Conferência Popular da Glória nº 277
Data: 18/05/1879
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: O sentimento religioso
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença de S. M. o Imperador realizou-se no último domingo a conferência n. 277, ocupando a tribuna, por justo impedimento do orador a quem competia, o Sr. Conselheiro Manoel Francisco Correia, que tratou do sentimento religioso. Laço entre o criador e a criatura, não pode o sentimento religioso animar aquele que não professa a crença da existência do Entre Supremo. Mas se, infelizmente, há homens ateus, não há povos ateus. A negação da existência de Deus é uma aberração do entendimento, tanto mais deplorável, porque é o homem o único dos seus criados a que foi concedida a noção de Deus, especial graça que nunca excitará bastante o seu reconhecimento. Como obra da natureza física que diferença entre o homem, ponto imperceptível no globo que habitamos, e o sol, centro do nosso sistema planetário! Entretanto só o homem, ser inteligente, tem aquela noção.
A ideia de Deus, se este não existira, não podia ser inventada pelo homem. As palavras de Voltaire: e se Deus não existisse, fora mister inventá-lo, não exprimem senão a importância da dúvida curvada diante da evidência.
Sem a crença em Deus, o mundo moral perderia o seu ponto de apoio; e se as leis físicas são imutáveis, como o ser que as decretou, não menos seguras são as leis morais, emanadas do mesmo Supremo Legislador, leis morais que devem ser ainda mais imperiosas para os homens, pois que, entre os seres criados, só a ele são aplicáveis.
Eliminemos a ideia de Deus, fundamento do mundo moral, e vejamos que explicação se busca para a moral das ações humanas; tratando agora de um dos sistemas.
Derivam acaso as noções e do injusto do interesse pessoal, como sustentaram Carneades na antiguidade, e mais recentemente Hobbes, que procurou demonstrar esta filosofia, o sistema do egoísmo; Heloccio que a popularizou e Benthan que a erigiu em sistema, aplicando à jurisprudência?
Ao exame mesmo perfunctório deste ponto, suficiente para consumir o tempo da conferência, limitou-se o orador, que mostrou como os princípios da escola de Hobbes arrastam a consequências fatais para a sociedade, pondo o interesse no lugar da justiça e substituindo o bem-estar pelo cumprimento do dever.
Protestou o orador desvendar o assunto, em suas conferências; de arguciosas questões metafísicas ou teológicas, como as que separavam Grocio e Pufendorff, sustentando o primeiro que Deus não poderia converter o bem em mal, e o segundo que, se Deus quisesse, o que nos parece crime poderia ser virtude; ou como a tão disputada entre os filósofos da incompatibilidade, entre a presciência divina e a liberdade humana, e sinta menos como as de D. Tomás, alias espirito eminente, resolveu: se o anjo bom ou mau pode pecar venialmente; se o fogo do inferno é semelhante ao da terra, etc.
Restringir-se-á aos pontos de que decorrem consequências sociais, para demonstrar quanto importa o sentimento religioso, o qual, se prende o homem a Deus pela gratidão, origina entre os homens os benefícios que resultam da caridade, da piedade, do amor do próximo.
A influência benéfica da crença em Deus sobreo a marcha das sociedades é inapreciável.
Incitando o auditório a mantê-la cada vez com mais firmeza, o orador repetiu ao terminar estas eloquentes palavras, cheias de verdade, de um profundo pensador contemporâneo:
“A previdência imperturbável que brilha no universo sensível, o encadeamento admirável das causas e dos efeitos, a vida que circula sem cessar nos seres, proclamam bem alto a existência de uma suprema inteligência que é Deus: a ciência cujas investigações se encaminham diariamente para os últimos átomos dos seres, não encontra nos confins da natureza senão a confirmação da eterna previsão, os fatos novos que ela descobre no fundo dos mares no seio da terra, sob o escalpelo do medico ou no cadinho do químico, testemunhar a sabedoria infinita que encerra no corpo do pequeno inseto mecanismos mais perfeitos que nossas maquinas mais engenhosas.
O homem que, incapaz de produzir uma fecha seca, acredita que tantas obras maravilhosas formavam-se por si mesmo, parece-me o ludibrio da mais absurda e monstruosa ilusão.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 20 maio 1879. Anno 58, n. 139, p.2 (resumo). Capturado em 06 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/20958
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 277. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=864
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)