso que saiba ensinar o que sabe.
Quem como galo canta no poleiro Às vezes é galinha no terreiro
As posições oficiais mal dadas produzem muito estas transformações
Às vezes de curar tem mais certeza Quem entrega o doente à natureza
Lembra-me que ao despedir-se do Dr. Peixotinho, o médico Velpeau, que fora seu lente, escreveu-lhe uma cartinha, na qual lhe dizia o seguinte: Quero dar-vos um último conselho de amigo. Lembrai-vos que o bom médico não é sempre aquele que sabe receitar, mas muitas vezes aquele que sabe deixar de receitar. Ah! Quantas vezes a cura não tem levado o doente à sepultura! Minhas senhoras, não deixeis por isso de consultar os vossos facultativos. Isto que eu digo é antes para eles do que para vós.
Vicios há que a idade vai cortando; Mas outros vão com ela mais ganhando.
Eis a razão porque um velho, em resposta à queixas da mulher, dava graças a Deus por ver no filho um namorador e não um jogado.
Exposto à luz que mais favor lhe presta, O mau painel por bom passa na festa.
Estarei eu na luz favorável? O que vai por esse mundo de maus painéis a figurarem como bons!
Leva a mão a criança à flama intensa, Porque o brilho só vê, no ardor não pensa.
Há tanta gente que quer ser tanta coisa; porque será? O que eu desejo é que não se consintam levarem as crianças a mão ao fogo, porque fogo queima. A hora já soou, e eu vou terminar com um último pensamento.
Se na praia a bosina muito soa É sinal de mau peixe na Canoa. (Hilariedade)
A vossa hilariedade prova que compreendestes bem este pensamento, e me dispensa de conversar sobre ele.
Como vos disse, sempre gostei de observar, e de escrever minhas pobres observações. Restam ainda muitos e muitos pensamentos, até políticos; mas quero parar, pois não devo abusar mais de vossa benigna atenção. É muito provável que eu nada tenha dito de novo, e que nada de novo viesse a dizer. Mas não é certo que vos prometi conversa de velho? Ahi a tendes, e desculpai o fastidioso dela”.
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº2, fev.,1876, p. 99-108. (na integra). Capturado em 10 agosto 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/278556/210
Ficha técnica
- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 24. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=615
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)