Conferência Popular da Glória nº 334.6
Data: 02/09/1880
Orador: Benjamin Franklin Ramiz Galvão
Título: Ciências físicas e naturais nas faculdades de medicina
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“(Conclusão)
Alguma coisa, pois, resultará d’esta luta, tenho plena certeza; as brumas não resistem ao sol, e o eco da tormenta já começa de reboar ao longe. Dormi, pois, céticos fatalistas, deixai-vos engolfados na inercia e inebriados na delícia do prazer. Nós nos vamos ao combate, e se na nossa volta vitoriosa acaso vos achardes ainda com sentimento e vida, tomai tento vos não esmague a multidão em sua passagem.
Aos que não concordam talvez com este processo de crítica, perguntarei: o que é que já se conseguiu as memórias históricas da faculdade, onde todos os anos a ladainha de nossas necessidades se repete, variada, segundo a índole do historiador, mas acorde sempre me condenar o estado presente? Há 20 anos, senhores, em 1860, o ilustre Dr. Pertence já dizia em sua memória histórica.
“O gabinete de física está incompleto e são piores que a traça os seus conservadores.
As lições práticas de química não puderam ser sofrivelmente executadas no incompleto laboratório que existe.
Não há na capital do império o horto botânico necessário para as lições práticas;
As disseções anatômicas são feitas na parte da casa em que fora a cozinha do estabelecimento das recolhidas; é um lugar que há de vir a ser fatal a algum moço que, na intenção de se tornar anatômico, ali se demore 5 ou 6 horas cotidianas.
Não há clínica de partos, o que não admira em uma escola em que se fazem pílulas teóricas.
O professor de operações descreve os instrumentos, prática mentalmente as operações de mil processos diferentes e comparando-os torna saliente a supremacia dos melhores que, depois de um fluidíssimo e muitas vezes eloquentíssimo discurso, ficam os estudantes tão adiantados como os de astronomia, que a tivessem aprendido dentro da escura caverna.”
Isto em 1860, quando a escola tinha 107 alunos; hoje tem 700; passaram-se vinte longos anos a clamar quase no deserto, porque o que se obteve foi pouquíssimo e desconexo, projetamos mais de seis reformas, no que perdemos tempo e paciência; as necessidades quadruplicaram, e o remédio não veio. O que há mais de esperar-se?
E em que nos desairamos nós quando pintarmos o estado real do ensino, sem ofender a quem quer que seja, sem desconhecer o mérito do corpo docente, e confessando sempre que com estes minguados recursos a mocidade brasileira, cheia de talento, ainda faz verdadeiros prodígios?
Senhores. Não é desonra dizer que ensinamos menos bem, porque não temos instrumentos de trabalho; desonra seria iludir a opinião pública e os poderes do Estado, dourando pílulas amargas, e declarando satisfatório o que realmente está abaixo do nível da nossa civilização.
Dir-se-á, ainda que, levados por bons intuitos, lançais o descredito e o ridículo sobre uma corporação respeitável. Isto não é verdade. Os créditos da corporação se levantam exatamente, porque ela vem dizer ao público que o bom desempenho da sua nobre missão depende de um conjunto de recursos materiais, que não existe; nunca foi ridículo dizer a verdade, assim como nunca foi prova de coragem calar misérias públicas, porque esta revelação pode acaso ser mal interpretada por malévolos ou ignorantes.
Quando pouco antes de 1870, o grande Thiers denunciou no corpo legislativo de França os planos da política alemã, e patenteou ao mundo a miserável organização de seu país, ninguém o chamou de ridículo; e os acontecimentos vieram provar que a alma de França, que estremecia de pavor ante o futuro negro de Sedan. Nós não pretendemos ser Thiers, senhores, nem aqui se trata da invasão de exércitos inimigos, mas somos também patriotas, temos d’isto a certeza, denunciando os vícios da nossa organização cientifica, e estremecendo de pavor ante o abaixamento do nível da educação popular, que é o degrau da ruína política e a brecha por onde entra a corte de todos os males públicos.
Eia pois, senhores, levantemo-nos todos para clamar pelo remédio. Vai n’isto muito diretamente o interesse da sociedade, porque os médicos são a salvaguarda de sua vida, os propugnadores da higiene de suas cidades, os inimigos do crime quando a mão pérfida do veneno sorrateiramente inocula a morte, os estudiosos de sua natureza, e, portanto, obreiros ativos da sua riqueza e do seu engrandecimento.
Se o povo tem recursos para queimar incenso nos altares do belo, tenho-o primeiro para depositar aos pés da deusa do útil e do necessário; à imitação do que fazem os nossos admiráveis irmãos da América do Norte, haja entusiasmo pelas belas instituições cientificas que honram a pátria, venham as fortunas particulares em auxílio do que não deve morrer, dê-se um exemplo nobre e grandioso como é grande este nosso caro Brasil.
Vós, senhores representantes da nação, meditai sobre a sorte dos povos que não fizeram da sólida educação científica a base de seu viver político, e já que conheceis hoje pela revelação dos sacerdotes, a imperfeição do culto e as misérias materiais do templo, vindo em auxílio das suas paredes que estão mal seguras.
