Conferência Popular da Glória nº 329
Data: 15/08/1880
Orador: João Paulo de Carvalho
Título: Sobre Ensino Superior, Ciência Prática, Experimental e Laboratórios.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na presença de S. M. o Imperador várias senhoras e numeroso auditório, do qual faram parte médicos e professores da faculdade de medicina, fez o Dr. João Paulo de Carvalho e terceira conferência sobre ensino superior, sciencia pratica, experimental e laboratórios.
Antes, porém, o Sr. Conselheiro Correia ocupou a atenção do auditório por alguns momentos e disse que um jornal do Rio Grande do Sul, o Conservador, que se publica em Porto Alegre, acaba de dar notícia em artigo de fundo, de um melhoramento importantíssimo para a navegação pela pressão do ar, descoberta do Sr. Veríssimo Barbosa de Souza.
Paga deste modo o devido tributo aos esforços do nosso compatriota, e convida o jovem orador, Sr. Dr. João Paulo, a ocupar o lugar em que vai mostrar quanto tem estudado e aproveitado o seu tempo.
O Dr. João Paulo disse que subindo à tribuna para tratar de uma questão de ensino superior, fala em nome da mocidade das escolas e de um grupo de cidadãos que conspiram a favor do ensino superior.
Lembrando, então, a lei de 28 de setembro, que foi pensamento do país antes de ser do governo, e que não seria talvez uma realidade pacífica se não fosse o apoio da opinião pública, pede uma reforma radical do ensino superior, mas de modo que posso imediatamente ser aplicada ao Brasil, o qual diverge muito dos velhos países da Europa. A reforma de 19 de abril de 1879, bem que pouco aplicável ao país, merece respeito porque estabelece em nossas faculdades o ensino experimental, e deve ficar essa data gravada nos nossos anais.
Como se dirige neste momento ao povo, tem de expor rapidamente a história da experimentação para mostrar em seguida sua utilidade, reclamando sua instalação no Brasil. Tratando dos laboratórios aplicados às ciências físicas que foram experimentais desde sua origem, mostra o que foram na Idade Média. No século XVII cabe a glória a Galileu, Torricelle, Newton e Descartes de terem revolucionado a física e a química. A experimentação nas ciências biológicas veio mais tarde. O método experimental foi largamente inaugurado na Europa pela ciência francesa, mas enquanto Magendie o sustentava no Colégio de França, o novo meio de ensino foi revolucionar a Alemanha, onde desenvolvendo-se de um modo prodigioso, elevou em 40 anos esse país à primeira nação científica do mundo. Sem investigação experimental não há medicina científica possível. Para saber como os homens e os animais vivem é preciso saber como morrem, porque o mecanismo da vida não se patenteia nem se prova senão pelo conhecimento do mecanismo da morte.
Entrando em diversas considerações sobre hospitais e sua necessidade, referiu-se aos serviços prestados por Claude Bernard que dotou a ciência de tantos fatos consideráveis como a glicogenia animal, a produção experimental do diabetes, a teoria do calor animal, etc., fazendo mais pela medicina em 20 anos do que os médicos pensadores de 10 séculos. Descrevendo os grandes e suntuosos palácios que quase todas as cidades mais importantes da Europa consagram ao ensino prático e experimental, e procurando uma faculdade de Medicina europeia para compará-la com a nossa no que diz respeito à experimentação, escolhe a da Universidade de Bonn, a mais modesta da Prússia e que é apenas frequentada por 126 alunos. Mostra em seguida que o governo gastou com seus laboratórios a soam de 570:000$ e o custeio anual é de 55:000$. Entretanto a nossa faculdade conta 725 alunos e despensa apenas 23:400$, compreendendo ainda nesta quantia as despesas com a biblioteca.
Isto quer dizer simplesmente que não há entre nós ensino experimental. Em Bonn, há um cadáver todos os dias para cada aluno, ao passo que entre nós para 200 alunos só há um, e isso nem todos os dias. O Hospital da Misericórdia é um vasto campo de estudo, mas sua organização jesuítica o subtrai ao serviço da ciência. As duas aulas de clínica, preenchidas por dois hábeis professores, são acanhadíssimas com seus 30 leitos para estudo diário de 200 alunos. O ensino aí é incompleto porque não há laboratório de química analítica, nem sala de microscopia, indispensáveis para o estudo de certos casos.
A autópsia mais grosseira raramente apoia o diagnóstico do mestre porque ou o cadáver é subtraído pela administração do hospital, ou a autópsia é feita por alunos cheios de inteligência, mas desabituados a esse gênero de pesquisa. Em apoio desta asserção leu uma nota de uma obra do professor Torres Homem que confessa não haver tempo no hospital para fazer autópsias. Na faculdade não há laboratório de fisiologia experimental, o de física, como está, melhor fôra que não existisse, o de química é mais um armazém de drogas do que um laboratório de ciência, mesmo assim a entrada é vedada aos alunos.
Continuando a notar a falta de ensino prático, citou a ausência do gabinete de Medicina legal.
Chega a formar-se um médico, legalmente em nossa faculdade, em cirurgia e partos, sem ter nunca assistido a um parto. Os alunos da faculdade são verdadeiros astrônomos da medicina, na opinião do orador. O único remédio é olhar para o céu da Europa.
Respeita a Faculdade de Medicina que é a mãe de sua inteligência, procurando mostrar os males a quem pode remediá-los. Pediu a fundação de laboratórios, de institutos de experimentação e clínica. O argumento que se invoca, de não haver dinheiro, não tem razão de ser no Brasil, cuja riqueza a Europa inveja. Diz que se os representantes da nação tiverem ao menos um mês de patriotismo por ano, para animarem a indústria nascente e agricultura, a face do país por certo mudará.
Se houvesse um apelo ao povo, este contribuiria do mesmo modo que há dois anos se pediram socorros para os nossos irmãos do norte. Em vez de 80.000:000$, que se mandaram para o norte, a quarta parte desta soma era já suficiente, e assim como se impediu que ali se morresse de fome, também evitar-se-ia que a mocidade morresse de ignorância que é a pior das mortes.
Terminou pedindo a Sua Majestade que, uma vez que tem dedicado parte de sua vida ao cultivo da ciência, auxilie o desenvolvimento do ensino com seus sábios conselhos, energia de vontade e imensidade do seu prestígio e ensino aos membros do parlamento, que bem merecerão da pátria se derem à ciência do país os meios de apresentar-se no Brasil com as mesmas ricas roupagens com que se ostenta na Europa”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 16 ago. 1880. Anno 59, n. 227, p. 01 (resumo). Capturado em 20 mai. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1409
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 329. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=919
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)