Conferência Popular da Glória nº 241
Data: 09/06/1878
Orador: Miguel Antonio da Silva
Título: A influência que as ciências físico-naturais têm exercido sobre a civilização do nosso século
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Efetuou-se anteontem perante grande concurso de pessoas, entre as quais muitas senhoras, em uma das salas das escolas publicas da Glória, a conferência, que, conforme foram anunciando, devia ser feita pelo Sr. Dr. Antonio Ferreira Vianna, o qual deixou, porém, de comparecer por incômodos de saúde, subindo à tribuna o Sr. Dr. Miguel Antonio da Silva, lente da escola politécnica a convite na ocasião pelo Sr. Conselheiro Correa e mais pessoas presentes. Eis o resumo da conferência:
O orador não vai discutir uma tese, mas expor ao auditório fatos bem conhecidos de todos relativamente à influência que as ciências físico-naturais têm exercido sobre a civilização do nosso século. O breve tempo de uma conferência é insuficiente para fazer ligeira resenha do inventário das grandes conquistas que as artes e as indústrias houveram do progresso incessante que o espírito humano realizou nos tempos modernos. Mas citará rapidamente d’entre esses fatos aqueles que melhor autorizam a influência daquela ciência poderosa e benéfica para as sociedades humanas.
Em primeira linha, como principal agente civilizador do século XIX temos o vapor d’agua empregado como força motriz do poderoso efeito. Remonta à época mui distantes de nós o conhecimento da força elástica da água transformada em vapor pelo calórico.
Eles tiraram mesmo algum partido dessa força, embora sem noções exatas de suas propriedades físicas. Heron de Siracura inventara a máquina que a antiguidade nos legou sob o nome de eolipylo, e vários aparelhos fundados na aplicação do ar comprimido ou dilatado. O eolipylo era uma simples marmita cheia de água, assentada sobre uma fornalha e fechada por uma tampa ou coberta, da qual partia um tubo curvo e oco, com uma torneira, que penetrava no interior de uma esfera metálica também oca, podendo girar em torno de um de seus diâmetros: perpendicularmente ao eixo da rotação nas extremidades de um diâmetro dos outros tubos ocos e curvos partiam exteriormente da superfície da esfera. Abrindo-se a torneira, a vapos desprendendo-se da caldeira penetra no tubo e enche a esfera metálica; se fosse completamente fechada conservar-se-ia imóvel, mas o vapor que tende a escapar-se exerce uma forte pressão sobre todos os pontos da superfície interna da esfera, e achando duas saídas, os dois orifícios, escapa-se um ruído indo condensar-se no ar; a reação que faria equilíbrio no caso de ser fechado, exerce-se agora em sentido contrário, e a esfera entra a girar com mais ou menos velocidade em sentido oposto ao da saída do vapor.
Esta máquina eolipylo, cujo nome quer dizer porta de Eolo, é como facilmente se deduz uma máquina onde a força elástica do vapor d’agua age reagindo. Muitos séculos depois do eolipylo, que não passava de um simples aparelho de física, Huygens lembrou-se de utilizar a força expansiva da pólvora como força motriz. O aparelho que aquele sábio concebeu e realizou teve, porém de ceder o passo às máquinas de vapor d’agua. É certo, porém, que a força expansiva dos gases produzidos pela inflamação da pólvora encontrou uma aplicação sucessivamente crescente, infelizmente nas armas de fogo, donde o arcabuz dos primitivos tempos até formidáveis canhões Krup, Whitwort, Armstrong e outros. Felizmente a pólvora não é exclusivamente destinada à arte da guerra, isto é, um simples meio exterminador, mas aplicável também às artes, e à indústria.
Papin, médico francês, procurando aperfeiçoas a máquina proposta por Huygens, teve a feliz ideia de substituir à pólvora outro agente, que como ela produzia o vácuo sob o embolo conservando toda a preponderância à pressão da atmosfera.
Este agente era o vapor d’agua, com o qual achava-se ele mui familiarizado desde a invenção da marmita ou digestor que traz seu nome. Não descreverá essa máquina do Dr. Papin, por não ter cabimento aqui, nem acompanhará tão pouco a marcha progressiva que seguiu a interessantíssima história da máquina posta em ação pela força expansiva do vapor d’agua. Isso seria próprio em um curso de máquinas, e não em uma conferência sobre um assunto tão geral como aquele que o orador expões neste momento.
