Conferência Popular da Glória nº 306
Data: 14/12/1879.
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Língua e nacionalidade VI, período da união ibérica
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“A de domingo 14 de dezembro e às 7 horas coube ao Sr. Conselheiro Pereira da Silva, S. M. o Imperador honrou-a com a sua augusta presença. Concurso de senhoras e cavalheiros tão grande e compacto poucas vezes se tem visto em conferências; salas e corredores da escola da Glória estavam apinhados de espectadores.
Historia o orador com traços expressivos a história da morte do cardeal D. Henrique em 1580, sem se haver decidido a sucessão da coroa portuguesa: as pretensões dos três principais candidatos, Felippe II de Espanha, Duque de Bragança e Prior do Crato; a resolução do rei castelhano em cortar a questão com a espada; a entrada do seu exercito em Portugal, curvando o reino todo a seu domínio e expulsando o Prior do Crato, único que se opusera; as cortes de Thomar aclamando o rei de Portugal Felippe II, a posse, enfim, do soberano estrangeiro.
As armas subjugaram, a violência se empregou, a perseguição se desenvolveu contra os suspeitos de não aderirem ao jugo espanhol, a corrupção tratou de ganhar-lhe prosélitos. Em despeito das promessas de Thomar, foi-se unificando a península e tornando-se Portugal simples província; de lá se tiraram os melhores navios de guerra, as armas e artilharia, desarmou-se lhe o exército, encheram-se os empregos de espanhóis, guarneceram0se as praças e fortalezas com espanhóis, e deu-se ao reino governadores, como o eram na realidade os das outras províncias de Espanha.
Tudo caiu de uma vez, o abismo abriu-se para Portugal. Comercio, indústria, navegação nada escapou à ruína e naufrágio do reino e à perda de sua autonomia. Índia, África e até o Brasil, como consequência, isto é, as conquistas e as colônias se foram perdendo, tomadas por Ingleses e Holandeses, a pretexto de guerra contra Espanha. Esta só defendia suas próprias e primárias conquistas, abandonada aos portugueses, à cobiça dos estrangeiros. A pobreza, a miséria, a fome e a peste começaram a devorar o Estado escravizado.
Futuro nenhum adivinhavam os portugueses que minorasse seus males: a saudade do passado vibrou-lhes como sonhos, e à pouco e pouco, o fanatismo religioso, se foi convertendo em fanatismo político; na falta de realidade criaram uma idealidade; a fé religiosa seguiu-se a fé patriótica; um milagre se deveria efetuar. D. Sebastião não podia ter morrido, andava encoberto, D. Sebastião voltaria. O povo no delírio do afeto, como as crianças, cria maravilhas absurdas. Formou-se assim a seta dos sebastianistas, e não tardaram à aparecer impostores, dizendo-se D. Sebastião. Não menos de quatro apareceram, e o orador contando os episódios do milagre, alegrou e extasiou seu auditório, e tornou-se mais rigoroso na opressão dos portugueses.
A morte de Felippe II posto que cruel e fanático, ainda piorou a situação de Portugal e Espanha; passou de reis enérgicos a miseráveis governados por favoritos e favoritas. Espanha aparentava até então grandeza, mas estava gangrenada e corrupta pelo despotismo, e pela inquisição e espírito clerical e ultramontano. A podridão escondida até então apareceu, e faltando o braço forte que a cobria com ouropéis de gala, caiu como corpo inerte; Portugal acompanhou-a, e perdeu conquistas na Índia, África e América, despovoado o Tejo e exaustos os cofres.
A língua portuguesa foi deixando de ser cultivada por bons escritores, como Jorge Montemor, Faria Souza, Jacintho Freire e até D. Francisco Manoel de Mello; apenas alguns de mais fé no futuro continuaram a escrever em português, e não quiseram empregar o castelhano. Entre estes figuram Luiz de Souza, Severino de Faria, Francisco de Andrade, Galvão. São estes que representam a literatura da época, inferir à anterior de D. João III e muito mais ainda à de D. Manoel e à da Casa de Aviz.
