Conferência Popular da Glória nº 242
Data: 16/06/1878
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Língua portuguesa, origem, modificação e como acompanha-os a Nação
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Ontem às 11 horas na escola pública da Glória, em presença de S. M. o Imperador e numeroso auditório de senhoras e cavalheiros de todas as classes, fez sua anunciada conferência o Sr. Conselheiro Pereira da Silva.
Historiou as invasões de Espanha pelo Iberos, e celtas; depois as irrupções dos Fenícios, Gregos e Cartagineses; depois a vinda dos Romanos e a vassalagem por estes de todo o país; as instituições, costumes, língua foram introduzidos pelos Romanos; Espanha era uma imagem dos Estados italianos de Roma, e tanto que formou escritores latinos durante o império, que não menos brilharam nas letras que os próprios romanos.
No século IV novas invasões de bárbaros cruéis, vândalos, suevos, alanos que tudo assolaram e destruíram. Felizmente visigodos apareceram, repeliram e expeliram estes intrusos, mesclaram-se com a população hispano-romana, formaram uma nação só. Ao passo, porém, que impunham os vencedores suas instituições, monarquia eletiva, etc., e modificavam os costumes, recebiam a religião e a língua dos vencidos, e assim formou-se o reino godo-hispano-romano.
No século VIII irrompem os árabes e de todo o território se apoderam, deixando apenas uma nesga de terras ou montanhas nas Astúrias para asilo de nobre ao mando de Pelágio.
Mas os Árabes contentavam-se com o domínio, e governo civil e político, que eram no seu tempo o povo mais civilizado do mundo; deixavam livre a religião e a língua dos vencidos.
Começou Carlos Magno pelos Pirineus à tomar terras dos árabes, formando o condado de Barcelona; das Asturias partiram os espanhóis à reconquistar terras aos Árabes; assim foram eles perdendo o que tinham ganho. O fato de converter-se Espanha Árabe em reino independente de Bagdá com seu califa próprio, e as guerras civis que lavraram entre os árabes de modo que estados autônomos árabes se foram formando, como Cordoba, Sevilha, Granada, Algarve, etc., trouxeram à estes impotência para resistirem aos espanhóis. Depois de mais de oito séculos foram expelidos de todo da Espanha, e passados para África.
No tempo em que se formou o reino português, haviam dois estados já poderosos cristãos e espanhóis independentes; um que compreendia Navarra, Aragão e Catalunha, e o outro Asturias, Duas Castellas, Lyão e Galiza. Os árabes eram senhores do resto do território, dividido também em vários estados emancipados; neste falava-se a língua árabe, de origem semítica; nos cristãos várias línguas procedentes todas da latina, mas diversas na pronunciação ou morfologia; eram o Catalão e Biscainho no Aragão; o castelhano e galego no reino de Lyão, ao depois denominado reino de Castela. Havia além disto uma língua particular, dos bascos, que fora ibérica, que parece de origem turania e se assemelha ou filia no Maggiar e Filandia.
Com o casamento do príncipe francês D. Henrique de Borgonha com a infanta D. Tereza, filha do rei de Lyão Affonso VI, foi aquele dado em dote, como feudo, uma parte menor de Galiza entre o Minho e ao sul do Douro, com direito de estender seus domínios para o sul contra os mouros.
Acabou este feudo em princípios do século XII, com o fato de proclamar o príncipe Affonso Henriques a sua independência de Lyão; assim se criou o reino de Portugal.
Com a independência desenvolveu-se e engrandeceu-se o reino de Portugal; com ela desenvolveu-se latinizando-se: mescla dos idiomas de Flandres, o trabalho dos literatos da época, que a conchegavam à sua origem latina, polindo-a e melhorando-a.
Assim se foi tornando língua autônoma, como o reino novo.
Em Castela tornou-se língua oficial o castelhano, no tempo de Affonso o Sábio; o galego ficou estacionário, e nunca foi literário. Em Portugal o português tornou-se oficial no tempo de D. João I igualmente. Em ambos os países até então a língua oficial era a latina: só para o povo serviam as duas românicas.
