Conferência Popular da Glória nº 256
Data: 22/09/1878
Orador: José Maria Velho da Silva
Título: Língua Portuguesa III
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se domingo a conferência n. 256 no salão das escolas públicas da freguesia da Gloria em presença de um auditório mais numeroso do que fazia esperar o mal tempo.
Ocupou a tribuna o ilustrado professor do colégio de Pedro II, o Sr. Dr. José maria Velho da Silva.
Fez uma breve recompilação dos pontos de que havia tratado nas preleções antecedentes. Entrando no desenvolvimento literário do século XVI, mostrou que foi esse o período da grande atividade da língua e da literatura portuguesa; a língua, fixando-se pelas leis e preceitos gramaticais, sendo Fernão de Oliveira o primeiro que ensinara e mostrara as regras, dando à estampa sua gramática da língua portuguesa em 1536, seguindo-se lhe João de Barros três anos depois; a literatura manifesta o sentimento nacional pelo esplendido concurso de suas grandes individualidades.
O Homem desenvolvia-se pela escola erudita de [ilegível] Nebrixo; Bascan a Garcilasso de la Vega cedem ao predomínio de André Navagero, embaixador de Veneza na Espanha, abandonam as formas da poesia peninsular e abraçam os metros italianos, de sorte que o desenvolvimento literário era paralelo e simultâneo em ambos os países. Portugal desenvolvia-se em sua língua e literatura por causa imanentes particularmente suas, como a descoberta da Índia, as grandes navegações, a volta do estrangeiro de seus grandes homens como Ayres Barbosa, Damião de Goes, André de Rezende e outros muitos que haviam adquirido notável reputação nas letras e ciências; como o petrarquismo introduzido no reino de Sá de Miranda, auxiliado por Ferreira, Sá de Menezes, Diogo Bernardes, Jorge de Monte Mór, Caminha e outros e por diversas outras causas que longo fora enumerar.
Aparece o gênio popular em Gil Vicente, a consciência história em João de Barros, a disciplina gramatical em Fernão de Oliveira, a preferência da língua para as concepções ideais em Antonio Ferreira, que não escrevera em castelhano uma só poesia como os seus contemporâneos, e, finalmente, o espírito de nacionalidade em Camões. Por isso é este período dos quinhentistas, chamado áureo. Esvaecia-se o predomínio da escola espanhola e começa o ascendente da italiana, já dos últimos tempos de reinado de D. João II, que entretinha intima e frequente correspondência com Angelo Poliziano.
Sá de Miranda volta de suas viagens e vem da Itália dominado pela suavidade e novidade de Petrarcha, e torna-se o fundador da nova escola, apesar da luta contra os apaixonados dos Villancetes e esparsas dos cancioneiros e dos cultores de redondilha a que sucedia o hendecassílabo italiano. O orador discorreu acerca das alterações fônicas e morfológicas por que passou a língua, da corrente popular que, imobilizando-se, ia caindo no arcaísmo e da erudita, que ia aproximando a pronúncia do tipo latino.
Tratando da poesia lírica e didática, falou de Bernardino Ribeiro, de Cristovão Falcão, de Sá de Miranda, de Antonio Ferreira, de Caminha, de Diogo Bernardes e de Camões, citando diversos trechos de cada um destes escritores, fazendo reflexões analíticas acerca de cada um deles.
Chegando ao gênero épico, falou detidamente dos Lusíadas, citando grande número de oitavas do imortal poema, pondo em relevo suas esplendidas belezas, citando igualmente alguns trechos latinos da Eneida nas passagens correlativas. Chegando ao teatro nacional de Gil Vicente e à sua escola, à que se filiaram Antonio Ribeiro Chiado, Jeronymo Ribeiro, Antonio Prestes e outros, fez um paralelo do estado da literatura do século XVI entre os povos da Europa meridional, mostrando que Portugal nesse período só podia reconhecer como competidor a Itália, por suas grandes individualidades literárias; quanto à Espanha só no século seguinte criou-se o seu teatro nacional, procurando suas lendas e tradições populares; a França estava nesse mesmo período sob o domínio da escola gaulesa de Marto e foi também só no século XVII que Malherbe criou a verdadeira escola francesa, abrindo esse largo estádio onde ficaram como vencedores coroados de louros e rodeados de gloria imorredoura com os venerandos prelados, águias da eloquência sagrada.
Por achar-se adiantada a hora, o orador concluiu, prometendo continuar.
O orador foi muito aplaudido ao deixar a tribuna.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 27 set. 1878. Anno 57, n. 270, p.3 (resumo). Capturado em 02 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19315
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 256. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=845
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)