Conferência Popular da Glória nº 267

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 08/12/1878

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Higiene das habitações I

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se domingo passado a conferência n. 267, no salão da escola pública da Glória, ocupando a tribuna Sr. Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que tratou deste interessante assunto: Higiene das habitações.

Explicando ainda uma vez a sua posição naquela tribuna, disse que o único sentimento que o guiava era o desejo de concorrer com mais uma insignificante pedra para o monumento levantado pelo Sr. Conselheiro Correia, obreiro do progresso intelectual do nosso país.

Declarou o orador que sempre nutriu decidida simpatia pela instituição das conferências populares, há tanto tempo inauguradas nesta corte e hoje vantajosamente conhecidas em todo o Império, e até mesmo no estrangeiro.

Disse que muitos tem sido os frutos já colhidos de tal instituição.

Encarando o homem desde as mais remotas eras, desde os tempos primitivos da criação até hoje, o orador mostrou claramente as grandes modificações por que tem passado as habitações públicas e particulares, no correr dos séculos.

E, para demonstrar esta verdade, referiu-se aos primeiros abrigos que o homem procurou contra as intempéries e a fúria dos elementos, isto é, os troncos das arvores, as cavernas, as grandes escavações naturais, etc., uma vez que nem sequer ele tinha ideia dos edifícios de hoje.

Mas sendo tais abrigos insuficientes, não oferecendo comodidades, e segurança, tornava-se necessário levantar outros que preenchessem esses fins. D’aí a primeira ideia das habitações privadas.

Percorrendo a este respeito a história, referiu-se o orador aos povos da Abissínia, da Arabia, da Tartária; aos selvagens da América e aos negros da Costa d’África, mostrando a diferença das habitações entre uns e outros, seus grandes defeitos e imperfeições.

Referiu-se depois aos antigos egípcios e aos gregos e romanos, que, no dizer de Vitrúvio, possuíam soberbos edifícios, dotados com todas as comodidades, rodeados de jardins magníficos, ostentando, enfim, luxo e suntuosidade.

Mas, disse o orador, que não tanto as formas, não tanto as comodidades do edifício, o luxo, a suntuosidade, etc., devem merecer a atenção do higienista, como e sobretudo o local, o terreno em que é levantado ou construído.

E sob este ponto de vista particular, isto é, considerando a influência das diversas localidades sobre o nosso organismo, sobre a nossa saúde, pode-se dividir as habitações em: subterrâneas, edificadas em planícies; em lugares elevados, colinas ou montanhas; nas proximidades dos bosques ou florestas; nas proximidades dos grandes rios ou dos mares; e, finalmente, nas proximidades dos pântanos ou lugares encharcados.

A este respeito fez o orador largas e importantes considerações:

Condenando absolutamente as habitações subterrâneas, por altamente inconvenientes à saúde, uma vez que nelas há falta de luz, de ar, atuando a umidade com grande energia.

Quanto às habitações colocadas em lugares elevados, disse que as alturas médias devem ser preferidas, pois que nas grandes alturas o ar é rarefeito, há diminuição da pressão atmosférica, e abaixamento de temperatura. O pulmão trabalha muito mais, a hematose é muito enérgica, e, pois, a habitação em localidades muito elevadas não convém aos tuberculosos, nem aos indivíduos predispostos a contrair tal afecção.

Em relação às habitações situadas nas proximidades dos bosques ou das florestas, são elas em geral saudáveis. Mas é preciso que a casa não esteja muito próxima da mata, porque, se estiver, ficará sujeita à influência de uma atmosfera por demais úmida, e que traz certos inconvenientes à saúde. No entanto, alguns autores negam isto, e sustentam que não há o menor inconveniente em habitar-se muito próximo das florestas, ou mesmo no seio delas, como fazem alguns caçadores, gozando aliás de perfeita saúde.

A mesma cosia se pode dizer das habitações situadas nas proximidades dos rios ou dos mares. São geralmente saudáveis, mas é mister que estejam um pouco afastadas a certa distância das águas, pela mesma razão já apontada, a umidade do ar.

Quanto às casas ou edifícios construídos nas vizinhanças dos pântanos, não podem deixar de ter de grandes e sérios inconvenientes à saúde.

A influência maléfica do miasma paludoso se faz então sentir em larga escala, acarretando uma série de consequências desastrosas.

E, pois, ponderou o orador, não mereceria a menor desculpa, não encontraria atenuante alguma, aquele que tivesse a triste lembrança de construir uma casa em lugar pantanoso, sem primeiro aterrá-lo devidamente, e arborizá-lo.

