Conferência Popular da Glória nº 334.1
Data: 02/09/1880
Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão
Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Começamos hoje a publicar a conferência realizada anteontem na escola da Glória, pelo ilustrado Sr. Dr. Ramiz Galvão:
“Senhor, minhas senhoras, meus senhores. - Ainda ecoam n’este recinto as palavras eloquentes e cheios de nobre convicção de um dos mais belos talentos da nova geração de mestres brasileiros.
Ser-me-ia impossível acompanhar em sua derrota o astro luminoso; mas, à semelhança do nauta que caminha cheio de esperança para um porto amigo e vai por entre seres e cachopos guiado sempre pela estrela polar, eu obedecerei a voz de comando, terei n’ela os olhos fixos, e conto que chegarei, convosco às praias desejadas.
Não é impossível que haja de encontrar-me com a mesma opinião, já aqui brilhantemente expedida n’esta tribuna, mas além de que a verdade é só uma, e por isso as coincidências são inevitáveis, cada qual a considera por sua face, segundo as predileções do seu espírito, conforme os precedentes de sua educação científica.
Sem aparatos, pois, de eloquência, mas com a leal franqueza que tem distinguido esta propaganda heroica e única no seu gênero - sem outro viso que não seja a história verdadeira dos fatos - história que me habilite a tirar conclusões uteis e indispensáveis ao progresso d’esta pátria que adoro -, pretendo dizer-vos o que é o estudo das ciências físicas e naturais entre nós, e particularmente o que ele é e o que poderia ser nas escolas de medicina do Brasil.
Senhores, é muito raro que na sociedade uma grave mácula não seja a consequência de muitos males acumulados. Achar por causa do atraso dos estudos médicos - só e simplesmente a falta do ensino prático, fora quanto a mim desconhecer uma das faces da questão e por consequência olvidar a aplicação de outros remédios que acredito de urgentíssima necessidade.
Já aqui se disse com o maior acerto, mas eu não duvido repeti-lo até calar no espírito dos governos e da sociedade: os preparatórios mal estudados e eu acrescentarei, incompletamente organizados, são a origem da muita deficiência que encontramos no ensino superior; são a causa próxima do pouco aproveitamento que há nele, e chegam a ser até a causa da viciosa legislação, que rogo estes assuntos, porque em suma as leis são feitas pelos homens, e quando estes não conhecem todo o valor de uma disciplina, porque não n’a estudaram, naturalmente a menosprezam e a julgam dispensável.
Começam a ser maus os frutos do ensino superior no Brasil, porque o secundário tem degenerado em dilúvio de aprovações, e em mercado de preparação de alunos.
Onde se foram os belos tempos em que a mocidade acadêmica era geralmente, substancialmente adestrada no cultivo das humanidades, que são a base sólida de toda a ciência, e o elemento indispensável para o desenvolvimento ulterior do espírito?
Cursam escolas de direito moços que não traduzem o Digesto, as escolas de medicina jovens que tropeçam na versão do francês e ignoram os princípios usuais da lógica e matemática.
Isto é uma verdade, senhores, e deve dizer-se por mais dura que ela seja; a mocidade acadêmica a quem prezo, e no seio da qual descubro muitas exceções honrosas, não é culpada d’este descalabro, porque a mocidade forma-se pelos moldes que encontra feitos, e não tem; não pode ter senão por exceção a rara virtude de condenar os seus mestres, os seus pais e os seus diretores.
Outr’ora queria-se que o filho soubesse bem, para ganhar na sociedade, à custa de seu mérito e de seu trabalho, o lugar de honra a que o chamavam os seus talentos; hoje a regra é outra: quer-se que saiba depressa para depressa assaltar as posições e os lucros inerentes à posição.
Pleno domínio de Epicuro, em que se entrega a mocidade ao prazer e aos passatempos inúteis, senão imorais, e vai-se depois bater à porta do professore para pedir-lhe misericórdia, sob pretexto de que a família é pobre e o menino acanhado.
Pleno domínio de Epicuro, repito em que pais e filhos não querem, não ambicionam senão a poltrona cômoda do empregado público, que faz sinecura do seu emprego, comissões que sirvam de degrau para posições bem retribuídas, ou alguma profissão rendosa em que se ganhe muito dinheiro à custa de anúncios charlatanicos e exigências imoderadas.
