Conferência Popular da Glória nº 333
Data: 29/08/1880
Orador: João Martins Teixeira
Título: Faculdades de medicina. Discípulos e mestres
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Fez ontem, na presença do S. M. o Imperador, o Sr. Dr. Martins Teixeira, na escola da Glória, às 11 ½ horas da manhã, uma preleção sobre o assunto de que se têm ocupado os oradores que o precederam, no empenho da reforma do ensino superior e de outras necessidades reclamadas pelo corpo docente da Escola de Medicina.
Disse o orador que parecia-lhe seria considerada como demasiada coragem a sua subida àquela tribuna, honrada nestes últimos tempos por tantas vozes competentes. Não era orgulho nem vaidade, nem tão pouco sede de glória conquistada na tribuna popular, mas tão somente o cumprimento de deveres imperiosos e o respeito devido a considerações de ordem: o respeito devido a um velho mestre, que, depois de ter voltado do velho mundo, onde fora buscar lenitivo aos seus padecimentos surgira, de volta à pátria, radiante de glória, cada vez mais forte e sempre novo, arvorando o estandarte da reforma, mostrando e ensinando aos discípulos o caminho do dever. Não seria digno que, havendo vulcões até na Sibéria, houvesse gelos na mocidade.
A instrução assenta sobre três colunas: o mestre, que ensina; o discípulo que aprende, e os meios materiais de ensino que transmitem com mais facilidade as ideias do mestre à inteligência do discípulo. Outros já tem tratado magistralmente dos meios materiais do ensino, e o orador não voltará a isso senão por incidente e por interesse de ocasião.
Principiando pelos exames de preparatórios, entende que a responsabilidade pelo mal estado da instrução é devido a causas complexas, em que figuram ao mesmo tempo o aluno, o mestre e o governo, e não a cada um destes com exclusão dos outros. Tratou da organização das mesas de exames, mostrando o papel que representa em tais organizações a gratificação diária de 10$ aos examinadores. Passou a fazer considerações sobre o exame de português, que devera ser um dos últimos, para que pudesse receber o importante influxo do conhecimento das ciências e das outras línguas, tornando-se comparado ao filosófico. Nas línguas francesas, inglesa e latina exige-se tal absurdo, que, embora o orador não tivesse conhecimento das numerosas personalidades que o honravam com a sua presença, assegurava, todavia que, em exame de línguas na instrução pública, nenhum poderia dignamente ser aprovado, nem mesmo os professores que não são capazes de pôr em qualquer daquelas línguas um trecho do padre Vieira.
Em matemática, tudo é só teoria: progressões e logaritmos, teoria de quantidades negativas, esfera. Mas a realidade de tudo é que, muitas vezes na farmácia, não conhecem os pesos, não se entendem com as formas cristalinas. Fez menção de alguns ministros que tem mandado matricular na Escola de Medicina certos alunos com o exame de principais definições de geometria, feito no colégio naval; e de uma outra anomalia, qual a de ser valido o exame de geografia do colégio naval para a politécnica, e o da politécnica para a de medicina, sem que o do colégio naval seja diretamente válido para a escola de medicina, isto é, duas coisas iguais a uma terceira não serem iguais entre si.
Com relação ao curso da faculdade, lastimou que a física seja tão incompleta, que os alunos não cheguem a estudar acústica nem ótica, ficando assim inabilitados a manejar o microscópio na aula de histologia, e a compreender as funções da voz e da palavra, da audição e da visão, etc, etc.
Quanto à botânica, faz-se muito mais, porque parece que a natureza, já prevendo o nosso presente estado de coisas, fez tão fértil o nosso solo, tão rica a nossa flora.
Na aula de química, onde não há necessidade de empregar tanto dinheiro, porque os meios são mais baratos, os alunos podem ver, mas apenas ver, o essencial, porque, tem sido extraordinária a luta do Conselheiro Valle, mantendo com especialidade a conservação do empregado encarregado da coleção de substâncias puras. E é muito para admirar que o próprio governo, que manda repetidas vezes proceder à análise toxicológica em vísceras cadavéricas, tenha por vezes mandado cessar esse preparo de substâncias quimicamente puras.
Na anatomia não basta um cadáver para cerca de 300 alunos grupados em torno da mesa.
Faltam as peças de anatomia clástica, nas quais os principiantes aprendem antes que vão trabalhar sobre o cadáver, evitando assim aquilo que os estudantes, em frase escolar, chamam bifar o cadáver.
Para julgar do pouco critério e autoridade que vai entre nós em matéria de fisiologia, o orador lembra os tiroteios de opiniões nos concursos sobre tal matéria, parecendo sempre vitorioso o que apresenta opiniões que garante serem chegadas pelo último paquete.
Quanto à clínica de partos, o caso não é para rir: seria mais natural esconder nas mãos o pudor das faces, e exclamar, parodiando o velho Horácio: Lacriman teneotis amici.
Quanto à questão de falta de dinheiro para obter os meios de ensino prático, respondeu ao argumento que diz ter ouvido de alguém: que a faculdade queixa-se; mas que, tanto o dinheiro é demais, que ficou a sobra de alguns contos de réis, que não se conseguiu gastar. Respondeu lendo um ofício do ministro, no qual fazia sentir e tinha por muito recomendado que verba votada não queria dizeria quantia que se devesse gastar.
