Conferência Popular da Glória nº 335

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 05/09/1880.

Orador: Joaquim Monteiro Caminhoá

Título: Meios práticos e econômicos para a reforma do ensino médico

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se ontem no edifício das escolas públicas da Gloria, em presença de S. M. o Imperador, a conferência n.335, feita pelo Dr. Joaquim Monteiro Caminhoá. Tratou do seguinte assumpto: Meios práticos e econômicos para a reforma do ensino médico. Depois de uma longa peroração em que pede a benevolência, simpatia e adesão do público, visto o pouco tempo que tem para tratar do assunto, entra o orador em plena matéria e diz que vai encará-la como uma questão de sincera e leal diplomacia moderna. Há 22 anos não cessam as reclamações de meios de melhorar o ensino. Já foram pedidos laboratórios e construção de um edifício; de facto há ausência de material, o ensino não é prático e faltam preparadores fixos. Se há um governo que se mostra favorável às reformas, logo vêm outros que por economia acham-nos inoportunas. Duas causas têm, pois, concorrido para este estado de cousas: 1ª, a pouca duração dos ministros no poder; 2ª, o quase abandono de alguns lentes da faculdade, por serem baldados os seus esforços. O modo prático de dar a autonomia ao professorado é a criação de uma universidade, cito como exemplo a reforma universitária feita em 1874 na Holanda. Censura muito o defeito de solidariedade administrativa; não há fé nos contratos; não há lei, por melhor que seja, que não venha a ser sofismada, recusam-se a uns os mesmos favores concedidos a outros. Fala também da vida contrariada e obscura do farmacêutico, o que o leva a abandonar o seu estabelecimento a estrangeiros e ir para o curso médico. Tal fenômeno não se produz na Europa. Por que não se concede também o título de bacharel em farmácia? Reformas são, pois, precisas e sem elas nos veremos em breve obrigados a recorrer ao estrangeiro. Ocupa-se em seguida da emancipação das mulheres; entende que as suas patrícias que quiserem estudar medicina não devem ser obrigadas a recorrer a outro país. Embora seja o lado sublime da mulher o do coração, acha que não deve se impedi-la de seguir uma vocação qualquer.

Falando do gabinete de botânica, diz que o mau estado do ensino prático é devido também aos diretores. O seu a seu dono: o governo tem, é verdade, a sua culpa, mas as faculdades e os professores têm também o seu quinhão.

Trata-se depois da igualdade dos corpos docentes, e diz que os lentes e substitutos da escola politécnica são mais bem pagos que os da escola de medicina.

Não compreende por que haja mais instância e interesse de um lado do que do outro. Naquela escola têm-se feito muitas reformas, no entanto nada faz-se para a de medicina. Ignora porque as ciências, a base da medicina, são ali chamadas de acessórias!

Critica também muito o código ordenado dos lentes; acha-se que são bem pagos e, no entanto, em Buenos Ayres, um país mais pobre que o nosso, um deles recebe 10000$000.

Finaliza dizendo que tem muita confiança no governo atual, e une-se aos seus ilustres predecessores nos mesmos pedidos de reformas.

O auditório, no qual se contavam muitas senhoras era, como sempre dos mais escolhidos.

- Continuou o Dr. Couty na sua oitava conferência a ocupar-se com os resultados das experiências feitas por ele e pelo Dr. Lacerda sobre o veneno das cobras. No intuito de evitar as dúvidas que se podiam apresentar nos casos que a inoculação é feita pela picada do réptil, misturando-se os efeitos gerais com os efeitos locais do veneno, os Drs. Couty e Lacerda na sua primeira série de experiências serviram-se da injeção intravenosa do veneno colhido um pouco de algodão e depois diluído em água destilada.

Eles viram então a morte produzir-se em períodos de tempo e por mecanismos muito variáveis.

Assim, em alguns animais houve suspensão dos batimentos do coração, em outros suspensão da respiração, em outros ainda, e foram estes os mais numerosos, paralisia progressiva da circulação.

A morte assim produzida por mecanismos variáveis foi precedida de desordens não menos diversas. Alguns animais apresentaram ao princípio fenômenos de excitação, convulsões irregulares, vômitos, sucção, lentidão do coração, dilatação pupilar, salivação. Em outros a paralisia constante antes da morte sobreveio como um dos primeiros fenômenos: quer um quer n’outro caso, porém, nesta fase paralítica terminal, produziram-se algumas vezes contrativas isoladas e sintomas diversos de excitação. A sucessão das desordens, quanto à natureza, é muito diferente e muito variável.

Pela autópsia reconhecem-se que as lesões variavam muito de sede. Elas foram sempre constituídas por congestões e por hemorragias, excepcionalmente por inflamações; mas estas lesões ora tinham sua sede nos pulmões e no coração esquerdo, outras vezes, porém mais raras, nos intestinos, no pâncreas, no baço, no fígado e nos invólucros membranosos do cérebro e da medula. Elas parecem poupar certos tecidos como o nervoso e o muscular; e certos órgãos como o estômago, o rim e a cápsula suprarrenal. Essas hemorragias não são produzidas por desordens da circulação; elas são muito diferentes das hemorragias consecutivas a certas moléstias ou lesões nervosas, e parecem ser produzidas pela ação do veneno sobre os próprios órgãos.

Dir-se-ia, pois, que segundo os casos o veneno dos ofídios iria atuar ora sobre um órgão ou aparelho, ora sobre outro: e que assim produziria fenômenos semelhantes quanto à forma – excitação depois paralisia, congestão depois hemorragia, mas essencialmente variáveis quanto à sede e quanto à sucessão conforme o animal e as suas diversas condições.

O veneno dos ofídios seria completamente diferente de todos os outros venenos vegetais ou minerais, os quais produzem sempre os mesmos sintomas, os mais das vezes sem lesões apreciáveis.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 59, n. 248, 06 set., 1880.p.1 (resumo). Capturado em 10 janeiro 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/1551  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 335. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=925

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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