Conferência Popular da Glória nº 270

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 29/12/1878

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Higiene das habitações II

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se, domingo, a conferência n. 270, no salão da escola publica da Glória, ocupando a tribuna o Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que concluiu o importante assunto de que já se ocupara, isto é, a higiene das habitações privadas e públicas.

O orador, depois de fazer um resumo de sua anterior conferência, entreteve a atenção do auditório com as magnas questões de escolha e distribuição das águas potáveis e de esgotos públicos.

Mostrou quais os requisitos que deve apresentar a água, para ser considerada potável, e poder ser distribuída pelas populações.

Disse que todos os higienistas recomendam que a água seja: 1º agradável ao paladar; 2º límpida; 3º fresca no verão e temperada no inverno; 4º que deva servir a cocção dos legumes e hortaliças; 5º conter uma certa quantidade de ar e de acido carbônico; 6º dissolver o sabão sem deixar grumos; e 7º finalmente, não deve a água conter em si matérias orgânicas.

Para obter-se a água límpida basta que seja deixada em repouso, porque então as substâncias que porventura tenha em suspensão se depositará no fundo do vaso.

Mas para que o deposito se faça é mister certo tempo, 9 dias pelo menos, segundo os melhores cálculos. E, pois, é um meio muito simples, mas que não convém por causa de sua morosidade.

Deve-se recorrer de preferência aos diversos filtros naturais ou artificiais.

Como exemplo de filtros naturais o orador apresentou os terrenos arenosos, à cuja imitação se tem construído em alguns países da Europa as chamadas galerias filtrantes, muito em uso na França.

Em relação aos filtros artificiais propriamente fitos, disse o orador que tem eles geralmente a desvantagem de tornarem-se dispendiosos, quando se queira filtrar água em larga escala.

Há diversos. Por exemplo, o sistema das bacias filtrantes, muito empregado em Londres. Consiste nisto: três grandes bacias, comunicando entre si; na primeira bacia a água fica apenas em repouso; na segunda atravessa uma cama de areia pouco espessa, e na terceira atravessa então uma camada arenosa muito espessa, de sorte que sai límpida, clarificada perfeitamente.

Há ainda os chamados cilindros portáteis ou de Fonville. São de madeira, cobertos de ferro e hermeticamente fechados; cada cilindro é dividido em nove compartimentos, sendo cada um destes ocupado por uma substância filtrante de natureza diversa, à excepção dos dois primeiros, onde há apenas esponja dividida.

Pois bem, a água, passando sucessivamente por cada um dos compartimentos, chega no nono já purificada, inteiramente límpida. É um excelente meio de obter-se água filtrada.

Além destes, o orador ainda mencionou outros filtros artificiais menos importantes.

A respeito do sabor da água, disse que é indefinido; não se pode dizer positivamente qual seja. Todavia, a água não deve ser nem picante, nem salgada nem adocicada.

Tratando dos meios a empregar para obter-se água fresca, disse que no uso doméstico, abstração feita do gelo, há dois recursos: ou envolver os vasos que contêm água com panos de linho molhados, ou lançar mão de vasos porosos, que permitem a saída de uma pequena quantidade de água que, chegando à superfície exterior, se evapora, dando lugar ao resfriamento.

Tendo assim apreciado as qualidades que deve apresentar a água para ser considerada potável, e poder ser canalizada e distribuída pelas populações, o orador passou a tratar dos esgotos, a cujo respeito fez largas considerações.

Depois de definir o que se deve entender por sistema de esgotos, disse que sendo eles perfeitamente construídos, respeitando-se todos os preceitos que a ciência nos aconselha, e que, enumerou, não podem ser prejudiciais à saúde pública, ao menos no seu percurso.

Uma condição imprescindível é que dos esgotos não parta exalação alguma mefítica, mesmo na quadra do mais intenso calor.

As galerias devem ter o declive necessário, a fim de que possa ser fácil o escoamento das águas. Devem ser construídas de modo que permitam conservar-se um homem de pé dentro delas e oferecer largura, capacidade suficiente apara darem vazão a grandes massas d’agua, resultantes, por exemplo, de uma chuva torrencial.

Insistiu muito o orador nos cuidados que é mister ter-se, quando se procede aos concertos, ou reparações nos esgotos, a fim de que não seja o ar viciado pelos gases mefíticos que então se desprendem.

Lamentou que entre nós se despreze tanto esta questão, sendo certo que as galerias ficam às vezes abertas e expostas ao Sol ardente durante muitos dias, resultado daí não pequenos inconvenientes à saúde pública pelas contínuas exalações.

Comparou os diversos sistemas atualmente mais em uso, pondo em paralelo o da [?] Paris e o e Londres, mostrando as grandes vantagens deste sobre aquele.

Tratou do sistema inglês ou da circulação contínua, procurando demonstrar a sua grande utilidade prática, e terminou a sua interessante preleção dizendo que a desinfecção das matérias fecais e dos detritos de toda a sorte e seu aproveitamento para a agricultura parecer ser hoje a única solução do importante problema higiênico sobre o qual dissertara.

Ao deixar a tribuna foi o orador muito aplaudido pelo auditório.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 01 jan. 1879. Anno 58, n. 01, p.2 (resumo). Capturado em 03 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_06/20004

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 270. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=857

 


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