Conferência Popular da Glória nº 253
Data: 01/09/1878
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: Educação física
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença de S. M. o Imperador realizou-se domingo a conferência n. 253, no salão das escolas públicas da freguesia da Glória.
Por justo e repentino impedimento do Sr. Silveira Caldeira, ocupou a tribuna o S. Conselheiro Manoel Francisco Correia, que falou sobre a educação física.
Disse: Um grande espírito, um filósofo eminente, Descartes, em seu discurso sobre o método, notando que a verdade penso, portanto existo, é tão firme e segura que as mais extravagantes suposições dos céticos não podem abalá-la, proclamou-a como o princípio primário da filosofia.
O profundo pensador nada faria perder à solidez de sua doutrina, derivando-a não já do penso, portanto existo, mas simplesmente do existo. A existência do homem, tal é a verdade saliente, contra a qual quebram-se impotentes os esforços do ceticismo. A existência antecede ao pensamento, como a alma antecede ao eu, à consciência. O homem é um ser pensante, eis a verdade que esse segue ao reconhecimento de sua existência.
Importa, isto dizer que, em matéria de educação, proceder-se-á imperfeitamente se, pondo de lado a parte física, cuidar-se somente da intelectual e moral. Mens sana in corpore sano.
Entretanto, quão abandonada se acha entre nós a educação física! Era ela na Grécia objeto de particular solicitude. Ali a educação compreendia três partes, uma das quais eram os exercícios da palestra, onde, por uma série de calculados movimentos, desenvolvia-se a parte física, adquirindo agilidade, flexibilidade e força, distintivos do perfeito equilíbrio do corpo humano.
Eram de duas espécies os exercícios da palestra, uns destinados aos meninos e moços, e outros aos homens feitos, por demandarem grande fortaleza.
Em geral, exageração dos Gregos a importância da educação física, considerando que a beleza é inseparável da virtude e da coragem, assim como a deformidade o é do vicio e da moleza. Mais razoável se mostrava Platão, pensando simplesmente que não convinha educar a alma sem o corpo, e sim dirigi-los igualmente, como uma parelha de cavalos jungidos à mesma lança. Dizia bem Montaigne: não é uma alma, não é um corpo que se educa; é um homem.
Os romanos não fizeram da ginastica uma ciência tão paciente e aperfeiçoada, como os gregos. Dominados pelo espírito militar, entregavam-se, principalmente, ao manejo de armas mais pesada, e a exercícios tendentes ao desenvolvimento da força muscular, mas de certo que não desdenhavam a educação física.
Na Idade Média, embora não se cuidasse regularmente dos exercícios ginásticos, os exercícios equestres supriam-lhes até certo ponto a falta; e a educação física era levada em linha de conta.
Foram depois desaparecendo esses varonis exercícios; e ao descobrimento das armas de fogo, que, para determinados efeitos, dispensam o vigor corporal, seguiu-se o abandono da ginástica.
Repelida dos estabelecimentos de educação, entregues então a mãos eclesiásticas, ficou de todo esquecida nos séculos XVII e XVIII, embora um ou outra vez se levantasse, de vez em quando, para, em nome da medicina ou da arte militar, protestar contra o esquecimento.
A primazia pertence à Suécia e à Alemanha; fundando o poeta Ping em Estocolmo, já no ano de 1814, o instituto nacional de ginástica, que ainda existe.
Mas nesta matéria a principal glória toca ao coronel Amores, cujo plano, aperfeiçoado por M. Laisné no Tratado elementar da ginástica clássica, publicado em 1872, é hoje geralmente aceito. Os exercícios recomendados são simples, mas de grande alcance para a saúde e para o desenvolvimento físico.
Os resultados higiênicos da ginastica são assim expostos por um moderno escritor:
“Os exercícios ginásticos facilitam o jogo dos órgãos necessários à manutenção da vida, favorecem o desenvolvimento do corpo, consolidam os ossos, fortificam o temperamento. Não só os membros frequentemente exercitados tornam mais vigorosos, mais ágeis, senão que, sendo a economia do corpo um,a só, a atividade comunicada a uma das funções aproveita a todas as outras; a circulação do sangue, tornando-se mais enérgica, reparte com maior igualdade as matérias nutritivas, e impede que certas partes absorvam a nutrição das outras; a respiração, a digestão, tornam-se mais rápidas, e a perda de forças, exigindo reparação, dá ao apetite outra vitalidade.”
Na Inglaterra, onde se liga o maior interesse à educação física, os exercícios ginásticos acompanham os estudos. Nas universidades o tempo é repartido entre os estudos literários e científicos e os exercícios corporais, destinando-se a estes maior espaço.
Em França, as ideias a este respeito não estão da mesma forma adiantadas. Receia-se, por mal-entendido espiritualismo, que o desenvolvimento físico influa no moral e absorva as faculdades intelectuais.
