Conferência Popular da Glória nº 328

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 12/08/1880  

Orador: Nuno de Andrade

Título: Ensino Superior, Faculdades de Medicina.

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“O Sr. Dr. Nuno de Andrade, professor da Faculdade de Medicina, realizou ontem às 6 ½ horas da tarde a segunda conferência das que outros seus colegas têm de fazer sobre o importante assunto: ensino superior nas faculdades de Medicina do Império.

Começou o orador dizendo que na última conferência o seu ilustrado mestre, o Sr. Conselheiro Dr. Pertence, abstivera-se de entrar na apreciação do estado em que se acha a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, da qual falará com toda a franqueza, sejam quais forem as consequências, agrade a alguns ou desagrade a outros.

Quer depositar perante este auditório, no qual vê muita animação à instrução pública pela sua presença, as peças do processo e os esforços sobrehumanos feitos pelos médicos brasileiros, que com tão poucos elementos tanto têm conseguido.

Foi invocado o socorro do Estado, pedidas as providências aos poderes públicos e um raio de luz que amparasse a decadente esperança; criando nova fase para o ensino, sucessivas memórias foram escritas, protestos levantados, nada se obteve.

Vê-se forçado, pois, a recorrer à tribuna popular e, em presença do monarca e do povo, apresentar as muitas queixas contra o péssimo estado da faculdade, não esquecendo as palavras do seu ilustrado mestre que o precedeu, de irem todos de porta em porta esmolar para socorrer o ensino e alcançar os meios para os imensos melhoramentos de que ele carece tanto.

Irão tristes, mas sem humilhação! A não se adotar este expediente, tarde ou nunca virão os meios de regeneração do Brasil, e quando a pátria invocar o socorro dos filhos, correrá a acabar de matá-la um povo de idiotas. Ora, não é essa a pátria que o orador sonhou para seus filhos, e por isso se acha nesta tribuna.

Não sendo assim, a glória do professorado será triturada pela aridez do parasitismo orçamentários, e ao apoucamento das inteligências seguir-se-á a anulação dos caracteres.

Disse que ia tratar das comparações das faculdades e dos meios de que algumas podem dispor. Quer antes salvar que, quando se refere à Escola Politécnica, não significa que é demasiada a verba consignada no orçamento para ela, mas que a da faculdade de Medicina é insuficiente. Toma ao acaso o orçamento de 1877 a 1878 e vê a seguinte disparidade: - Para a Escola Politécnica 308:309$, Medicina do Rio 185:000$, Medicina da Bahia 140:000$, havendo na primeira 311 alunos, na segunda 725 e na terceira 475, auferindo o estado de taxa de matrículas da Politécnica 15:500$ e da de Medicina do Rio 74:200$. Olhando para as verbas destinadas a laboratórios, vê que a verba da Politécnica (64:600$) é maior que a soma das destinadas as duas faculdades de Medicina (42:800$). A Politécnica com o pessoal gasta 254:000$ e a de Medicina do Rio 153:000$000.

À vista desta disparidade, que não pode ser olhada senão como uma prova do quase abandono em que estão as faculdades de Medicina, reclamo, em nome dos médicos que formam á legião altíssima dos eternos trabalhadores da vida, todos os elementos de ensino de que a faculdade não dispõe.

Descrevendo o edifício da faculdade disse que as aulas da Politécnica funcionam em edifício próprio, ao passo que as da faculdade são num antigo recolhimento de órfãos, cujas paredes externas apresentam um aspecto que só serve para achatar a supremacia do ensino.

Continuando na descrição das divisões do edifício mostrou o estado lastimável em que ele se acha, indicando a necessidade urgentíssima de se remediar a tantos males. Que a própria faculdade está em péssimas condições higiênicas e que até o horto botânico, que outrora houve, foi convertido em horta do porteiro. Vê-se até muito couve e rabanete que não se prestam ao estudo prático da cadeira do segundo ano (botânica). Pode mesmo dizer que a faculdade não se envergonha do que não possui mas sim daquilo que ela tem.

Pediu o orador que ninguém enxergasse nas suas palavras o propósito de tratar destas questões pelo lado do ridículo; vê-se obrigado a empregar este estilo para disfarçar os pesares que lhe causa o estado da faculdade, que poderá ser visitada por quem não quiser crer no que disse.

Esse estado é tanto mais para lamentar quanto ao tempo em que todas as nações seguem sua marcha triunfal para o progresso, nós nem podemos servir de soldados de retaguarda, contentando-nos tão somente com o erigir de serventes da bagagem.

Sabe-se que após muitos anos de reclamações apareceu o decreto de 19 de abril de 1879, que foi posto em execução parcialmente pelo Aviso de 21 de maio e põe medidas que só serviram para anarquizar o ensino.

Passando a fazer considerações diversas tratou dos professores e dos alunos, e mostrando a afinidade simpática entre eles, disse que a indolência ou trabalho do segundo é consequência das qualidades do primeiro.

Referindo-se à insuficiência dos exames preparatórios, lembrou que alguns alunos desconhecem até a língua vernácula a ponto de escreverem temperatura com dois pp e cálice com qua.

Falou da necessidade do restabelecimento do concurso para o catedrático. O substituto sofre um concurso apocalíptico, e nomeado lente senta-se numa cadeira e espera sua vez. Não, o orador quer pela dignidade do corpo docente das faculdades de Medicina que se restaure aquele concurso: fique quem souber, saia quem não servir.

Fatigado e compungido pela lembrança dos fatos desagradáveis que citou, fêz uma invocação a Sua Majestade pedindo que, após quarenta anos de reinado, não abandone a ocasião que se lhe oferece de regenerar o ensino no Brasil.

Terminou dizendo: que se tudo faltar e se os poderes públicos não atenderem às muitas reclamações da faculdade, resta-lhe o recurso à mocidade das escolas, à qual se negam os meios de ensino”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro,13 agosto 1880. Anno 59, n. 224, p.2 (resumo). Capturado em 28 mai. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1388    

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 328. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=918

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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