Tratou em seguida da inovação pela qual os alunos são dispensados das chamadas aos exercícios práticos, o que constitui revoltante absurdo, particularmente com relação à clínica; e de falta de capacidade das salas, por tal sorte, que, havendo comprado lugares pela matrícula mais de 260 alunos, não havia espaço senão para uns 70 e poucos.
À vista de tal falta de meios, e nem ao menos podendo achar-se nas aulas os alunos, pergunta o que se poderá exigir dos examinandos no fim do ano?
Passando aos exames, tratou da incoerência de não saberem dos pontos os alunos senão na ocasião do ato, ao passo que a mesma lei manda que um estudante que houver frequentado em ano anterior (5 ou 6 anos antes, por exemplo), faça o seu exame pelos pontos desse ano, já crônicos e tão batidos. Mostrou, por alguns exemplos, a crueldade de tal proceder, que poderia fazer calar muitas vezes os próprios professores. Deu conta ainda de uma distinção pouco sensata entre exames de matriculados e inscritos só para o ato do exame.
Entrou em seguida o orador na segunda parte da sua tese. Nos limites do possível quanto à prática, e a todos os respeitos quanto à teoria, os professores em geral fazem tanto como os melhores da Europa. Quanto, porém, à grande experimentação, que cria e adianta a ciência, trazendo todo o bem-estar material à humanidade, os nossos professores em coisa alguma concorrem com a sua pedra para o grande edifício da ciência universal.
O modo de preencherem-se os lugares de substitutos também concorre para o atual estado de coisas. Os discípulos fazem-se mestres, quais indivíduos que, tendo mamado leite escrofuloso, jamais poderão constituir organismos válidos. Em vez de salutar princípio das especialidades, cada substituto tem de dar provas profissionais em cinco ou seis vastas ciências. Entra, pois, sabendo insuficientemente; na dúvida sobre o seu definitivo destino, estuda um pouco de cada coisa, e, quando faz-se catedrático aos 40 anos, pouco mais ou menos, e então, já sem entusiasmo, vai matando o tempo e tendo por ideal a jubilação.
Fala-se, como de coisa escandalosa, da negligência dos professores, que não escrevem compêndios, quando o próprio governo garante um prêmio e a impressão gratuita. Mostrou o orador que, segundo despacho, o governo declarou não ter meios para cumprir a lei.
Um novo motivo que faz com que, apesar da escassez dos meios, os professores não se possam fazer notabilidades e dar desenvolvimento à ciência é o minguado vencimento dos lentes. O substituto recebe hoje 190$. Com tão pouco não se pode satisfazer nem ao menos as primeiras necessidades da família. Torna-se, pois, necessário fazer da escola um achego, e procurar o resto em qualquer outra ocupação estranha. Daí o pouco amor aos trabalhos do magistério e a perda da dedicação. Seria preciso que o professor, encerrando-se nos laboratórios, pudesse viver da ciência e para a ciência.
Antes de terminar, disse o orador que ia reparar uma grave injustiça da tribuna da Glória. Assim como há certas madrastas que, por ocasião de apresentarem os filhos esquecem de todo os enteados, assim também, havendo na Escola de Medicina estudantes de medicina e de farmácia, só se falava em nome dos primeiros, esquecendo de todo os últimos, que, em suma, os farmacêuticos nunca tiveram mãe, e só conheceram madrasta.
Anunciou o orador que devia-se esperar agora o dia da redenção, que está próximo. O Sr. Ministro pediu à diretoria da faculdade uma memória que o orientasse sobre os pontos de reforma que julgasse mais importante.
Por fim, pedindo ao auditório que não visse nas palavras que ia proferir o mais ligeiro vestígio de baixos sentimentos, dirigiu-se nos seguintes termos ao S. M. o Imperador:
“Senhor. Quando, depois da guerra do Paraguai, sustentada à custa do sangue dos nossos compatriotas e com o maior sacrifício de suas famílias, quase sejam a orfandade e a viuvez, entendeu o povo que devia dar uma prova digna e duradoura àquele que considerava o primeiro voluntário da pátria, tivestes a feliz inspiração de acreditar que o mais duradouro monumento, em cujo pedestal possa um rei inscrever o seu nome, é a instrução pública. Ao vosso apelo correram os vossos concidadãos, e cada um, na medida de suas forças, veio depor a vossos pés o oculo da instrução pública. Muita realidade obteve-se então, e, em prova do que afirmo, temos à vista este templo, majestoso e hospitaleiro, à sombra de cujo teto viemos acampar.
E o vosso prestígio será grande, sempre que a magnitude do vosso cometimento e a generosidade da vossa ideia estiverem na altura da vossa posição social; porque, apesar da orbita marcada pelo pacto fundamental, nada se pode opor à vontade do soberano, quando este, em vez de querer pelo simples capricho de impor a sua vontade tem o sincero desejo de realizar o engrandecimento da pátria.
Hoje, como outrora, temos a luta travada entre nós e o espírito das trevas, simbolizado pela ignorância e a rotina; hoje, como outrora, todos apostam para vós e vos proclamam o primeiro voluntário da pátria. Mas, bem o sabeis, ao primeiro voluntário da pátria cabe igualmente o primeiro lugar da vanguarda... O momento é chegado: não desmentireis o nosso precedente... À luta, senhor, à luta!”
O orador por calorosamente aplaudido.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 30 ago. 1880. Anno 59, n. 241, p.1 (resumo). Capturado em 25 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1505
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 333. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=923
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)