Conferência Popular da Glória nº 254
Data: 08/09/1878
Orador: João dos Reis de Souza Dantas Sobrinho
Título: Luta pela existência: seu papel na evolução das espécies
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Realizou-se domingo a 254ª conferência, honrada com a presença de Sua Majestade o Imperador, e numeroso e ilustrado auditório.
Ocupou a tribuna o Sr. João dos Reis de Souza Dantas Sobrinho.
O orador começa dizendo, que a natureza é pouco conhecida, mal julgada e até envilecida por aqueles que buscam fora dela a explicação dos fenômenos que se passam no seu seio, e cuja contemplação inspira curioso interesse e admiração. Destes fenômenos nenhum mais belo, nenhum mais digno de estudo, do que o das formas múltiplas em que a vida se traduz, se manifesta. Em todos os tempos, rezam as crônicas da ciência, o homem procurou interpretar este fato. A história revela que ele esforçou-se por satisfazer o seu desideratum.
Consultá-la neste caso é seguir passo a passo desde as primitivas eras, através dos séculos que passaram, o traço luminoso em que se refletem as suas tentativas. O orador não mencionará as teorias mais ou menos cientificas que nasceram destas tentativas, nem os nomes daqueles que as elaboraram, nem os daqueles que previram com mais ou menos certeza as ideias modernas sobre a evolução das espécies, até a época em que principia a doutrina evolutiva.
Vai para meio século que, quando o solo político da França se erguia em eminências vulcânicas pela tempestade de 1830, no meio da academia francesa dois sábios se debatiam, um, em prol da tradição, representada na cosmogonia mosaica, interpretada e desenvolvida por Linneu, que deu-lhe a base cientifica; o outro, em prol do progresso da ciência. Eram Cuvier, ao qual em todo caso deve-se inteira veneração, e grato respeito pelos seus imensos e incontestáveis serviços prestados às ciências naturais, e E. Geoffrey Saint-Hilaire, cujo elogio fica traçado desde que se cite o único fato de haver arcado com o gênio de Cuvier, sustentando contra ele a doutrina do transformismo. Com esse debate esta doutrina ficou oficialmente lançada à circulação cientifica, e entregue à apreciação e estudo dos naturalistas.
Mais tarde veio Darwin que, seguindo o partido de Saint-Hilaire, deu à doutrina do transformismo todo seu valor e exatidão cientifica, descobrindo o porque do fato que ela apenas assinalava. A teoria seleção, a doutrina de Darwin propriamente, nasceu do estudo comparativo feito entre o modo porque o homem exerce a escolha na criação dos animais, e cultura das plantas na seleção artificial, e o modo porque em a natureza é feita a transformação das espécies na seleção natural. Para boa compreensão da seleção natural, o orador irá descrever o modo porque o homem exerce a seleção artificial, e, depois de conhecidos seus resultados, os meios de ação, as leis e propriedades orgânicas utilizadas pelo homem, mostrar que em a natureza existem causas eficientes análogas de que ela se serve na seleção natural. Sabe que todos que o ouvem conhecem ou não ignoram a existência das lindas e uteis variedades de plantas e de animais obtidas por meio da seleção artificial. Descreve o modo porque o jardineiro obtém uma variedade de planta de certa espécie em relação a um caráter escolhido e o modo também porque o criador se dirige na formação de raças de animais. Lembra as variedades de plantas que fazem as delícias dos amadores, e as afamadas raças de animais apregoadas nos mercados por excessivos preços. Todas estas formas obtidas pelo trabalho humano, pela atividade da seleção artificial, é força confessar, diferem muito mais entre si do que as espécies dos naturalistas. A excelência dos produtos depende se sempre do cuidado na escola, e a presteza da sua formação da ausência de cruzamentos perturbadores.
Cita e faz notar o exemplo das Pereiras moderna melhoradas pela cultura, que, tanto se afastaram da sua originaria espécie, Pyrus Communis; e o das Groselhas, Ribes Grospelaria originariamente, que pesaram, sete gramas e hoje pesam até 60, isto é, quase nove vezes mais! Os exemplos pululam e cada qual mais brilhante.
