Conferência Popular da Glória nº 294
Data: 14/09/1879
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Literatura e nacionalidade, Portugal nos séculos XV e XVI, a inquisição e os jesuítas
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Domingo 14, na escola publica da Glória, fez o Sr. Conselheiro Pereira da Silva a sua anunciada conferência. Imenso povo enchia as salas, damas e cavalheiros distintos se ornavam. Sua Majestade honrou-a também com sua presença: é já a 294ª conferência que ali se tem efetuado.
O orador expos em traços largos as ideias, tendencias, instituições e estado de Portugal durante os três primeiros séculos da monarquia, sob os princípios Affonsinos: guerras contra Castella par sustentar a independência contra os Mouros para estender o território e segurar então a autonomia à nacionalidade nova que se criara. Tudo foi rude, guerreiro, ativo. Mas formou-se e firmou-se a nação com os povos que habitavam o solo, e que eram da raça goda, misturada com antigos celtas e romanos, de raça muçulmana escravizada e ocupada nos trabalhos agrícolas, da raça judia com leis a parte, moradias à parte e entregues ao comercio e indústria, e de raças do norte flamengos, normandos, etc., que se estabeleceram em Portugal à convite dos soberanos.
Assim modificando-se com esta aglomeração e a marcha dos acontecimentos os costumes e tendencias, acompanhou-os o progresso da língua, posto que falada entre o povo e cantada irregularmente pelos poetas prosadores, pela maior parte cortesãos e até reis como D. Diniz.
A segunda dinastia de reis começa com D. João I, de Aviz. Durante ela é que se desenvolve Portugal em todo o sentido durante o século XV. D. João I, D. Duarte, D. Affonso V, D. João III, animam conquistas, navegações, comercio, ciências, letras e artes: é o século XV o da maior glória de Portugal porque se tornou superior a todos os outros países, explicando o orador a situação de todos da Europa, e particularmente Veneza, Aragão e Genova.
Por morte de D. João II toca o trono a D. Manoel, colateral, e não mais herdeiro direto. Assim mesmo D. Manoel colhendo os frutos de seus antecessores, soube fomentá-los e engrandecer a nação, realizando a conquista da Índia imaginada por D. João II, e conseguindo o descobrimento do Brasil, com o que toda a Lisboa se converteu em empório do mundo, decaindo Veneza e o comercio do Levante e do Mediterrâneo. Aos portugueses cabe a glória de primeiros descobridores e navegantes, seguidos logo pelos espanhóis e depois pelos ingleses, franceses e holandeses, que se atiraram também sobre a América e após sobre a África e a Asia.
Assim descrito o desenvolvimento da nacionalidade portuguesa, o orador mostra os da língua e da literatura. Nos três primeiros séculos língua rude, difícil, dura, só poesia, cujos trechos lê, explicando. No XV, língua maviosa, e não só poesia, mas também prosa, lendo trechos de Bernardino Ribeiro, Garcia de Rezende e Gil Vicente, para comparar com os de D. João Manoel, el-rei D. Diniz, Macios, Henriques, Egas Moniz e outros anteriores. Lê trechos de Fernando Lopes e Bernardino Ribeiro para mostrar como se organizou a prosa desde o leal conselheiro de el-rei D. Duarte, entremeando a conferência com episódios e anedotas, que muito agradaram e mereceram do auditório numerosos e repetidos aplausos.
Durante D. Manoel, isto é, fins do século XV e começo do XVI é que se formam os grandes escritores que fixaram definitivamente a língua, latinando-a e regularizando-se, e se formou aa grande literatura que é ainda hoje um dos mais gloriosos títulos da nação.
Com D. João III começa a decadência. Rei fanático, ignorante e absoluto, por que as cortes sob D. João II tinham perdido todo o poder e prestígio, e os monarcas se tornaram única e ilimitada potestade, entrou no reino a inquisição, que o ensanguentou e empobreceu de gente útil e industriosa, e que manifestou o espirito e o pensamento; logo após os jesuítas, que pelo monopólio conquistado da instrução publica, acanharam os estudos dando-lhes a direção prejudicial, e cortando os voos às boas letras e ciências; D. Sebastião foi um rapaz doudo, que morreu nos campos da África; D. Henrique, o cardeal, um fanático que continuou a lançar a nação no abismo em que caiu em 1580, humilhada sob as armas de Felippe de Espanha, corrompida de vícios, e mais cadáver que corpo vivo, arrastando-se no opróbio. Depois de mais de uma hora haver o orador falado, terminou no meio dos mais calorosos aplausos de todo o auditório.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 15 set. 1879. Anno 58, n. 257, p.2 (resumo). Capturado em 11 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/21744
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 294. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 18 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=881
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)