Conferência Popular da Glória nº 334.2

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 02/09/1880

Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão

Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“O primeiro passo n’este sentido foi do ilustre Bernardo Pereira de Vasconcellos quando planejou o bacharelado em letras e deu organização ao estabelecimento modelo da nossa instrução secundária. Em toda a parte do mundo esta medida seria seguida por outras, no fim de alguns anos desenvolvida, generalizada e melhorada; mas no Brasil, senhores, quem pudera crê-lo? As reformas consecutivas deslustraram o próprio colégio de Pedro II, que visivelmente não é o que foi; e, em vez de se ampliar, esqueceu-se o belo pensamento de Vasconcellos, vido a desfalecer o próprio bacharelado com o seu estudo obrigatório das ciências naturais; porque o prurido de alterações transformou o colégio modelo em concorrente dos colégios particulares. Atualmente os preparatórios exigidos nas academias do império se estudam ali quase completamente do 1º ao 5º ano, e, como os pais têm pressa de despachar os filhos, e os filhos pressa de galgar a academia, raros são os que querem consumir mais dois anos para estudar grego, história natural e literatura.

Já se vê, pois, senhores, que, se em algum tempo havia pelo menos um grupo de moços que vinha preparado com o estudo das ciências naturais, hoje bem esse grupo existe – os bacharéis são rari nantes in gurgie vasto, e o que o não são, não curram d’esta ninharia: de minimis non curat proetor.

Qual é o resultado d’este vício de preparação literária? O ouvirmos absurdos inqualificáveis dos labios de homens aliás distintos por seu saber em certa e determinada especialidade.

De um alto personagem sei eu que, há vendo às mãos um pouco de amianto, mandou com todo o interesse patriótico perguntar a um professor que belissima fibra era aquela, e que planta a fornecia; pasmo e interdito, o professor ainda foi muito caridoso respondendo-lhe que a planta se chamava “Silicato de cálcio e magnésio”. Outros discutindo pontos de medicina forense abismam os tribunais com barbarismos anatômicos e fisiológicos, que não cometeriam se houvessem recebido a educação cientifica adequada, assim como nós médicos mais de uma vez sentimos a deficiência de conhecimentos gerais de economia política e de direito público, que também deveriam entrar no programa de instrução da mocidade brasileira, seja dito de passagem.

O que é verdade, senhores, é que entre nós -, de todas as profissões se tiram administradores e legisladores; ora, como nem todas as profissões têm como base de instrução o estudo das ciências naturais, segue-se que estamos vendo e ouvindo frequentemente decisões menos acertadas e opiniões cerebrinas sobre coisas vulgares e comezinhas.

Para demonstrar-vos este acerto eu poderia apontar centenas de máculas da nossa administração, mas limitar-me-ei a poucos exemplos:

Em 1859 partiu para o Ceará uma luzida comissão de sábios, que ali se demorou 2 anos e 4 meses coligindo materiais para a história natural d’aquela região: belíssimo pensamento!

Voltou d’ali o venerando Freire Allemão carregado de plantas que ainda hoje se podem ver no Museu Nacional e disposto a encetar a publicação de seus trabalhos botânicos; com grande entusiasmo imprime a descrição das primeiras espécies novas, e, quando tudo fazia supor que teríamos um monumento científico em paga dos 410:000$ despendidos, eis que a administração superior manda sustar o trabalho no fim do terceiro caderno. Por que senhores? Por se não conhecer o valor real d’estes estudos.

Em 1829, o sábio bispo de Anemuria, diretor da Biblioteca Pública, presidiu a impressão do texto da Flora Fluminensis de Velloso; mas, por motivos que ignoro, a publicação parou nos dois terços do original. Pois bem, em 50 anos nunca mais se levou ao cabo aquele trabalho curiosíssimo e de alto valor científico para seu tempo, deixando-se quase ignorado o nome de um brasileiro conspícuo, consentindo-se que centenas de naturalistas estrangeiros apresentassem ao mundo como espécies novas – plantas brasileiras que o sábio franciscano já descrevera. Por que senhores? Por se não dar valor a ervinhas do campo.

Ainda mais, e este argumento é capital. Não se envergonhava o Brasil de oferecer na capital do império aos olhos dos sábios europeus um museu nacional, que era um simples viveiro de dermestas, um depósito de múmias, e ele própria a maior múmia do império; havia ali um diretor que tinha por ordenado 66$ mensais (menos que jornal de pedreiro, e o orçamento geral do estabelecimento pré-histórico era de 8:900$ anuais). Foi preciso que surgisse um homem de muita vontade e de grande entusiasmo para acabar com aquele estado vergonhoso, que durou até 1876, - estado este que prejudicou altamente os destinos da instituição, porque coleções naõ se inventam do dia para a noite, boas classificações não se fazem por máquina. Muitos anos teremos que esperar ainda para que chegue o nosso museu à altura à que se destina a sua inteligente direção. Por que, senhores? Porque aquilo para muita gente era gastar dinheiro com sapos e jacarés.

Qual em suma a causa original de tantas calamidades? O não se haverem estudado as ciências naturais, de modo a se lhes dar a importância que merecem.

Quereis saber a opinião exarada há 50 anos por um grande patriota brasileiro sobre este assunto? Fala o ilustre Evaristo Ferreira da Veiga no n. 246 da sua imortal Aurora Fluminense, de 30 de setembro de 1829:

“É notável a indiferença com que tem sido olhado no Brasil o estudo das ciencias naturais. N’um país tão rico nos produtos dos três reinos, e aonde o solo e seus recursos são ainda tão pouco conhecidos, um desprezo semelhante pela ciencia (notai a frase) que mais nos podia ser profícua, dá a entender que os espiritos tem recebido uma falsa direção e que não é para as fontes reais da riqueza que se encaminham os seus esforços.”.

Evaristo alude em seguida às nenhumas vantagens oferecidas aos naturalistas; a isso atribui o menosprezo em que se achavam os estados respectivos, e termina o seu artigo com esta frase, que ainda hoje em 1890 pudera ser gravada em letras de ouro:

Quando entre nós serão preferidas as coisas úteis às de mero aparato? As riquezas da indústria à pompa de um improdutivo consumo?”

Se aquela grande alma, senhores, surgisse agora no Brasil, como se não envergonhara de ver que 50 anos depois de seu grito de alarme, ainda não existe uma faculdade de ciências n’este império americano, que tem por fonte unica de sua prosperidade a natureza ubérrima que o cerca!

Continua”.

Localização

- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.247, p.2, 5 set. 1880. (resumo extendido). Capturado em 25 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1207

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 334.2. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=934

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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