Affonso o Sábio criou a universidade de Salamanca; D. Diniz a de Coimbra. Daí novo desenvolvimento dos estudos literários.
Já no tempo de Affonso III, Portugal compreendia todos os territórios até o mar meridional, tendo tomado todos os terrenos aos Mouros, Estremadura, Alentejo, e Algarve. Já a língua era diferente da galega da qual pouco à pouco se distanciava. No tempo de D. Diniz mais diferentes se torna a língua portuguesa e no de D. João I ganha formas novas, e novo movimento. Daí por diante tudo é crescer em Portugal, fastos nacionais, espírito do povo, costumes, literatura, ciências, cometimentos arrojados, empresas gloriosas, prodígios do gênio. Toda essa grandeza para em o reinado de D. Manoel, durante o qual chaga a nação, e a língua ao maior apogeu de glória e sublimidade.
É quando ao lado das grandezas de Portugal como nação, dominadora dos mares, senhora da Asia e África, e descobridora do Brasil, a literatura, que é a parte espiritual da língua, a sua sublime expressão sobe também a uma admirável perfeição.
O orador compara as antigas trovas e cantares galegos de Egas Muniz, e Henriques com as coplas de D. Diniz , o leal cavalheiro de D. Duarte, as melancólicas canções do poeta Macias, a Amadia de Vasca da Lobeira, as crônicas de Fernão Lopes, Azurara e Rui de Pina, a história de João de Barros, os escritos de Luiz de Souza, as comedias de Gil Vicente, os arrobos sentimentais de Bernardino Ribeiro, as saudades de Heitor pinto, o poema sublime de Camões, e as obras trabalhadas de Ferreira, Sá de Miranda e Corte Real. Mostra as diferenças e evoluções da língua em cada uma delas, variadas e diversas.
Cai a nação portuguesa em 1580 sob o jugo de Espanha; quando em 1640 recobra sua independência, já prostrada e inanida vegeta, não vive, posto que libertada do cativeiro castelhano. Nação e língua estão deturpadas na índole, nas feições, nos costumes, nos afetos.
Durante o século XVII só dois grandes escritores se notam, que se podem considerar segregados da sua sociedade, e que conservam pura a língua, e continuam a enriquecê-la com decora: o padre Antonio Vieira e D. Francisco Manoel de Mello.
No século XVIII domina a influência francesa, matricula-se a língua com galicismos e influências estranhas e heterogêneas. Ao findar o século Francisco Manoel do Nascimento, Garção e Diniz levantam broqueis para salvar a língua: conseguem muito, não, porém tudo. No século XIX, o bispo de Viseu e Frei Francisco de S. Luiz continuam nesta missão honrosa, e muito se lhes de ter-se contido a vernaculariedade da língua e opor-se à invasões externas.
As línguas não são imutáveis, marcham, progridem, amelhoram-se, civilizam-se, como as sociedades. Língua que para é morta, não viva, falada, escrita. Assim não se quer que ela fique estacionária, antes se deseja que se opulente com novos vocábulos para as novas ideias e necessidades, mas adotados com decoro e discrição; assim ela se enriquece com novas aquisições, como o rio que recebe águas cristalinas de outros. O contrário seria deturpar-se e corresponder-se, acolhendo águas lodosas, que lhe arrancam o colorido, a feição peculiar, a índole, a individualidade, a autonomia.
A literatura é o estudo mais interessante e instrutivo porque faz conhecer a parte espiritual da língua e da sociedade, que é a história da marcha e vicissitudes do espírito humano, e ao mesmo tempo, a parte material da língua, que é a expressão do povo.
Melhor se aprecia estudando-se os escritores, ou que fotografavam o seu tempo, e são dele a expressão e a síntese, ou que por gênio superior o dominaram, e deram-lhe ação nova.
O orador, depois de prometer seguir estes estudos em suas subsequentes conferências, terminou com gerais aplausos e cumprimentos do auditório.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 jun. 1878. Anno 57, n. 168, p.1 (resumo). Capturado em 28 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/18635
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 242. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=831
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)