Conferência Popular da Glória nº 334.4
Data: 02/09/1880
Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão
Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“A carência de laboratório obrigava-me a mandar vir de farmácias ou drogarias particulares muitas das substâncias sobre cuja história química dissertava.
Não raro vinham falsificada, ou com graves vícios de preparação, - e então vede a que risco se expunha o professor: descrevia um corpo branco, ele vinha amarelo, anunciava com este ou aquele reativo um precipitado vermelho e o precipitado aparecia negro como carvão.
É claro que quem professa a ciência, atina com a causa d’isto e pode explicá-la ao seu auditório; mas lá fica a sombra de uma dúvida no espírito do aluno, dúvida que é fatal para os créditos do magistério e para a verdade cientifica; duvida que nem sempre temos meio de dissipar de modo amplo e satisfatório.
Na botânica omite-se a descrição de ordens naturais curiosíssimas, cujo estudo completaria no espírito do aluno o quadro harmônico e admirável do reino vegetal; e d’aquelas mesmas ordens de que pode tratar, limita-se forçosamente o digno professor a descrever os característicos germes, sem descer ao gênero e muito menos à espécie, quando fora para desejar que se estudassem minuciosamente os tipos fundamentais ao menos de cada subdivisão, ou os gêneros que fornecem plantas uteis à medicina.
A zoologia, visto que não constitui cadeira à parte, ensinava-se no meu tempo em quatro lições, e hoje talvez em oito ou dez. Vede que triste ensino: dar as noções preliminares de anatomia comparada, fundamentar a classificação geral, descer á caracterização das ordens, descrever os gêneros típicos desde o primeiro símio antropomorfo até o derradeiro protozoário, particularizar os animais que se prestam ao serviço da matéria médica, ou os que influem mais ou menos diretamente sobre a gênese das moléstias – tudo isso no prodigioso lapso de oito, 10 ou 12 horas se quiserdes! É verdadeiramente fenomenal, e pode dizer-se com segurança, matéria para privilégio.
A mineralogia, senhores, quase não vê porque anexa à cadeira de química mineral, e mal chegando o tempo para o estudo d’esta última disciplina, o seu ilustre, hábil e zeloso professor vê-se coagido a dizer alguma coisa sobre os característicos exteriores e sistemas cristalinos; nada mais. O resto adivinha-se.
De geologia nem uma palavra. O estudante de medicina ignora a história da formação d’este globo, que ele habita, ouve falar de rochas metamórficas e de fosseis, como de fantasmas, desconhece os elementos para entrar n’ela, e, todavia, ele é o descendente d’esse habitante singular das cavernas, a que se pretende filiar a nossa espécie.
Isto pelo que se refere ao estudo teórico: como vedes, incompleto, acanhado e superficial.
Vejamos o estudo pratico. O complemento da doutrina, senhores, a demonstração palpável que se – grava pelos olhos é que fica para sempre, a experiencia e a observação na natureza - essas quase que não existem nas nossas escolas, e n’aquelas mesmas aulas em que se fazem são imperfeitas e pouco profícuas; graças á miséria franciscana dos nossos laboratórios e gabinetes, graças à ausência de um pessoal habilitado para os dirigir e conservar.
Não exagero; prescindindo de entrar em pormenores sobre alguns gabinetes problemáticos, dir-vos-ei somente o que é o ensino pratico nas aulas de química e botânica, que poderiam parecer satisfatórios a olhos pouco experimentados. Na de química mineral; em virtude da pertinácia com que se tem sustentado a conservação de um preparador hábil, a quem rendo preito de homenagem n’este momento, o ilustre e sábio professor faz em aula a demonstração prática de muitas das coisas, que afirma de sua cadeira.
