Conferência Popular da Glória nº 332
Data: 26/08/1880
Orador: Cypriano de Sousa Freitas
Título: Ensino superior. Fisiologia e patologia experimentais
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Anteontem, na presença de S. M. o Imperador, fez o Dr. Cypriano de Freitas, na escola da Glória, uma conferência sobre as necessidades urgentes reclamadas para o bom desenvolvimento do ensino superior na escola de medicina.
Disse o orador que, moço e desconhecido, não devia animar-se a ocupar a tribuna, porém o fazia confiado não só na benevolência do ilustrado auditório como também na de seus colegas.
Que, a instâncias de seu venerando mestre o Dr. Pertence, que o convidara para a cooperação de elevar-se o nível do ensino superior, viera àquela tribuna; mas, apesar de fraco operário, unia a sua voz ao grande coro que se ergue de toda a parte, reclamando a execução do que se havia pedido no decreto de 19 de abril, a criação de laboratórios na escola de medicina a exemplo do que se fez na Escola Polytechnica e no Museu.
Que os estrangeiros têm notado a ilustração e desenvolvimento da classe médica no Brasil, e para prova, refere o juízo que dos mesmos fez o distinto professor de biologia o Sr. Couty que afiançou que as obras de Claude Bernard e de outros professores são tão conhecidas no Brasil como na França. Para prova, apesar de faltas sensíveis de laboratórios e de um método, surgem, por espontâneo desenvolvimento, colegas como os doutores que o precederam nessa tribuna, o que denota o esforço próprio dos nossos facultativos; que, fundadas as escolas práticas, saíram ainda mais ilustrados médicos, e para isso pediu os meios para elevar a ciência profissional ao grau a que tem jus, criando-se escolas de fisiologia experimental.
Como exemplo da necessidade desses estudos, mostrou a grande influência dos estudos experimentais sobre a medicina. Falou de Auguste Comte e sobre a evolução cientifica, que, para ter conhecimento do estado social, é preciso ter conhecimento prévio da vida.
Entre outras considerações filosóficas, disse que a ciência é o principal motor do progresso das nações; que no conhecimento da biologia e da sociologia é que se preparam os cidadãos para a pátria instruída; que os resultados técnicos têm por base os princípios sociológicos para melhor se desenvolverem; que, no século passado, a filologia passou por sensível transformação. Citou Lavoisier e Laplace para atestar o seu enunciado; que as leis que regem os organismos vivos são as mesmas que regem os organismos brutos. Tratou de Bichat e de várias descobertas científicas. Disse mais, que os métodos influem para a autonomia científica; que Magendi foi um dos primeiros experimentadores, procurando mais verificar os fatos brutos. Falou de Claude Bernard, que, durante a vida, fez importantes descobertas científicas, e que seu nome é proclamado em todo o mundo científico.
Observou o orador que até os fins do século XVIII e princípios do XIX, era difícil a cura das moléstias cardíacas; que depois principiou o estudo delas pela auscultação e novos horizontes então se abriram à descoberta da cura das lesões cardíacas.
Que Claude Bernard praticando sobre o estudo dessas moléstias fez da fisiologia ponto de partida para esses estudos, e que o curativo anticéptico é ainda devido ao estudo da fisiologia.
Que a anatomia patológica, não sendo aliada à clinica, é um erro, por isso que elas devem andar associadas, e que é pela ordem cronológica que os problemas patológicos se conhecem. Disse que do profundo estudo da higiene se hão de tirar benéficos resultados e que esse estudo tem por base a experimentação fisiológica. Falou da difusão da tuberculose devida incontestavelmente à má alimentação e tratou da cremação.
Se da higiene passar à medicina legal, disse que o meio de estuda-la será pela experimentação fisiológica.
Tratou do emprego do sulfato de quinino e disse que, se não se tem obtido o desejado resultado desse medicamento, é porque não se tem empregado convenientemente. Que os estudos das moléstias do sistema nervoso e as cerebrais acham-se tão adiantados que para prova, citará os estudos feitos pelos Srs. Vulptan e Claude Bernard.
Tratando da febre amarela referiu-se ainda à necessidade do estudo da patologia experimental e da fisiologia.
Quase não temos ainda feito esses progressos é certamente devido à falta de laboratórios que avultam na Europa, e deseja ver em cada escola estabelecer-se um laboratório de biologia.
Terminando apelou para S. M. o Imperador, por isso que precisando o nosso patriotismo colocar o Brasil na vanguarda do progresso científico, o país nutria toda a esperança nele, por isso que amando a ciência como todos sabem, declinava o nome do Sr. D. Pedro II como um dos beneméritos benfeitores da humanidade, contando com a reforma que deseja ver, com o apoio e proteção do mesmo augusto senhor.
O orador foi entusiasticamente aplaudido, notando-se no escolhido auditório numeroso concurso de senhoras.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 28 ago. 1880. Anno 59, n. 239, p.2 (resumo). Capturado em 25 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/1492
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 332. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=922
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)