Conferência Popular da Glória nº 331
Data: 22/08/1880
Orador: João Baptista Kossuth Vinelli
Título: Ensino superior. Vícios de organização da faculdade de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Ontem, às 11 horas da manhã, na augusta presença do S. M. o Imperador, efetuou-se a conferência do Sr. Dr. Kossuth Vinelli, orando antes o Sr. Conselheiro Correia sobre o invento do Sr. Julio Cesar Ribeiro de Souza, relativo à navegação aérea, de que já demos minuciosa notícia.
O Sr. Dr. Kossuth Vinelli começou dizendo que não era espontaneamente que subia a tribuna, iluminada pelas brilhantes palavras dos oradores precedentes; era em obediência ao pedido do mestre que vinha dizer: a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro carece de uma reforma radical, porque a vida que leva cada vez lhe mina mais as forças, encaminhando-a para a morte.
Bem quisera forrar-se a esse difícil encargo; mas é o patriotismo, de que lhe falou o mestre, que o compele a descrever o triste estado em que se acha essa escola, alistando-se dest’arte no rol dos conspiradores, que não conspiram contra a ordem, mas somente em prol da instrução da pátria.
A causa que advoga é simpática a todos os espíritos, por isso o orador prevê que terá completa vitória.
Observa que seu colega, o Dr. Nuno de Andrade, mostrou com toda a verdade o estado precário da escola de medicina, mas infelizmente deixou no ouvido daquela sineta rachada e rouquenha, que chamando os estudantes às aulas parece exprimir com a sua natureza dissonância o estado desarmônico desse mesmo estabelecimento.
Mostra quanto paga o governo à Santa Casa de aluguel da casa, e que com as quantias gastas já se podia ter feito um edifício próprio para a faculdade, cujas salas atualmente não comportam o número dos estudantes matriculados. Acrescenta que o decreto de 19 de abril, na parte que se refere à liberdade de frequência, não trouxe abalo algum, tornando apenas de direito o que existia de fato, pela impossibilidade de marcar-se ponto aos alunos que faltavam. A necessidade de um edifício está exuberantemente provada.
Estuda uma nova face da questão de subida importância, a dos vícios de organização da faculdade, que da combinação com a instrução secundária incompleta e falseada que se ministra à mocidade (que em geral vai aos exames de preparatórios mais fiada nos empenhos do que nas habilitações) representam as poderosas causas do atraso no ensino superior.
Entende que é uma necessidade patentear-se ao público em toda a sua nudez o estado da escola, e que o dinheiro gasto na reforma e benefícios será com certeza imensamente produtivo.
Referindo-se às despesas feitas como o laboratório de biologia da Escola Politécnica e de fisiologia do museu, onde os Drs. Lacerda e Couty tem feito importantes estudos com os instrumentos modernos, assevera que darão bons resultados, pedindo que estabeleça também um laboratório de fisiologia na Escola de Medicina. Para provar essa necessidade diz que na academia, querendo-se fazer uma experiência, não havia sequer uma máquina elétrica, e por isso teve se de pedi-la ao museu. Ainda mais, necessitando-se de um termômetro, não se encontrou nem um desses que servem para tomar a temperatura dos doentes.
Lamentou a ausência de um dos lentes, que se acha doente, e mais a do Sr. Barão de Teresópolis, dos quais fez os maiores elogios.
Entre outras considerações que fez sobre o estado tristemente decadente da Faculdade de Medicina, disse que ela está passando por um período de crise, ou antes de verdadeira anarquia.
Para provar o triste abandono em que se acha, basta dizer que a escola não tem senão um exemplar dos seus estatutos, e esse mesmo tão sujo e roto, que causa nojo vê-lo.
Pondera que por simples avisos têm sido revogados decretos, e que se notam verdadeiras contradições não só da parte dos governos, como também, forçoso é confessá-lo, da parte da própria congregação.
Adverte que entre os vícios de organização da escola de medicina há um que deseja tornar saliente, é o do processo dos exames nos quais, em sua opinião, não se torna preciso rigor excessivo, mas somente justiça. Constam esses exames, diz o orador, de duas provas: escrita e oral; a 1ª que devia merecer toda a atenção do examinador, se seu processo fosse outro, é feita apenas sobre uma das matérias que compõem o curso e que é revezada todos os dias, segundo a ordem das cadeiras, de modo que se o estudante pode saber logo no princípio do ano em que matéria terá de fazer exame, o que lhe parece muito inconveniente; a 2ª é feita com grande desigualdade para os estudantes, dos quais uma prestam exames com muitos pontos na urna e outros com poucos.
O maior mal, porém, se acha no julgamento, que é feito pelo sistema absurdo e imoral chamado de compensação, e mostra como um estudante, tendo feito muito bom exame em uma materia, pode nela ser reprovado, ou tendo feito péssimo exame pode ser aprovado.
Fala na anomalia singular do exame da metade da matéria, que pode dar lugar a que um estudante ouça duas vezes a mesma parte da ciência e faça de novo exame, tendo sido aprovado nele.
Se tivesse tempo trataria detidamente da tese obrigatória, dos concursos para lentes substitutos, dos exames dos médicos estrangeiros, cujos inconvenientes ligeiramente aponta.
Resumo o seu pensamento pedindo que se modifique a organização da faculdade, e se dê aos professores os meios de trabalharem com proveito, e mostra que muitos deles, com minguados recursos, já fazem muito.
Antes de deixar a tribuna faz um solene aparte: dirige-se ao povo, que tem seus representantes nas duas casas do parlamento; à imprensa que sempre se acha na vanguarda dos melhoramentos; e ao monarca, para que auxiliem a tentativa de elevar uma das mais úteis instituições do país. E termina dizendo que, diante da liga do povo e do rei, nada é impossível, porque na bandeira dessa aliança se acha inscrita essa memorável divisa: querer é poder.
O orador, ao concluir, foi calorosamente aplaudido.
O auditório era numeroso e escolhido, notando-se nele muitas senhoras”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 23 ago. 1880. Anno 59, n. 234, p.2 (resumo). Capturado em 25 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1458
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 331. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 1 abr.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=921
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)