Mas notai bem; tudo isso é ao longe, à distância de metros. Os 200 ou mais alunos, que há sempre n’este curso, não tem meio de praticar por si, não tem nem mesas, nem reativos, nem aparelhos à sua disposição para se industriarem nas questões delicadas de análise. Ora, sem esforço próprio, sem a luta para vencer as dificuldades, sem o trato dos instrumentos, em suma, ninguém se habilita realmente. O neófito esbarra no modo de fazer um filtro, e de trasfegar uma solução; se não fez isto uma vez na vida, como é que há de fazer análises e investigações especiais, que a sociedade lhe há de pedir mais tarde? Onde os médico-legistas do futuro? Onde os investigadores da matéria médica brasileira? Onde os higienistas de amanhã, chamados à dar parecer sobre os gêneros sofisticados de nossa alimentação cotidiana?
A química orgânica, trouxe tempo em que se estudava pelo livro e só pelo livro; hoje, com o auxilio de um pequeno simulacro de laboratório, e graças, sobretudo à vigorosa tenacidade do ilustre professor não só demonstra-se muita coisa aos olhos dos alunos, como se fazem até trabalhos originais dignos do maior apreço, e que eu aproveito a ocasião para louvar em público; mas, senhores, como é doloroso o papel do ilustre catedrático, que vive apertado entre 4 paredes acanhadas sem o espaço indispensável para as suas curiosíssimas investigações, coagido a refrear com prejuízo da ciência e da pátria, o nobre entusiasmo que o anima, e resignado a não ter ajudantes idôneos nem possibilidade de instruir praticamente a mocidade estudiosa nos processos científicos! Calculai por um momento o que ele produziria se lhe ministrassem recursos e se seu laboratório pudesse ao menos ombrear com os mais humildes das faculdades alemãs! É esta, senhores, é uma das disciplinas mais importantes para a riqueza do país; a química orgânica é o facho que há de devassar os tesouros da opulentíssima flora brasileira.
O gabinete da botânica da escola de medicina da corte já foi um mito, é hoje uma esperança, mas também nunca há de ser uma realidade proveitosa, enquanto durar o estado das coisas, que rege o nosso ensino superior.
Há ali grande número de espécies estrangeiras vindas de herbários europeus bem classificados, e que se obtiveram por dádiva ou permuta; há bom número de plantas nossas colhidas com afã n’estes últimos anos pelos alunos e pelo zeloso professor, quem se deve exclusivamente este trabalho; há coleções de frutos, caules, madeiras e monstruosidades vegetais.
Tudo isso é uma esperança, tudo isto será quando muito um rudimento de museu botânico.
Mas o ensino pratico de botânica é outra coisa, é uma coleção de microscópios montados e distribuídos em uma sala cheia de luz, para se estudar a célula, a fibra e o vaso, os tecidos e os líquidos que os banham, os órgãos rudimentares, a sua gênese e as suas funções; é um preparador hábil a ensinar como se fazem os cortes mais apropriados e em que plantas, para se estudar este ou aquele objeto determinado; é um horto botânico anexo à escola, perfeitamente classificado, cientificamente ordenado, onde o professor, guiando os seus alunos, possa demonstrar na natureza viva e com método os característicos da ordem, da tribo, do gênero e até da espécie, onde lhe seja fácil chamar a atenção dos estudiosos para o habitus da planta, para o seu modus vivendi, para as modificações resultantes da cultura, do solo, e do meio em que ela vive; são os exercícios da taxonomia, já a olho nu, já com o auxílio de lentes montadas, quer em plantas frescas, quer em plantas de herbário; e finalmente o reconhecimento prático, já não de quaisquer espécies vegetais que se possam encontrar em uma arborização pelas matas, mas particularmente o das plantas uteis à medicina, porque é no campo d’esta especialidade que nos cumpre adiantar a ciência dos alunos que se destinam á nossa profissão.
Pois bem, senhores, nada d’isto se faz sendo pela rama, e nada d’isto se exige nos exames, porque um microscópio não chega para 50, quanto mais para 200 alunos; porque o gabinete de botânica em vez de sala espaçosa e banhada de luz é um antro lúgubre alumiado por uma seteira; não se faz em suma porque não há mesas, não há instrumentos, e não há horto.
Continua.”.
Localização
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.249, p.1-2, 7 set. 1880. (resumo estendido). Capturado em 03 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1218
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 334.4. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=936
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)