Fechai os olhos e os ouvidos às questões mesquinhas de política eleitoral e de interesse particular; todo o regimen eleitoral conduz ao seu fim, quando os cidadãos são bons e ilustrados. Para serem bons proclamemos a grandeza da virtude e do trabalho; para serem ilustrá-los cumpre que multipliqueis as escolas, e que ponhais o ensino superior e profissional na altura que lhe compete. Dir-me-eis talvez que os recursos ordinários do estado não comportam semelhantes melhoramentos, e que urge acabar com o déficit; eu vos perguntarei em resposta:
Não procurasteis recursos extraordinários para abrir estradas e realizar obras de utilidade pública? Pois esta é a primeira das obras de utilidade pública: habilitar o cidadão a conhecer o modo porque é dirigido país, e desenvolver o ensino, que é a primeira base de produção.
Não procurateis recursos extraordinários para a compra de encouraçados, se inimigos chegassem amanhã às fronteiras da nossa pátria, para arrancar-nos uma a província? Pois, senhores, o abatimento da educação e do ensino são os maiores inimigos, que podem ameaçar-nos, e a couraça que não verga e que se não rompe é a grande ciência, que transforma um pó negro em ouro, a fibra bruta em tecidos alvíssimos, campos alagados em fértil seara, ferro bruto, em máquinas prodigiosos, que centuplicam o trabalho e a renda particular e pública.
É, pois, de alta política contrair dívida para desenvolver e derramar esta semente admirável, cujos frutos virão amanhã compensar-nos do que se houver dependido. Estes artistas formados nas escolas industriais virão enriquecer a indústria; estes naturalistas formados nas escolas superiores verão trazer-nos o aproveitamento das riquezas brutas que jazem aí ignoradas pelo nosso imenso território; estes cidadãos graduados nas faculdades virão administrar mais sabiamente o país, e utilizar mais fecundamente os tesouros materiais e intelectuais que, mercê de Deus, não nos falecem.
Consultar o déficit do tesouro, Srs. Representantes da nação, é patriótico quando se trata de extinguir sinecuras, de cortar pelo pessoal superabundante de repartições públicas, de prescrever severa economia em todos os ramos da administração; mas consultar o déficit para não comprar a chave que abre as portas da riqueza. - Isso, permiti-me dizer, não me parece de profunda economia política.
Os melhoramentos admiráveis da matéria-prima e aperfeiçoamento dos processos de produção decuplicaram a riqueza de França em 200 anos, porque é fato econômico que a riqueza depende essencialmente do acréscimo da produção; pois bem, nunca este país abençoado pela Providência produzirá mais e melhor, enquanto se não promover a difusão e o cultivo de grande ciência que é o único agente do progresso das indústrias; e nunca tereis a grande ciência enquanto, por meio de orçamentos acanhados, obstardes ao desenvolvimento do ensino pratico, que fixa, amplia e rasga os horizontes da teoria fugaz e pouco proveitosa. Consequência lógica, Srs. Representantes da nação - a riqueza do Brasil depende da ciência prática, e, pois, em última análise de laboratórios bem montados cientificamente dirigidos, patrioticamente aproveitados. Dai-nos estas armas, e nós ganharemos a batalha do futuro.
E vós, senhor que inibido pelo Constituição de intervir diretamente na solução d’estes problemas, podeis, entretanto, muito pelo prestígio de vossa dedicação e pelo vosso amor ao Brasil demonstrado em 40 anos de atividade incessante e desinteressada, e ainda hoje pela vossa augusta presença n’este lugar, animai a todos com o influxo de vossa vontade, estimulai se preciso for e aliado a este nobre povo, tereis cooperado também para o brilhantíssimo acontecimento, que a será a coroa de vosso ilustre reinado.
Eu sei que há normas legais para o exercício de vossas altas atribuições - assim como há leis de prudência e disciplina para garantir a vida dos generais nos combates; mas, senhor, Bonaparte infringiu todas as normas quando, iluminado pelo gênio, se atirou em Arcole à metralha inimiga para conduzir os franceses à vitória e o conselho dos 500 não deixou de dizer que ele bem merecera da pátria. Um belo talento aqui recordou aqueles dias de inquietação, em que, invadido o território brasileiro por inimigo audaz, foi preciso que o primeiro cidadão se fizesse – o primeiro voluntário da pátria.
Eu parodiarei a sua frase:
Batem a rotina e a nobreza às portas do Brasil, senhor; seu exército é uma legião de gênios tétricos, sombrios e esquálidos: a miséria, a discórdia, a fome, a guerra, a dissolução e a morte; inquietos, confusos, timoratos, povo e governo hesitam no plano da defesa, a bandeira sagrada que há de dar a vitória ali está no chão esquecida e em abandono, porque ela é pesada e tem espinhos, e ninguém se anima a sangrar as mãos e arriscar um sacrifício.
Levantai-a senhor, é a bandeira mágica do ensino superior e prático; levantai-a, eu vos conjuro em nome da pátria, e quando chegardes às portas do castelo, a legião sombria terá fugido de pavor ante o brilho incomensurável d’esta luz que se chama ciência d’este talismã divino que dá a civilização e a riqueza. Levantai-a, eu vos conjuro em nome da pátria, como primeiro voluntário da ciência, aos quatro ventos da terra – e o povo e governos vos seguirão ao capitólio.”
(Bravos. Muito bem, muito bem. Aplausos prolongados. O orador é cumprimentado).”.
Localização
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n.251, p.1, 9 set. 1880. (resumo extendido). Capturado em 03 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/1230
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 334.6. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=938
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)