A seleção artificial forma hoje uma verdadeira arte, em que entra até o capricho. Quais são as propriedades da organização de que o homem se serve para realizar a seleção artificial? Todas as funções orgânicas podem ser reduzidas a duas: nutrição, que tem pôr fim a conservação do indivíduo, e geração ou reprodução, que conserva a espécie. A estas duas funções correspondem duas outras faculdades orgânicas que dão-lhe os meios de conservar sua vida e sua espécie. De um lado está a variabilidade ou a faculdade da adaptação, intimamente ligada aos fenômenos de nutrição; do outro a herança ou a faculdade de transmissão, que se exerce por meio da geração ou reprodução. São estas as duas propriedades fisiológicas de que se serve o homem na seleção artificial.
O agricultor tem certeza de que pela herança, isto é, pela reprodução conservará a variedade obtida, e procura obter esta variedade porque descobre diferenças que ele se serve e elas resultam da impossibilidade de encontrar-se dois organismos que tenham variado igualmente. De feito; todo o organismo forçosamente, tem de nutrir-se, sem o que não vive, e para nutrir-se é preciso que se adapte às condições de nutrição a que estiver sujeito, e como ele nunca contará dois momentos sucessivos no decurso de sua existência, em que se ache colocado sob idênticas condições de nutrição, segue-se que há de variar a cada momento, embora tão pouco, que a variação só se torne apreciável depois de certo número de gerações. De outro lado, visto como a variação depende das condições de nutrição, das suas relações mecânicas com o mundo exterior, e como é impossível que dois organismos se achem sob idênticas condições de vida, de nutrição, segue-se que jamais se encontrará dois organismos perfeitamente iguais. É impossível encontrar-se duas plantas ou dois animais iguais completamente, como é impossível dar-se este caso com dois homens. A diferença ou variação escolhida para servir de característico acentua-se cada vez mais em cada nova geração, e no fim de certo tempo está formada a variedade desejada pelo agricultor. A nutrição abrange todas as relações materiais e, com os outros organismos que o cercam.
O orador passa a tratar da herança, que define a faculdade que tem todo o organismo de transmitir aos seus descendentes as qualidades que o distinguem, não só as já herdadas por ele, como as adquiridas por meio da adaptação do decurso de sua existência. É fato este, o da herança, muito comum, e por isso pouco atendido, mas cuja consagração e reconhecimento ressalta do rifão popular:
“Quem sai aos seus não degenera”.
Insiste nas considerações sobre o valor da herança e da adaptação.
Passa a explicar a seleção natural, e mostra o modo porque a luta pela existência, servindo-se das mesmas duas faculdades orgânicas utilizadas pelo homem na seleção artificial, consegue e opera a transformação das espécies. Esta é a grande descoberta de Darwin.
A luta pela existência existe em toda a parte, desde o rasteiro musgo até ao gigante das florestas, desde o zoophyto até ao homem, e resulta forçosamente das condições econômicas da natureza, que não teria espaço bastante para nutrir o número exorbitante de indivíduos que proveriam dos germens se todos eles vigorassem. O número de indivíduos ou de espécies não é, portanto, filho do acaso, nem depende somente do número de germens existentes, mas sobretudo das condições naturais de existência. Daí a luta que se estabelece entre os organismos, não só pelo espaço, pelo alimento, luz, ar, humildade, etc., como entre cada indivíduo e o resto da natureza, contra os elementos, todas as condições que puderem perturbar sua vida, seu desenvolvimento. Para o indivíduo como para a espécie, a vida é este combate sem tréguas, sem repouso contra um sem-número de inimigos, e é dele que surgem entre vitorias e revezes as formas variadas que todos nós admiramos no mundo organizado. É nesta luta que sobre ruínas sobre um solo de destroços, abrindo túmulos, o organismo se retempera e aperfeiçoa, recebe o cunho de sua individualidade, que a espécie surge, recebe vida, batismo e evoluciona. Assim na sociedade humana é n’uma luta semelhante que o homem, aspirando ao bem que é o progresso, e a liberdade que é o bem, fazendo-se herói, ou santificando-se mártir, se fortifica, se aperfeiçoa, que o seu gênio se expande; e que a humanidade retemperando-se nas gerações evoluciona, e segue caminho do progresso. A decantada união, paz e cordialidade entre os seres em a natureza fica desmentida desde que se estude a relação destes seres entre si. É da complexidade destas relações que provem fatalmente a luta, tanto mais renhida quanto mais semelhantes forem os organismos, isto é, quanto mais semelhantes forem suas necessidades. A vida é um bem precário cuja posse depende de inúmeras circunstâncias. Mas a luta pela existência, longe de ser um mal, é a grande condição do progresso, a fonte de todo bem, a lei suprema de harmonia e ordem para a natureza, que, bem como a sociedade humana, tem também sua economia.
