Conferência Popular da Glória nº 245

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 07/07/1878

Orador: Manoel Francisco Correia

Título: A caridade e a instrução

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Sobre duas ordens de necessidades tinha o homem principalmente de prover, as do corpo e as do espírito.

A qual d’elas se deve dar preferência?

Tomada a decisão em absoluto, o alimento de que o homem primeiramente carece é o que sustenta e vivifica o corpo, porque, se este não chega a desenvolver-se, a parte racional que encerra evade-se.

Por outras palavras, para que da parte racional do homem venham a colher-se os benefícios, que ela pode trazer à sociedade do mundo, torna-se indispensável que muito tempo antes se tenha cuidado do corpo, pois que é só quando este se acha fortalecido que os raios do espírito podem iluminar com seus fulgores as elevadas regiões só a ele acessíveis. Com a criança que morre desaparecem as vantagens que poderia provir da parte racional de que seu corpo era depositário. Não resiste à destruição da fome o mais agudo engenho perdido na árida vastidão do deserto.

Demais, nem todos os corpos abrigam grandes espíritos. Entretanto, não deixam os homens de exercer, no círculo mais ou menos acanhado de sua capacidade intelectual, funções aliás indispensáveis ao movimento regular da sociedade em que vivem.

Em suma, para salvar o espírito em seu perpassar terrestre, cumpre não abandonar o corpo. Nas dores angustiosas da enfermidade a mais robusta inteligência se eclipsa.

Se fora opróbio para a humanidade que um talento superior se sumisse na escura região do sepulcro por falta de meios de satisfazer as necessidades corporais; seria contristador que o homem não tivesse para seu semelhante, somente por esta qualidade, os sentimentos que a religião resume na sublime palavra caridade.

Depois de bem assentadas as bases no edifício corporal é que começa o trabalho no edifício intelectual. A necessidade do pão precede a do livro.

Assim pois, na ordem das medidas a que tem de atender os diretores da sociedade empenhados em que esta chegue a seus últimos destinos, devem merecer preferência as que se propõem a formar homens. Seguir-se-ão as que contribuem para formar sábios.

Porque então o orador, que deseja com sua pátria toda a espécie de solida prosperidade, esforça-se para que se divulgue e generalize a instrução, conservando-se silencioso no que respeita à institutos que o enobrecedor sentimento da caridade funda, sustenta e engrandece?

Na ordem ascendente, as nações como os indivíduos vão do necessário ao útil. Sem a fonte não há o chafariz; sem o livro não há a biblioteca.

Antes de providas as primeiras necessidades, o esforço dos que trabalham pela causa comum não pode ser senão no sentido de que essas necessidades sejam satisfeitas. Enquanto se batalha n’este terreno as outras aspirações ficam naturalmente sopitadas. Antes de haver escola, como pensar em universidade?

Mas desde que se consegue a satisfação das necessidades primárias, cumpre travar nova luta para a realização de melhoramentos de que dependem o vigor e a superioridade.

Não deve o cidadão repousar tranquilo enquanto há um benefício a conquistar para sua pátria.

Ora, se faltassem entre nós instituições protetoras dos enfermos e necessitados; se a flor da caridade não tivesse ainda derramado em nossa atmosfera o seu suave perfume; de certo que o orador em vez de pedir que se multipliquem as escolas, que se habilitem numerosos professores para o conveniente desempenho de seus árduos deveres, que se torne o ensino acessível ao povo o mais que for possível, que se atraiam os olhos das crianças para os livros de sã doutrina; pediria que se fundassem casas de misericórdia, hospitais, asilos, sociedades beneficentes, confrarias e quantos institutos a caridade tem engenhado para que não falte ao faminto, pão, ao enfermo, curativo, ao desamparado, abrigo. Pediria ainda, para proteção dos interesses materiais das famílias e dos indivíduos, a criação de monte pios, caixas econômicas e montes de socorros.

N’esta parte, porém, graças ao fervor religioso que vem de nossos maiores, e também a salutares medidas administrativas, podemos ufanar-nos do que está feito. Não faltam instituições que deem segura garantia às economias previdentemente reunidas para desafrontar o espírito de opressor desassossego nos transes dolorosos da vida, e amparar da miséria famílias feridas pelo infortúnio da perda de seus chefes. E, pelo que respeita à institutos de caridade e beneficência, existem em todas as províncias, e opulentam dignamente a capital do império.

Quem desconhece os relevantes serviços que prestam aos necessitados a Santa Casa da Misericórdia, as ordens terceiras de S. Francisco da Penitência, de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de S. Francisco de Paula, de Nossa Senhora do Terço, da Imaculada Conceição, a Irmandade de Santa Cruz dos Militares, a Sociedade Portuguesa de Beneficência, a Associação de Socorros á Invalidez, a Caixa de Socorros D. Pedro V e tantas outras humanitárias corporações que, com os olhos fitos no céu, buscam no amor do próximo à consolação da consciência?

Se, no passado e no presente, os piedosos esforços de tantos ilustres varões não tivessem aplanado o terreno em que o espírito civilizador tem de laborar primeiramente para minoração dos males sociais, o orador, sem atender para a exiguidade de seus meios de ação, não se cansaria de insistir pelo aparecimento de instituições cristãs em favor dos que padecem.

Mas, estando ganha na principal parte a primeira campanha, e não há louvores bastantes para os que batalharam e venceram, volta-se o orador para a necessidade que, no momento atual, em mais altos brados, pede remédio; e insta para que não se deixe de fornecer o pão do espírito à numerosa mocidade brasileira imersa na sombra sinistra da mais desoladora ignorância, com sensível prejuízo para a causa nacional.

Para melhor educação do povo, a fim de que atinja à altura dos grandes destinos que parecem reservados ao Brasil, são necessárias muitas escolas, e considerável número de professores idôneos.

Ainda com risco de ser taxado de impertinente, o orador invoca em todas as ocasiões o patriotismo para que não descanse enquanto tamanha necessidade não estiver plenamente satisfeita.

Estão todos convencidos de que convém dar vigoroso impulso à instrução popular; mas o fato é que os resultados ainda não correspondem à geral aspiração. Não é tempo de ensarilhar as armas, e pausadamente cobrar alento para nova empresa. Oxalá pudesse o orador tratar já da maior difusão do ensino secundário! É tarefa para depois.

Satisfeitas a caridade, esforcemo-nos pela instrução. Enquanto for tão escassa a instrução primária, fixemos n’ela especialmente nossas vistas. Se persistirmos em esforços para generalizá-la, Deus há de permitir que, em dia não muito instante, todas as regiões d’este vasto império, nossa cara pátria, sejam iluminadas pelo brilhante e moralizador clarão de focos de intensa luz, que mereçam ser contemplados entre os mais acreditados institutos de ensino superior.”.

Localização

- Cardoso, José A. dos S. Conferências e outros trabalhos do Cons. Manoel Francisco Correia. Rio de Janeiro, Tip. Perseverança, 1885, pp. 239-242 (resumo). Capturado em 30 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242774

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 245. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=834

 


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