Conferência Popular da Glória nº 334.5
Data: 02/09/1880
Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão
Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Vede que conhecimentos sólidos e reais pode adquirir a mocidade, por muito que ela deseje aprender, e por grande que seja a boa vontade do professor. O que d’aí decorre é tristíssimo; ainda não saiu das nossas escolas médicas um naturalista, no rigor da palavra, se exceptuardes o venerável Freire Allemão, que se fez por si e que consumiu 40 anos de sua existência no cultivo entusiástico da Flora Brasileira,
Se preparados com verdadeira ciência saíssem os médicos da escola, quando vão residir nas províncias e nas cidades do interior, interessar-se-iam pelo estudo das nossas riquezas naturais, a exemplo dos médicos das armadas europeias, que aproveitam as nossas viagens enriquecendo a ciência de notícias e fatos novos; não teríamos passado pela vergonha de ver a nossa riquíssima e exuberante Flora descrita, quase que totalmente, por Martius, Cambessedes, Schott, Pohl, Gardnér, Raddi, Fée, Myers, Warming, Blanchet, Hampe, Krempelhuber e dezenas de outros sábios do velho mundo.
Na zoologia é tristíssimo o nosso papel: meu velho mestre o Dr. Emilio Maia classificou uns colibris, e tudo o mais ficou para os estrangeiros, sem exceptuar o boto da baia do Rio de Janeiro, que admirávamos todos os dias nas suas evoluções singulares, sem cogitar que ali estivesse uma espécie nova para o talento de Van Beneden.
Na mineralogia ficamos onde nos deixaram o exímio José Bonifácio e o ilustre Alves Serrão; as riquezas rolam aos nossos pés, e nós, os sátrapas ignorantes, não cuidamos que aquilo valha alguma coisa. O ouro é explorado por companhias inglesas nos confins de Minas; o ferro constitui cordilheiras n’aquele abençoado torrão, e nós importamos ferro da Suécia; as minas de carvão de pedra lá estão em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e provavelmente em muitos outros pontos do nosso território, - e o carvão de preda nos – chega de New Castle aos milhares de toneladas; o chumbo aí está nas minas do Iporanga, em São Paulo; o mercúrio, no município da Palmeira, a 92 quilômetros da capital do Paraná; a turia, em densas camadas, aqui às portas do Rio de Janeiro, em todo o percurso do canal de Macaé a Campos; tudo, tudo isto desaproveitado, mal estudado e mal conhecido, até que venha um novo Fred. Hartt desvendar ao mundo as nossas riquezas.
Eis senhores, o estado a que nos conduziu o esquecimento das ciências naturais/ levou-nos a um suplicio de novo gênero; morremos de fome ao pé do alimento, porque a nossa ciência não dá para conhecer as virtudes reparadoras da substância para que olhamos.
Isto pelo que respeita ao lucro da ciência geral e ao aproveitamento das riquezas para uso nosso. Mas não param aí, senhores, as consequências funestas do defeituoso ensino das ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina. Estas ciências são da mais alta necessidade para os estudos médicos propriamente ditos, porque: as leis da hidrodinâmica regulam a circulação do sangue, as leis de difusão e de solubilidade dos gases tem a sua imediata aplicação no mecanismo da respiração animal, ás ações osmóticas explicam a maior parte dos fenômenos de absorção; a voz humana e o ouvido, para serem bem estudados carecem das leis de acústica; a óptica é indispensável no estudo da fisiologia do olho; o microscópio é em nossos dias o companheiro inseparável de todo o medico investigador, e a eletroterapia, tão divulgada modernamente não se faz, não se pode fazer de modo profícuo, sem conhecer as teorias e os aparelho respectivos.
Preciso dizer-vos que a química representa um papel importantíssimo na fisiologia dos órgãos de nutrição? Que ela é a base substancial da farmácia e da toxicologia, e que a própria clínica não n’a dispensa porque hoje os meios de diagnóstico vão até a análise dos líquidos do organismo?
O domínio da história natural é por seu lado, senhores, o arsenal da medicina.
O médico não pode ignorar o que são as armas, com que luta todos os dias contra a morte; é-lhe indispensável conhecer particularmente os instrumentos de que usa com proveito, para ir procurá-los onde existam, para conhecê-los onde quer que apareçam, para substituir conscienciosamente os que ventura lhe faltem.
Assim faz o bom cirurgião, que não pode operar sem conhecer o instrumento que maneja; semelhantemente procede o navegante que não se atira aos azares do oceano, com que ele luta contra os ventos e as correntes...
Ora, desde que o estudo de tais ciências fundamentais se faz com tão graves lacunas, fácil é de prever como o edifício ficará construído.
E se tudo isto é mais que verdade em relação ao ensino da medicina, isto é mais que evidente, senhores, em relação ao da farmácia, sobre cujos destinos não me é lícito deixar de falar-vos, porque a farmácia é a aliada inseparável da arte de curar.
A classe farmacêutica vive entre nós uma vida inglória, sem esperanças e sem prerrogativas, porque o legislador decretou-lhe uma instrução acanhada e um futuro mesquinho.
Vede os míseros preparatórios que se exigem para a sua matricula; atendei ao modo pelo qual aprendem as matérias importantíssimas do respectivo curso – mateiras que para o medico não são acessórias, quanto mais para o farmacêutico; atentei, por sim, às disposições da lei de 1850, que regula o exercício d’esta profissão, e dizei-me não é triste que tenhamos transformado em simples vendedores de drogas a homens cheios de talento, que puderam servir á ciência e adianta-la nos domínios de sua especialidade.
Em março de 1877, o Instituto Pharmaceutico do Rio de Janeiro dirigiu uma brilhante representação n’este sentido ao corpo legislativo, demonstrando os vícios de organização do ensino, e solicitando a criação, pelo menos, de uma escola especial de farmácia.
