Conferência Popular da Glória nº 293
Data: 07/09/1879
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: : Dos excitantes do sistema muscular, e especialmente do imã e da eletricidade
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se domingo, 7, a conferência n. 293, na escola da Glória, subindo à tribuna o ilustrado Sr. Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que desenvolveu esta importante tese: - Dos excitantes do sistema muscular, e particularmente do imã e da eletricidade.
Após ligeira introdução referente à gloriosa data – 7 de setembro de 1822 – passou o orador a historiar largamente o assunto, que fazia objeto especial da conferência.
Mostrou que o imã é conhecido desde a mais remota antiguidade; disse que em todas as histórias políticas e religiosas do antigo Egito, da Pérsia e da Judeia encontram-se ideias a respeito das aplicações do imã para combater uma longa serie de estados mórbidos. Mas, como a ciência estava então muito atrasada, em seu berço, esses povos atribuíam os efeitos dessa substância ao maravilhoso, ao sobrenatural.
De 1700 em diante é que se começou a estudar mais seriamente o imã, como agente terapêutico, depois dos trabalhos de Holman, Weber, Ludwig, e outros, que demonstraram a eficácia desse agente para debelar as odontalgias e as nevralgias em geral.
São também dignas de menção as observações de Fabricio de Hilden, e de Morgagni, que deram algum impulso às aplicações terapêuticas do imã.
Mas quem esforçou-se deveras em demonstrar as vantagens de tal substância para a cura de certas moléstias, foi o padre Hell, lente de astronomia em Vienna, e mestre de Mesmer, que em 1774 abraçou completamente as suas ideias, abrindo uma casa de saúde, onde tratava gratuitamente por meio do imã, dentre outras afecções, o reumatismo e as paralisias.
Em 1777, porém, Mesmer abandonou este sistema, e começou a atribuir as curas a um princípio oculto, desconhecido, fluido, magnético animal, e não mais ao imã.
Mas Lenoble, professor de física em Paris tratava também as moléstias por meio de ferro imantado, e chegou mesmo a apresentar uma memória à sociedade real de medicina, pedindo-lhe que emitisse o seu douto parecer a respeito do novo agente terapêutico.
Com efeito uma comissão foi nomeada, da qual faziam parte homens notáveis como Audry e Thouret, que, mais tarde, foi diretor da academia das ciências. Esta comissão, depois de sérios estudos e observações, apresentou o seu relatório, em que confirmava a eficácia do imã para combater as odontalgias, o tico doloroso da face, o reumatismo, as oftalmias intermitentes, as gastralgias e as paralisias histéricas.
Desde então firmaram-se os créditos do ima como recurso terapêutico, e modernamente alguns clínicos notáveis ainda o tem empregado, bastando citar o eminente professor Trousseau.
Em seguida passou o orador a tratar do histórico e das aplicações terapêuticas da eletricidade; recurso sem dúvida muito mais poderoso do que o imã e hoje geralmente empregado em todos os casos de paralisias e em muitas outras moléstias.
Mostrou o orador as diversas fases por que passou a eletricidade médica, antes de firmar a sua reputação como meio terapêutico, e neste sentido tratou largamente do seu histórico, desde 1740, em que Jalabert introduziu-a na medicina, até os tempos modernos.
Referiu-se principalmente aos trabalhos do médico sueco Lindolpho, às observações do celebre Dehsen, ao relatório da Sociedade Real de Medicina de Paris, publicado em 1778; ao notável trabalho dos Srs. Poma e Arnaud de Nancy, publicado no Jornal de Medicina de Vandermonde, onde acham-se coligidas observações muito curiosas sobre o emprego da eletricidade contra o reumatismo, as escrófulas, o raquitismo, as paralisias, a anquilose, e a gota serena.
Depois de referir-se ainda aos estudos de Galvani, de Volta, de Hallé e Salandière, passou o orador a falar a respeito dos notáveis trabalhos de Duchenne (de Boulogne), que tratou da eletricidade médica como ninguém, no seu livro intitulado: Da eletricidade local e sua aplicação à fisiologia, á terapêutica e à patologia.
Foi só depois dos trabalhos desse distintíssimo clínico que generalizou-se o emprego da eletricidade em medicina.
Antes de terminar a sua importante preleção o orador referiu-se a várias observações do emprego da eletricidade como meio excitante nas nossas enfermarias de clínica médica, e tratou minuciosamente de uma observação de um caso de reumatismo poli articular crônico nodoso, em uma menina de 2 anos, curada por meio da eletricidade, quando já haviam falhado todos os específicos do reumatismo. Esta observação vem publicada no Progresso Médico, e é devida ao trabalho do Sr. Dr. Moncorvo de Figueredo, distinto médico desta corte.
Assim, concluiu o orador a sua interessante e útil conferência, sendo muito aplaudido pelo auditório, do qual faziam parte algumas senhoras.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 11 set. 1879. Anno 58, n. 253, p.2 (resumo). Capturado em 11 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/21714
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 293. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=880
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)