Na poesia, poetas secundários como Rodrigo Lobo, Sá de Menezes, Gabriel de Castro, Fernão Alvares e Mourinho Quevedo, que se atiram à églogas pastoris e idílios e romances em verso, imitando Corte-Real e Ercilla, chamando-os poemas épicos, quando neles tudo é frieza de gelo, e as pinturas são físicas e não falam ao coração e a alma; não basta desenhar um olho, é mister pintar um olhar; a verdadeira poesia não é pintura simples para a vista; é a revelação da alma, do espirito; a mulher formosa encanta mais pelos sentimentos íntimos da família, dos carinhos, das saudades da infância, das doçuras da esposa, fiel companheira, do apoio na velhice, das reminiscências, enfim, intimas, do que pelas formas plásticas, bem que admiráveis, para a pintura e para escultura. Não há mais a melancolia de Bernardino Ribeiro, o espírito de Gil Vicente, a elevação de Ferreira, a sublimidade, o patriotismo, a paixão exaltada, a harmonia majestosa de Camões, e nem sequer a tristeza e afeto de Corte-Real.
Os prosadores contentam-se com vidas de santos, com narrações de milagres, com crônicas de conventos, com notícias cronológicas, do que com verdadeira história, como a sabiam magistralmente escrever Fernão Lopes, João de Barros, Damião de Góes e Osorio.
Entre os vultos literários da época refulge todavia o de Luiz de Souza, superior à todos. O orador reconta a sua vida esquiva e trabalhada. Cavalheiro de Malta, prisioneiro e cativo em Argel em companhia de Cervantes, restituído à liberdade e casando-se com a viúva de D. João de Portugal, morto na África. Chamava-se no mundo Manoel de Souza Coutinho, e foi um dos portugueses que sonhou sempre com os brios e independência da pátria, e mais detestava os espanhóis conquistadores. Nada mais curioso e pitoresco que sua existência aventurosa. Por fim separa-se da mulher, entra para o convento de S. Domingos, e toma o nome de Luiz de Souza, enquanto que ela veste-se com o hábito da Monja. O orador encanta o auditório com esta interessante personalidade que já deu assunto ao admirável drama de Garret.
Frei Luiz de Souza foi poeta e excelente poeta latino; como prosador em harmonia, maviosidade, imagens e doçura é o primeiro dos portugueses; posto que menos correto que o padre Vieira, toma-lhe supremacia pelo gosto apurado e pela amenidade da frase e primor do pensamento; posto que inferior em elevação à João de Barros, é mais agradável e mais terno, prende e encanta mais o leitor; em relação à Fernão Lopes, que quase a mesma poesia e o mesmo talento descritos, ao passo que emprega língua já formada e firme, e não um idioma de infância. Seria escritor primoroso sempre com as duas crônicas monásticas, que escreveu sobre os apontamentos de Cacegas. Com a obra histórica dos Anais de D. João III, assunto mais importante e elevado, toma então a posição de um dos primeiros escritores, quer como estilista, quer como filosofo, quer como portuguesa, carece estudar os escritos de Luiz de Souza. Há ainda a apreciar quer o patriotismo do autor que o manifesta sob o estamenha monástica, quer o senso moral e religioso que falando em religião a encara e aprecia com o Cristo o ensinou para e santa, do céu, e não dos interesses da terra, de perdão e misericórdia, não de castigo e perseguição, da consciência e não da vida social, do amor e não da ambição do mundo.
É impossível dar mais extenso extrato de tão interessante, encantadora e longa conferência; pelo atual se poderá fazer ideia aproximada. O orador recebeu durante todo o seu discurso as maiores demonstrações de apreço e estima de todo o auditório, ao deixar a tribuna foi vitoriado.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 16 dez. 1879. Anno 58, n. 349, p.2 (resumo). Capturado em 21 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/22364
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 306. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 24 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=896
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)