A concorrência vital reverte, em benefício da natureza, porque aperfeiçoa o organismo, como no mundo social a concorrência para o trabalho, em todas as suas variadas e brilhantes manifestações que lhe empresta a atividade humana, é um bem para a sociedade, porque aperfeiçoa o trabalho.
O orador mostra como e porque os animais se revestem as cores análogas às do seu habitat, e em relação com o meio em que vivem, e como e por que as plantas dos países arenosos e socos adquirem folhas peludas ou carnudas, tão adaptadas ao clima em que vivem estas plantas, por que guardam melhor a pouca umidade que absorvem e que é indispensável à vida do vegetal, umidade que bem depressa se evaporaria toda se a folhas fossem como são comumente, sendo a morte da planta a fatal consequência desta evaporação. A transformação dos órgãos, isto é, sua adaptação, é tão profunda que muita vez ali eles existem embora sob outra aparência.
Sirva de exemplo as conhecidas cactáceas, e o que se chama vulgarmente babosa.
Na luta pela existência o organismo que vence é sempre aquele que apresenta alguma vantagem sobre seus competidores, que sucumbem, e o caráter que lhe valeu a vitória, vai-se acentuando cada vez mais, por uma lei da herança, em cada nova geração, de sorte que, no fim de certo número de gerações, está a espécie formada e adaptada ao meio em que vive. A seleção se faz porque só poderão viver aqueles que estiverem melhor adaptados às condições a que estiverem sujeitos, e só esses poderão reproduzir-se para formar a espécie, ao passo que os outros morrem sem ter deixado descendência.
É assim que atua a luta pela existência. A seleção natural se faz em benefício do organismo, a fim de melhor viver; na seleção artificial o homem produz as formas com o fim de satisfazer a um plano ou um desejo de antemão traçado, e o proveito é só seu. A seleção também atua no desenvolvimento e evolução humana, e é a ela que devemos o que o somos hoje. O militarismo que existe em muitos países ou em quase todos, é uma das causas de atraso para o nosso progresso orgânico.
A França ainda hoje sofre os efeitos da mania guerreira de Napoleão I. A seleção médica é outra causa prejudicial. Defina e mostra como se realizam a seleção militar e a médica. O orador conhece que precisa concluir esta sua conferência, que servirá de introdução a outras que fará, mas antes de terminar não pode deixar de mencionar as duas grandes e salutares consequências da seleção natural: a lei da divisão do trabalho, ou da divergência dos caracteres, e a lie do progresso, ou do aperfeiçoamento.
As formas vivas tendem sempre a ocupar extremos opostos, porque viveram tanto melhor no mesmo lugar quanto mais diferentes forem, isto é, quanto mais diferentes forem suas necessidades. Se um certo número de insetos, por exemplo, se alimentassem só da folha de um vegetal, viveram pior, em luta mais aberta do que se deste número algas se alimentassem de flor, outros de frutos, etc. Se em um mesmo lugar não houver homens da mesma profissão, nunca poderão viver bem. É o princípio da divisão do trabalho, tão necessário na sociedade humana, que se verifica na natureza.