Passou em seguida a ocupar-se das habitações aglomeradas, que constituem as cidades, vilas ou aldeias.

Indicou quais as regras higiênicas, quais os preceitos que devem rigorosamente observados nos grandes centros populosos, a fim de que não sofram não periguem a saúde e a vida dos habitantes.

Insistiu na necessidade de abrirem-se ruas largas, direitas e arejadas; na necessidade de proceder-se com todo o zelo e cuidado à limpeza, à irrigação, em uma palavra, fazer-se tudo pelo saneamento das grandes cidades.

Falou da necessidade imprescindível da arborização dos jardins das praças públicas, e das vias de maior trânsito, fazendo ver que o arvoredo é não só um meio de embelezamento, como uma fonte perene de saúde e de vida para os habitantes dos grandes centros, dos grandes povoados.

Falou dos esgotos, dos sistemas da canalização de águas potáveis e da iluminação artificial, prometendo voltar a tais assuntos, se ainda lhe for dada a honra de ocupar de novo a tribuna das conferências.

Por último, tratou da magna questão da ventilação, da renovação do ar nos edifícios particulares ou públicos.

Falou dos diversos sistemas empregados para obter-se esse desideratum, ocupando-se da ventilação a gás, feita por meio das chaminés de apelo. Expôs resumidamente este processo de renovação do ar, grandemente usado na Europa, e mesmo entre nós.

Tratando da importante questão da ventilação, disse o orador que tinha grande satisfação em referir-se ao hospício de alienados, que acaba de ser construído anexo ao hospital de S. João Baptista de Niterói, que ia ser solenemente inaugurado, e que vai começar a prestar serviços à humanidade.

O novo edifício foi construído de modo irrepreensível no que diz respeito à higiene. Todos os preceitos da ciência foram cuidadosamente observados, sendo postos em pratica a habilidade e proficiência.

Mas o que principalmente chama a atenção é o moderníssimo sistema de ventilação, pela primeira vez ensaiado entre nós, o qual se recomenda já pela sua simplicidade, já pela eficácia de seus resultados na prática, já pela economia com que pode ser realizado.

Consiste unicamente nisto: “reservar na espessura das paredes condutos verticais, dos quais uns, os denominados de pavimento, se elevam tão somente desde o assoalho até a aba do forro, e os outros vão até acima do telhado; estes comunicam-se com o ar livre no seu ponto culminante, e com a peça ventilar pela parte inferior da mesma ou na altura da aba do forro, abrindo-se os condutos do telhado n’aquela altura para o interior do aposento, ao passo, que ao nível do rodapé podem comunicar-se com o aposento ou com o exterior do edifício”.

É um sistema todo baseado na diferença que sempre existe entre a temperatura do ar confinado no interior do edifício e o ar livre, o ar exterior.

Tomando conta da administração da província do Rio de Janeiro, e visitando a casa de detenção da capital, o Sr. Visconde de Prados foi vivamente impressionado pelo espetáculo que lá viu! Neste edifício absolutamente não existiam, não eram postas em pratica as mais triviais regras da higiene. A ventilação se fazia por meio das janelas, que tinham sempre de ficar abertas quer a noite fosse plácida e serena, quer tempestuosa!

À vista disso, o ilustre visconde nomeou uma comissão, composta do ilustrado facultativo, vantajosamente conhecido em toda a província do Rio de Janeiro, o Sr. Dr. José Martins Rocha, e do hábil engenheiro, diretor das obras públicas da província, o Sr. Dr. José Antonio Rodrigues, à qual encarregou de indicar os melhoramentos que julgasse mais urgentes, a fim de cessar os grandes inconvenientes da casa de detenção, onde também eram recolhidos os alienados.

A comissão, entre outas medidas que propôs, lembrou a criação do hospício de alienados, que por ser muito urgente foi logo posta em prática, achando-se hoje inauguradas as respectivas enfermarias.

Este importante melhoramento, disse o orador, bem como as demais obras ultimamente realizadas no hospital de S. João Baptista de Niterói, constituem um verdadeiro título de recomendação da administração do Sr. Visconde de Prados, e bem demonstram o zelo de S. Ex. pela salubridade pública.

Terminando, o orador declara que o sistema de ventilação inaugurado no hospício de alienados de Niterói é digno de ser generalizado, e espera que o será, quando a experiencia e a observação o justificarem plenamente.

O orador foi muito aplaudido pelo auditório, do qual faziam parte algumas senhoras.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 10 dez. 1878. Anno 57, n. 344, p.1 (resumo). Capturado em 03 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19855

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 267. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=854

 


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