O que se fez d’esse pedido? Morreu na pasta das representações, como morreram os nossos projetos de reforma da faculdade de medicina, em que esta mesma ideia se aventou mais de uma vez.
Aí continuam os farmacêuticos arrastando a sua inglória existência: matriculam-se com dois preparatórios e meio; vão estudar física sem saber uma linha de álgebra, vão ler o Genera Plantarum de Hooker ou a Flora Brasiliensis de Martius, sem saber uma palavra de latim; em suma, e para não alongar este quadro lastimoso, vão ser cidadãos sem saber uma página da história do seu país.
É justo, senhores, que também para estes contribuintes do tesouro publico se alarguem os horizontes da educação cientifica, habilitando-os a bem desempenhar a nobre missão que lhe cabe junto da humanidade enferma, e fazendo de todos eles homens verdadeiramente de ciência, que sirvam à pátria e à civilização.
Ditas estas palavras, que eram de justiça, permiti que eu volte ao assunto capital d’esta conferência destinada particularmente a pugnar pelo ensino prático das nossas escolas de medicina.
Ilustres colegas, já aqui vos descreveram com mão de mestre a miséria dos gabinetes anatômicos, a completa ausência da fisiologia e patologia experimentais, o insuficiente campo de estudo das clínicas, a carência absoluta das especialidades, a famosa arte de partos em manequins, e tudo isto se comparou com o ensino médico das faculdades da Europa, mencionando-se de proposito e cotejando as nossas instituições e orçamentos com os de uma universidade de 2ª ordem da Alemanha.
Ouvistes hoje, ainda que mal delineada, a descrição do modo porque se ensinam as ciências naturais entre nós. Dizei-me, senhores, pode isto continuar em semelhante pé?
Havemos de cruzar os braços ante o descalabro de instituições da mais alta transcendência para o Brasil?
Eu não ignoro as objeções que se levantam contra esta santa cruzada: aqui, políticos menos bem informados suspeitam seu que de exageração na pintura e julgam atirar-nos um argumento hercúleo dizendo: não é tão deficiente o ensino que produz notabilidades médicas e cientificas da ordem dos Abreus, Pertences, Valles, Torres Homens e tantos outros.
Ali, os céticos que os há sempre e em toda a parte, lastimam que estejamos a perder o nosso tempo, porque nada se alcançará. Enfim, há um 3º grupo que nos condena abertamente, acreditando que não é este o melhor meio de conseguir a reforma e que não é digno de nós o trazer para o domínio públicos lúgubres misérias de nossa vida científica. Eu peço licença para dar a uns e outros a resposta que o assunto exige.
Aos otimistas bem-intencionados rogo que visitem a escola de medicina da corte, penetrando em todos os seus esconderijos e informando-se da verdade conscienciosamente. Que interesse teríamos nós, filhos e hoje professores d’aquela faculdade, em denegrir a sua reputação científica, pintando como péssimo o que fosse passável, censurando o ensino que damos com as nossas próprias mãos? Indaguem, vejam; leiam depois os relatórios feitos e publicados sobre o ensino médico nas boas faculdades do velho mundo, e não lavrem a sentença antes de haverem comparado.
É certo que temos uma plêiade notável de médicos e professores, assim como é indubitável que há estudantes muito distintos na academia. Mas quid inde? Havia escola médica em Atenas quando Hipócrates iluminou o mundo com o seu grande saber? A escola francesa não estava moribunda quando apareciam Claude Bernard, Wurtz e Vulpian devassando nossos horizontes à ciência?
As nossas notabilidades médicas, senhores, ou foram beber instrução em fonte mais rica e mais pura, ou à custa de muito talento e muito trabalho se formaram aqui mesmo. E o que é que elas têm produzido na proporção d’esse enorme talento? Calculai o que teriam feito se houvessem sido mais bem educados, e se vivêssemos em um meio verdadeiramente científico, e diante da inópia da nossa literatura médica cobri as faces de vergonha.
Agora aos céticos, adoradores da indiferença oriental. Sim, senhores, vós tendes alguma razão quando dizeis que as fibras semimortas d’este organismo moço, mas linfático, custaram muito a ganhar a tonicidade e a vida de um adulto vigoroso. Muitas causas acumuladas nos trouxeram a esta conjuntura lastimosa: os erros não coibidos de uma administração por vezes pouco patriótica, vícios de educação bebidos com o leite e entretidos por uma sociedade pouco espartana, enfim, a vossa própria desídia e o vosso desamor pela vida real geraram esta descrença, que nos acabrunha e nos mata lentamente como o opio solapa o vigor e a iniciativa do fleumático budista.
Mas, senhores, o doente também acorda do letargo, se o toca uma descarga elétrica; as úlceras crônicas se curam com ferro em brasa, e se é verdade que a fibra exangue do linfático não responde logo às excitações exteriores, há sempre meio de a tonificar. A tarefa é difícil, mas não é impossível. Cessai vós o canto lúgubre e dormente da desídia, e corte-se a mancenilha que nos envenena, respondendo o eco varonil de alguns homens, que ainda restam, ao estrepito das nossas justas reclamações pelo futuro da pátria.
A primeira lufada do pampeiro não deixa rastros de sua passagem na campina deserta e morna, mas a segunda e a terceira acabam por acordar os gênios tranquilos da solidão; breve, de todos os quadrantes irrompe a tormenta veloz, a união de todos os esforços desencadeia a tempestade, as nuvens desatam, e a fertilidade e a vida renascem na terra da desolação.
Continua.”.
Localização
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.250, p.2, 8 set. 1880. (resumo estendido). Capturado em 03 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1225
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 334.5. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=937
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)