Conferência Popular da Glória nº 324
Data: 25/07/1880
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Sobre o grande vulto do Padre Antonio Vieira (cont.)
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Domingo 25, a efetuada pelo Sr. Conselheiro Pereira da Silva, no edifício da escola da Glória, foi ouvida por numerosíssimo concurso de cavalheiros e senhoras da melhor sociedade, e por S. M. o Imperador que a honrou com sua presença.
Recapitulou o orador os traços necessários para pintar o caráter individual do padre Antonio Vieira, e a influência que ele exerceu sobre o desenvolvimento da nacionalidade portuguesa do século XVII, de que é a imagem perfeita e o mais fiel elevado representante.
Faltou a seu coração sensibilidade, é que era jesuíta; mas nunca se mostrou ingrato, e nem deixou de proteger quantos careciam de seus serviços. Coadjuvou poderosamente o governo de D. João IV no período mais arriscado da sociedade e da nação portuguesa; foi seu conselheiro mais atendido em negócios de guerra, de finanças, de administração, de diplomacia, de assuntos religiosos, de progressos da colonização do Brasil e da catequização de seu gentio, de melhoramentos de sua agricultura e de suas vitórias contra os holandeses. Foi o maior político do seu tempo.
Como jesuíta era adheso a seu instituto sem pretender fazê-lo dominar sobre o governo, servindo-o dedicadamente para lhe dar fulgor e honra, não para dirigir as questões civis e políticas; como religioso, era obediente à Igreja, posto que tinha isenção de espírito, superior às ideias supersticiosas e fanáticas do século; sustentava os cristãos novos, proclamava a liberdade dos gentios, e propagava as ideias de justiça verdadeira e elevada. Por isso e por causa de política foi perseguido e preso e deportado do Maranhão; foi preso e condenado pela Inquisição, sofreu naufrágios e foi vítima de piratas e da ingratidão dos homens.
Serviu à regência de D. Luiza de Gusmão e conspirou contra o governo de D. Affonso VI para lhe arrancar a coroa e passar a posse do poder ao infante D. Pedro, sacrificando o princípio de legitimidade não só às conveniências do país, como também a despeitos e vingança por suas injurias e perseguições particulares.
Não encontrando no infante D. Pedro a mesma importância e valor que com seu pai obtivera, afastou-se das pompas da corte abandonou o trato dos políticos portugueses, e foi morrer na Bahia, no isolamento.
Amava a glória, mas desdenhava aplausos: aconselhava os reis e ministros, mas conservava-se pobre, tendo por única propriedade a roupeta. Suas virtudes particulares nunca foram contestadas, seus costumes individuais conservou puros, grados e livres de toda a suspeita.
Em relação à influência exercida sobre a lingua portuguesa, essa foi enorme; ninguem antes nem depois dele manejou com tanto decoro, perfeição e pureza a linguagem portuguesa. É mestre, e o primeiro. Sirvam de exemplo seus escritos. Não tem a doçura de Luiz de Souza, nem o entusiasmo e fogo de Thomé de Jesus, nem a gravidade clássica de João de Barros, nem as graças infantis e pitorescas de Fernão Lopes, mas é mais correto e claro que todos. É o escritor que melhor conhece o valor de cada um vocábulo, e o modo de organizar a frase mais clara e fluente. Lê trechos para o provar que extasiam os ouvintes e lhes arrancam acalorados aplausos.
Acerca da literatura é o primeiro escritor do século XVII, e uma das maiores glórias portuguesas.
Suas cartas são primorosas, e o orador explica-lhes o mérito, comparando-as com as de Cícero e Mm de Sevigné, os melhores modelos estrangeiros, e com as de Jeronymo Osorio, D. Francisco Manoel de Mello e Fr. Francisco de S. Luiz, os três melhores epistológrafos portugueses depois de Vieira.
Seus opúsculos políticos são admiráveis; as questões são tratadas magistralmente sob todos os pontos de vista; os alvitres são recomendados clara e logicamente. Mostrou-se grande político nos meios que recomendava para a guerra contra a Espanha na Europa e Holanda no Brasil, que lembrava para melhorar as finanças, para conseguir alianças no estrangeiro, para engrandecer o Brasil, para renovar a marinha, fortificar as praças, guarnecer as costas, etc.
Suas memórias sobre os gentios da serra de Ibiapaba e da Ilha de Marajó são perfeitas narrativas históricas, que provam que devemos lastimar que ele não escrevesse a história de Portugal em que tomou tanta parte e foi tamanho vulto e personagem, senhor de todos os segredos do governo e das negociações e deliberações tomadas.
Como orador sagrado é verdadeiramente eloquente, e aí nem [?] e nem Massillon o excedem sendo superior a Jeronymo Osorio, e aos demais estrangeiros. Pregou em italiano e em português, e foi em Roma, em Portugal e no Brasil admirado. Muitos de seus sermões foram traduzidos em italiano, espanhol e francês, e alcançaram os maiores garbos no estrangeiro. Já os seus sermões na Bahia antes de 1640 provam a majestade e pompa das escrituras santas e dos escritos dos maiores padres da Igreja.
É verdade que na maior parte deles há defeitos lamentáveis, pretensões a irregularidades, paradoxos e extravagâncias de espírito, posto que desenvolvidos com a maior habilidade? Ora faz-se visionário; ora adivinha futuros; ora finge acreditar em cometas; ora zomba e ridiculariza, aproveitando-se da tribuna para lançar o sarcasmo contra seus adversários.
Estes defeitos diminuem-lhe todo o lustre. Mas há sermões perfeitos, como o do mandato, o das exéquias de D. Maria Athayde, os de moral fundada no evangelho, que fazem sentir que não guardasse o mesmo método nos outros. O orador cita trechos arrebatadores de alguns deles, e conserva sempre o auditório preso à sua voz, atento à conferência, que foi uma das mais interessantes e instrutivas.
É impossível dar um extrato ainda que resumido das considerações importantes desenvolvidas pelo orados nesta lição. Durou mais de uma hora, e o orador, ao dá-la por terminada, foi felicitado e vitoriado entusiasticamente pelo auditório.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 jul. 1880. Anno 59, n. 206, p. 01 (resumo). Capturado em 24 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1263
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 324. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=914
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)