A lei do progresso ou aperfeiçoamento diz que as espécies vão se aperfeiçoando com o correr das gerações, e é o que prova a leitura das camadas terrestres em que o progresso está escrito em brilhantes caracteres, como em páginas de um livro que não mente. Esta é a lei paleontológica por excelência, que se verifica sempre. A prova de que a espécie não é uma coisa fixa e imutável como sustentaram Lamarck e Darwin, contra Cavier e Agassiz é que nem estes, nem os seus continuadores puderam estabelecer o seu valor característico e diferencial.
Todos os esforços convergindo a este fim tem sido baldados: a espécie é tão indeterminada como d’antes Lamarck, o primeiro assinalou o fato do transformismo, e da descendência continua. Darwin explicou o como e o porquê deste fato. Estes dois naturalistas venceram com as mesmas armas que seus adversários descobriram e procuraram manejar em prol da sua causa. Cuvier criou a paleontologia, Agassiz aperfeiçoou-a, e as provas desencavadas por ambos são todas em favor da teoria evolutiva.
O orador agradece ao ilustrado auditório a benévola atenção que lhe prestou, e promete voltar à tribuna, e em outras conferências desenvolver a tese que escolheu, e que vasta como é, não poderia ser tratada n’uma só conferência. A teoria da evolução não abrange só o domínio da biologia; mas toda a natureza. É a explicação mecânica de todos os fenômenos do universo.
Perante ela o vácuo que existia entre o mundo anorgânico e orgânico está preenchido.
A natureza é uma, e esta é a sua verdadeira concepção. Quando o homem emergindo apenas do estado selvagem viu-se cercado de tão numerosos quão diferentes fenômenos naturais contemplou-os sob um ponto de vista que a ciência moderna repele. Entendeu primeiramente que tudo que vi tinha sido criado por sua causa e para o seu usufruto, e por essa tendencia irresistível que leva todos espírito ignorante e atribuir as causas sobrenaturais aquele que não pode explicar nem compreender, revestiu estas causas das formas humanas, isto é, aquelas que mais conhecia, deu-lhes vida, virtudes, vícios, caprichos, etc.: fê-las á sua imagem, mas continuou sobretudo a tratar de alimentar-se, seu primeiro interesse e única ocupação, nessa época do seu pouco esclarecido entretenimento. Pouco a pouco foi firmando o seu domínio sobre a terra, e libertando-se das necessidades da vida selvagem, ou das agruras dessa vida, e veio-lhe mais tempo de pensar sobre o que via, e que contemplava ainda sob um véu de mística poesia.
Desta contemplação, em que a imaginação trabalhava mais do que o espírito, nasceram as cosmogonias primitivas ou teogonias, cujo grau de progresso foi depois sendo marcado pela redução no número de causas e sua mútua subordinação. O legado que nos deixaram estas cosmogonias foi: o erro geocêntrico e o erro antropocêntrico. O primeiro já foi emendado, e ninguém hoje lembra-se do advogado; o segundo foi banido da ciência pela doutrinada evolução, e Darwin foi o Newton da biologia.
Para elevar o homem, basta considerar que luta não tem sido necessário sustentar para que ele chegasse ao grau de adiantamento moral e intelectual em que se acha hoje.
Ninguém atualmente lembra-se mais de invocar causas sobrenaturais para explicar os fenômenos do mundo anorgânico. A física, a química, etc., já se libertaram dos preconceitos dos dogmas absurdos, da tradição, por que razão a biologia deve estar subordinada a eles?
As únicas revelações que a ciência admite estão escritas na natureza, que é a fonte de todo conhecimento, de toda a verdade. É do seu estudo que a ciência se forma, porque, como diz Humboldt, “a ciência é o espírito aplicado à natureza?”
O orador foi aplaudido e cumprimentado ao descer da tribuna.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16 set. 1878. Anno 57, n. 259, p.2 (resumo). Capturado em 30 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19246
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 254. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=843
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)