Se se tratasse do culto da matéria, seguramente o orador não o advogaria. Trata-se, porém, da saúde vigorosa, da energia corporal, que prescrevem a pureza, a sobriedade, a atividade. E não há incompatibilidade alguma entre o vigor físico e a excelência intelectual e mora: irrecusável prova encontramo-la em Platão, que reunia à robustez do corpo e superioridade da inteligência.
Se, em toda a parte, a educação física deve merecer cuidado especial, sobe de ponto essa obrigação no Brasil, onde raças, comparativamente inferiores, contribuíram também para a formação da geração atual. Uma raça viril, no corpo e no espírito, tal é a que convém ao Brasil, cujo solo abençoado está reclamando a energia de seus filhos para serem convenientemente exploradas as várias riquezas que contém. Essa raça não se forma sem perseverantes e atentos esforços, assim na educação cientifica e literária, como na educação física. Esta, porém, pode dizer-se que acha-se entre nós quase inteiramente esquecida. Cuida-se seriamente nas escolas e colégios de exercícios físicos? Estão os colégios e escolas em edifícios apropriados, nos lugares mais salubre? Tem-se na devida conta a ginástica?
Louvores sejam dados ao ilustrado inspetor das escolas municipais o Sr. Dr. Antonio Ferreira Vianna pela fundação, que promove ativamente, de uma aula completa de ginástica na escola de S. José. Cabe também aqui honrosa menção dos clubs ginásticos que existem nesta cidade, dos estabelecimentos públicos e dos raros particulares em que se contempla o ensino da ginástica.
O que, em geral, observamos tristemente em nossos estabelecimentos de instrução primária e secundária? Meninos débeis, pálidos, nervosos. Em alguns, segundo consta ao orador, tem-se até introduzido vícios degradantes, e aplicam-se ilegalmente os abomináveis castigos corporais, tão prejudiciais ao brio dos alunos.
Por tal caminho chegaremos a precoce decadência. E se, tratando dos colégios e liceus da França, disse não sem razão Victor de Laprade que, em relação aos meninos que os frequentam, se deve fazer mais do que o estrito necessário em matéria de educação física, o que devemos dizer nós, vendo que, em nossos, estabelecimentos de ensino, não se atende sequer aos exercícios de ginastica natural, os longos passeios ao ar livre, o movimento, a carreira, o salto, a natação, a agilidade, a destreza, a força? O que devemos dizer nós quando nem em todos os colégios há boa e sã alimentação, nem em todos presta-se atenção devida ao asseio do corpo e ao vestuário dos alunos?
É com pesar que o orador fala nestas coisas, e talvez não tenha dito tudo quanto devera. Mas, tendo-se proposto a tratar nestas conferências de questões pertinentes à educação, não podia esquecer a parte relativa à educação física, que reclama entre nós os mais assíduos desvelos.
Não se escusem com os preceitos eclesiásticos os que não se preocupam senão com a educação do espírito, que aliás o orador de modo algum deseja ver preterida.
“Se, diz um escritor contemporâneo, a Igreja, na média idade, acreditou dever tomar pelo jejum, pela maceração, pela imobilidade, raças exuberantes de sangue e paixões barbaras, reconhece que se acha hoje em presença de populações anêmicas, fracas; e que cumpre robustecer os temperamentos. Então, podiam estes ser sofreados sem perigo para corpos saturados de seiva barbara, e com grande proveito para o equilíbrio intelectual. Em nossos dias, é o espírito que insta pelo aumento da vitalidade física, por sentir que desfalece da vitalidade física, por sentir que desfalece em corpos empobrecidos”.
Mas para que a este respeito nenhuma dúvida reste o orador terminará repetindo as eloquentes palavras do bispo de Orleans, o Sr. Dupanloup:
“A Igreja ensina que o corpo do homem é, depois da sua alma, a obra mais nobre do Criador. Entre as obras mais brilhantes da criação material nenhuma lhe é comparável.
É de notar que a Igreja tem leis expressas para proibir a entrada do santuário e o ministério sagrado aqueles cujo corpo apresenta alguma deformidade, nec deformes.
A educação física não tem certamente por fim lisonjear os sentidos e suas más inclinações; mas tornar o homem, corpo e alma forte, são, e quanto possível independente dos acidentes exteriores. Sem uma constituição robusta, o homem mais inteligente e laborioso fica reduzido à impotência. Triste joguete das enfermidades, vê-se a cada passo demorado em sua carreira: as letras, as ciências, as artes, os ofícios mais humildes, como as profissões mais elevadas, nada é possível sem o auxílio de uma boa saúde. A educação física tem por fim conservar, fortalecer, ou restaurar esta saúde tão preciosa.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 06 set. 1878. Anno 57, n. 249, p.2 (resumo). Capturado em 30 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19178
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 253. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=842
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)