Conferência Popular da Glória nº 281
Data: 15/06/1879
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: Bebidas ácidas e aromáticas
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença do S. M. o Imperador efetuou-se no dia 15 do corrente, no salão da escola da Glória, a conferência n. 281, sendo orador o Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que tratou das bebidas ácidas e aromáticas.
Disse que são muito numerosas as bebidas acidas conhecidas, mas que apenas trataria de algumas, que serviriam de tipo para todos as outras da mesma classe.
Falou em primeiro lugar da água acidulada pelo vinagre, bebida agradável quando acidulada, o que Parent Duchatelet com toda a razão classifica entre os debilitantes, porque o vinagre, como se sabe, concorre para o aumento da secreção do suor.
Ação justamente e oposta possui a água acidulada pelo limão, a qual opõe-se de modo absoluto à secreção do suor, suprimindo toda e qualquer transpiração cutânea.
Falou depois o orador da limonada sulfúrica, bebida agradável e ao mesmo tempo excelente recurso terapêutico. Disse que goza ela da propriedade anticéptica ou anti-pútrida, sendo neste sentido muito empregada por todos os clínicos. É ainda preconizada como eficaz para combater os efeitos da intoxicação saturnina, ou envenenamento pelo chumbo e seus preparados. A este respeito disse o orador que, apartando-se de muitos autores, não crê que a limonada sulfúrica seja capaz de debelar o envenenamento crônico pelo chumbo; crê sim na sua eficácia como meio preventivo, profilático desse envenenamento. E, pois, aqueles que trabalham em profissões que exigem a constante manipulação dos preparados desse metal, devem fazer uso dessa bebida.
Disse que poderia ainda referir-se a muitas coisas bebidas ácidas, pois sabe-se que por meio dos ácidos nítricos, oxálico, tartárico, málico carbônico, etc, se podem obter outras tantas bebidas aciduladas.
Não o fazia, porém, por julgar desnecessário, limitando-se a ponderar que há algumas águas de fontes naturais, que contém em sua composição o acido carbônico, sendo dessas fontes a mais antiga e a mais celebre a de Seltra no ducado de Nassau.
Ponderou o orador que esta água, bem como todas as demais bebidas acidas são de efeitos salutares sobre o nosso organismo, e que muito convém sobretudo aos habitantes de climas quentes. São agradáveis, ligeiramente excitantes; favorecendo as digestões, e convindo, portanto, aos dispépticos.
Mas é mister não abusar das bebidas aciduladas, como infelizmente, acontece nos países quentes, porque então podem dar lugar a peso no estomago, relaxamento das funções digestivas, embaraço gástrico dispepsias.
A respeito da água de Seltz, de Vichy, e outras análogas, disse que é necessário ter muito em atenção as falsificações, pois que nada é mais fácil do que obter-se, por exemplo, água de Seltz artificial. Para tanto basta sujeitar-se a uma compressão forte cinco volumes de ácido carbônico com um volume de água, porque a combinação se efetuará, sendo ainda mais fácil empregar-se um pouco de carbonato de soda.
Esta água artificial está longe de apresentar as vantagens da verdadeira, e tem os seus inconvenientes.
Depois de aduzir ainda outras considerações sobre este ponto, passou a ocupar-se das bebidas aromáticas, tomando como tipos o café, o chá, o mate e o chocolate.
Disse que não faria o histórico do cafeeiro, para só tratar do café como bebida, isto é, apreciar os seus efeitos psicológicos, terapêuticos e as afecções que lhe são atribuídas pelos médicos estrangeiros.
Disse que podem-se reduzir os efeitos fisiológicos do café ao seguinte: é tônico e excitante das vias digestivas, poderoso excitante do sistema nervoso, excitante da circulação. Querem ainda alguns autores, entre outros o eminente professor Trousseau, que o café seja poderoso recurso afrodisíaco.
Ora, ponderou o orador, por muito respeito que lhe mereça a autoridade citada, não pode concordar com o seu testemunho a respeito, tendo para contrapor à opinião desse ilustre clínico e terapeutista, a observação dos fatos, extensa entre nós. Com efeito, em nosso país, e sobretudo no interior de nossas províncias, abusa-se demasiadamente do café, tomando-se diariamente a sua tintura repetidas vezes, e, no entanto, os clínicos brasileiros não registram casos que abonem a opinião de Trousseau.
Outra acusação não menos grave e infundada que fazem alguns ao café, é que ele pode dar lugar à esterilidade das mulheres!
É isto uma pura fantasia.
O que faz o café tão somente é excitar mais o sistema nervoso das mulheres que o tem muito susceptível, produzindo o que os autores chamam estado vaporoso.
Passando a referir-se às propriedades terapêuticas do café, disse que é ele aconselhado com vantagem para combater as cefalalgias rebeldes, idiopáticas ou essenciais; são bem conhecidas as pílulas de cafeína, mais eficazes sem dúvida para debelar as dores de cabeça do que as famosas pílulas anticefalálgicas de Broussais.
O café é também aconselhado nas febres intermitentes e na adinamia, como tônico e excitante.
Finalmente pode ainda ser empregado como ligeiro sudorífico.
Como se vê, é bem limitado o quadro das aplicações terapêuticas dessa bebida.
Tratando em seguida das moléstias atribuídas ao abuso do café, o orador combateu energicamente a opinião de alguns médicos estrangeiros, que consideram tal bebida como a causa eficiente de muitos estados mórbidos, de muitas afecções, sobretudo do sistema nervoso.
Ocupou-se em seguida com a descrição dos efeitos fisiológicos e terapêuticos de chá e do mate, fazendo largas considerações, mostrando a semelhança que apresentam com os do café, e por último tratou do chocolate.
Disse que é esta uma bebida agradável, e muito nutritiva, mas que não é bem tolerada por todos os estômagos, sendo muitas vezes a causa de indigestões. E, pois, aqueles que quiserem dela fazer uso devem procurar habituar-se lenta e gradualmente a ingeri-la, até que o possam fazer impunemente.
Demais, as substâncias com que de ordinário se prepara o chocolate, como o leite e os ovos, concorrem ainda para que seja ele muito indigesto.
Aduzindo ainda outras reflexões a respeito dessa bebida, terminou a sua conferência, sendo aplaudido pelo numeroso auditório.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 21 jun. 1879. Anno 58, n. 171, p.2 (resumo). Capturado em 10 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/21178
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 281. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=868
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)