Em seu princípio e organização fundamental a máquina de vapor moderna consiste no seguinte: Um movimento retilíneo alternativo, produzido pela força elástica de vapor n’um cilindro completamente fechado, e cuja força pode cessar seus efeitos desde que é condensado pelo resfriamento. Uma vez obtido o movimento, basta apenas poder produzir-se um efeito útil, transformando-o de diversíssimos modos, conforme as necessidades da indústria, e conforme a aplicação a que é ela destinada. Toda a máquina de vapor compreende o gerador de vapor ou caldeira, o receptor ou mecanismo motor, o mecanismo de distribuição, e o mecanismo de transmissão. Não entrará nas particularidades de cada uma destas partes da máquina de vapor; não é esta a ocasião mais azada.
O orador demonstra por vários exemplos a grande influencia que o vapor, sob a forma de força motriz, tem exercido em nosso século sobre a civilização, quer aplicado a estradas de ferro, a mais acelerada de todas as espécies de viação, encurtando as distancias, aproximando os povos, facilitando a troca dos produtos gerados nas diversas latitudes, quer aos navios, aos paquetes transoceânicos que sulcam os mares em todas as direções apesar dos ventos e das correntes pelágicas, aproximando os países distanciados pelos insondáveis abismos do oceano, e transportando os homens e as mercadorias com velocidade e segurança máximas possíveis. A aplicação do vapor d’agua representa, pois, um fator de importância capital no progresso conquistado por aquelas ciências a bem da civilização de nosso século.
São tão conhecidas as vantagens deste poderoso auxiliar das sociedades modernas, da humanidade em geral, que o orador não perderá seu tempo em expor ao auditório essas vantagens tão apreciáveis ao homem, às nações, ao comércio, à indústria, às artes, à ciência e à política.
Nós, nação brasileira, gozamos já, posto que rudimentarmente, dos benefícios que proporciona este mais perfeito meio de locomoção.
Como auxiliar às estradas de ferro, e como agente civilizador, não menos útil e importante e que os caminhos de ferro, cita o orador a telegrafia elétrica e todos os aperfeiçoamentos que esta sublime conquista de ciência moderna tem desenrolado à face das sociedades cultas do século XIX, pasma ante tantas e tão surpreendentes maravilhas. Exclama o orador. Jamais o mais adiantado de nós, habitante do planeta no século corrente, acreditaria na possibilidade de transmitir-se a voz, a palavra humana, e na conservação moderna acaba de dotar-nos com duas máquinas que realizam aquele sonho: o eletro-telefone e o fonografo! Nada mais dirá o orador ante tão pasmosa maravilha.
Quem sabe se amanhã a ciência nos fará ver, por exemplo, do Rio de janeiro, o que se passar em Berlim, a capital do Imperador Guilherme e de Bismarck e mesmo nos antípodas, em Yeddo? Não é lícito duvidar hoje de tudo quanto as ciências físicas ou matemáticas possam oferecer-nos.
Como exemplo de grande melhoramentos materiais cita o orador alguns dessas extraordinárias obras de arte que constituem um verdadeiro padrão de glória para o nosso século e que caracterizam de modo solene o poderio da ciência influindo beneficamente sobre o progresso do nosso século, justamente cognominado século das luzes.
A telegrafia, isto é, a arte de comunicar a qualquer distância, de modo a transmitir ordens, notícias, instruções de modo particular e preciso, é uma invenção de nossos dias, literalmente falando.
O orador entra em todas as particularidades da história deste poderosíssimo meio que a civilização atual conseguiu ascender ao apogeu de glória, com que dignamente se orgulha o homem civilizado em nosso século.
Entra o orador em variadíssimas demonstrações sobre a influencia em que as ciências naturais tem exercido nas questões biológicas, isto é, nos fenômenos da vida, considerando os vegetais desde sua germinação até a frutificação e os animais desde sua separação do seio materno até ao estado em que lhe foi cometida a função de reproduzir-se, e alfim, o homem desde a instituição da sociedade até o estado atual, em que ele funda, sobre bases positivas, a filosofia positiva, restrições feitas aquela que fundou o ilustre Augusto Comte, e da qual é continuador ou sectário o Sr. Littré! Eis um resumo a matéria da conferência do Sr. Dr. M. da Silva, a qual não deixou de agradar ao auditório”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 11 jun. 1878. Anno 57, n. 162, p.1 (resumo). Capturado em 28 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/18595
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 241. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=830
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)