Conferência Popular da Glória nº 334.3
Data: 02/09/1880
Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão
Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Atravessamos agora o Oceano, e ouçamos o parecer do ilustríssimo Spencer sobre este ramo da educação pública.
Ei-lo
“À nossa questão inicial: qual o saber de mais valor? A resposta uniforme é: a ciência.
Para a conservação pessoal direta para a conservação da vida ou da saúde, é o saber de toda a importância. Para a conservação pessoal indireta que chamamos ter meio de vida, é ela ainda o que mais concorre. Para o devido desempenho das funções paternas a direção apropriada só se encontra na ciência. Para a interpretação da vida nacional passada e presente, sem a qual o cidadão não pode regular bem o seu procedimento, a chave indispensável é – a ciência.
Também para a produção mais perfeita e até para o gozo mais elevado da arte em todas as suas formas a direção necessária é ainda a ciência.
Em suma, para os fins da disciplina intelectual, moral e religiosa – o estudo mais eficaz é, uma vez por todas, a ciência".
Entretanto, semelhante estudo, que transcende imensamente a todos os outros em importância é aquele a que menos atenção se presta em um tempo cuja educação é tão gabada.
O que chamamos civilização nunca teria existido se não fora a ciência; entretanto esta é um elemento quase inapreciável nos nossos programas civilizados. Aos progressos científicos se deve que achem agora o sustento milhões de homens onde outrora apenas milhares encontravam alimento; e, todavia, d’esses milhões apenas alguns mil têm respeito e consideração, pelo que tornou-lhes possível a existência.
O conhecimento progressivo das propriedades e relações das coisas habilitou as tribos errantes não só a se desenvolverem em nações populosas, mas aos membros inumeráveis d’estas nações populosas deu conchegos e prazeres, que seus poucos antepassados jamais conceberam ou mesmo acreditariam; entretanto só agora este gênero e saber está sendo recebido forçadamente em nossas instituições de educação mais elevadas.
Parafraseando um conto oriental, podemos dizer que na família dos conhecimentos a ciência é a criada que, na obscuridade, possui perfeições não conhecidas. Incumbiram-na de todo o trabalho; a sua perícia, inteligência e dedicação conseguiram todas as conveniências e todos os gozos; mas, embora sirva e auxilie incessantemente a todos, tem sido conservada no segundo plano, para suas altivas irmãs poderem pavonear as suas lantejoulas aos olhos do mundo. O paralelo ainda vai adiante, porque chegamos ao desfecho do conto, em que as posições se hão de trocar; ao passo que as altivas irmãs serão desdenhadas como merecem, a ciência proclamada rainha, em valor como em beleza, exercerá o império supremo.
Eis, senhores, o papel assinalado por um grande pensador dos nossos dias ao estudo das ciências, que ele lamenta não ser bastante atendido na Inglaterra.
O que diria ele do Brasil se visse o atraso em que vivemos a semelhante respeito? Oh! E quando as ciências físicas e naturais auxiliam o desenvolvimento do espírito humano, já não falando da soma de verdades que nos ministram?!
As primeiras, as ciências físicas, apresentam-nos o método experimental e o método indutivo em toda a sua pureza, diz Alexandre Bain; neste vasto campo se aprendem as precauções necessárias para chegar à verdade, por meio da observação, aprende-se a reprimir a tendencia natural que tem o nosso espírito para generalizar, aprende-se a aplicação pratica das provas que não tem a certeza das demonstrações matemáticas.
As segundas, que chamamos ordinárias – história natural -, tem por característico para o número assombroso de objetos a que se aplica. Ora, aprender a classificar é já em si mesmo uma verdadeira educação, acrescenta o ilustre professor de Aberdeen.
Pois bem, senhores, nada d’isto aproveita à nossa mocidade, porque nada disto se inclui no ensino secundário. Parece que é chegado o tempo de fazê-lo, por conta do século esclarecido em que vivemos!
Mas cheguemos de mais perto ao assunto d’este dia. Fora de mais alta conveniência que ao entrar para as nossas escolas de medicina os alunos já tivessem um conhecimento geral das ciências físicas e naturais, que ali se vão estudar com mais desenvolvimento e particularmente nas suas aplicações médicas: 1º porque perdemos um tempo precioso desbravando terreno inculto e explicando os elementos, que são sempre difíceis para quem começa de olhos fechados, e sem os quais não se pode dar um passo para diante. 2º porque sendo o tempo escasso, aproveitá-lo-íamos todo com o desenvolvimento que se deve dar em cursos superiores a estas matérias interessantíssimas.
Este é, portanto, um dos remédios que cumpre ser aplicado na reforma do ensino médico de nosso país.
Vejamos agora como se estudam nas nossas faculdades de medicina a física e a química, a zoologia, a botânica e a mineralogia, estes fundamentos essencialíssimos da ciência médica. O curso teórico, por isso mesmo que se perdem largos meses a explicar generalidades e elementos, é incompletíssimo; ou faz-se a vapor, sacrificando matérias importantes ou faz-se dobrando as horas de preleção.
Na física, como já aqui se ponderou, ficam quase sempre por estudar a óptica e a acústica, e sabe Deus como é obrigado o professor a saltar pelo calórico e pela eletricidade;
A química mineral dá-se quase toda, e sem risco de errar se pode dizer que o que não é explicado na aula pelo ilustre catedrático pode ser omitido sem inconveniente para o ensino; mas, senhor, dá-se porque o benemérito professor não duvida lecionar hora e meia, duas horas por dia, e ninguém ignora que este recurso tem o defeito de fatigar a atenção do aluno, para cuja contenção de espírito há um limite, além de que extenua o professor, e a prova aí está desgraçadamente: o nosso venerável e sábio decano luta n’este momento com cruel enfermidade, que é motivo de muita dor para todos os seus colegas, amigos e discípulos.
A química orgânica é também das que raramente se completam no decurso do ano letivo, não obstante toda a ilustração e zelo de seu atual professor. De experiencia própria posso dizer-vos que em 1875 tive a honra de reger esta cadeira e não só achei os maiores embaraços materiais para desempenhar-me dignamente d’este dever como até fui coagido, por urgência de tempo, a resumir, com prejuízo do ensino, assuntos importantes.
Continua”.
Localização
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.248, p.2, 6 set. 1880. (resumo estendido). Capturado em 03 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1213
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 334.3. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=935
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)