D’aqui o que se segue? Maus, péssimos preparatórios, explicadores de alunos que ensinam por cadernetas de 80 pp., e que preparam em 3 meses para as disciplinas mais difíceis; diretores de colégio que se anunciam não pelo mérito de seus discípulos, mas pela estatística bruta dos seus aprovados; exames escandalosos a que presidem às vezes examinadores interessados, suspeitos ou não preparados para esta missão, e feitos por moços inexperientes que julgam haver metido uma lança em África quando venceram dois anos o penoso estadio de seus estudos secundários. E depois? Depois é levantar um edifício sobre estes alicerces.
Corollário - Os frutos do ensino superior são maus; porque o ensino secundário já vem degenerado. Este é, portanto, senhores, o primeiro mal a que se faz preciso dar remédio, e este remédio, para salvação da própria generosa mocidade, está antes de tudo na reforma dos sentimentos paternos, e depois na exigência por meio de exames justos e analisados das provas de capacidade real, se deve dar todo o candidato aos estudos superiores.
Faça-se propaganda contra o erro funestíssimo de educação que pretende aliviar o lar paterno do peso dos filhos o mais cedo possível. Os filhos são os continuadores de nosso nome e de nossas glórias; preparemo-los para ser de bem e não para ganhar muito.
O cidadão é um órgão da pátria, não é um parasita da sociedade; se ele pede o alimento para viver, duplamente o compense com a sua função, que é uma roda do mecanismo geral e uma garantia de vida e de estabilidade fisiológica.
Brademos, pois, antes de tudo contra a ambição louca de posições lucrativas, e contra esta dissipação de tempo e de atividade no torvelinho dos prazeres que nos abrasa como a febre que nos devasta como a epidemia.
Convença-se o povo de não teremos uma grande nação, senão quando formos bons cidadão e, nunca o seremos enquanto, iludidos por uma doutrina sensualista, antepusermos o bem-estar de uma ciência que se adquire com trabalho e a moral que se pratica como sacrifício dos sentidos.
Mas não param aqui os males, senhores, da preparação d’esta bela mocidade, que às vezes dá tão eloquente prova de seus instintos generosos.
Há uma seria lacuna nos nossos estudos preparatórios que acredito há muto tempo ser carecedora de remédio e por cujo preenchimento dei meu voto mais de uma vez. O estudo das ciências naturais em seus elementos, deve ser feito pelo candidato aos estudos superiores, quando bate à porta das academias.
O conhecimento da natureza que nos rodeia, é um elemento geral da educação, que não pode, não deve faltar ao homem, qualquer que seja a sua carreira, quaisquer que sejam os estudos especiais a que tenha de entregar-se em idade, mas proveta.
Nos países em que estas questões tem merecido a acurada atenção dos seus legisladores, e que nos podem servir de modelo, este estudo começa a fazer-se nos Kindergarten, n’esses belos jardins da infância em que se diverte o menino com jogos científicos, para assim dizer, e onde o ensino das coisas começa exatamente pela explicação de tudo quanto o rodeia, do ar que respira, da terra que caminha, do firmamento que o cobre, do sol que o ilumina, das plantas que adoram a sua habitação, dos frutos que o alimentam e dos pequenos e simples mecanismos que servem à indústria doméstica, tudo isto prático, sempre prático, falando aos olhos mais do que ao espírito, antes por inoculação do que por doutrina.
Mais tarde, quando o menino entra para a escola primária, o estudo da natureza continua sempre feito pelo mestre hábil, mediante explicações e demonstrações cada dia mais complicadas para acompanhar o desenvolvimento gradual do espírito da criança continua já então com certa latitude, e nunca se desamparando o sistema de falar aos olhos, por meio d’aqueles belos quadros, que eu cheio de satisfação e de surpresa tive a ocasião de ver em uma escola sueca montada para modelo no parque da Exposição Universal de Vienna, em 1873, e que se encontram com profusão em toda a Alemanha, na Suíça e em outros países da Europa.
Quando o moço faz os seus estudos secundários, o cultivo das ciências naturais, é então da mais indiscutível necessidade, porque me parece, não há coisa que mais deva envergonhar o homem do que a ignorância daquilo que está mais perto d’ele, isto é, da natureza que o cerca.
Entre nós, descurou-se sempre, este ramo capital de preparatórios, a não ser no Colégio Pedro II e em um ou outro raro liceu, que sabiamente incluiu entre as disciplinas de seu programa as ciências físicas e naturais.
Continua....”.
Localização
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.246, p.2, 4 set.1880. (resumo extendido). Capturado em 25 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1201
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 334.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=933
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)