Conferência Popular da Glória nº 337.1

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 12/09/1880

Orador: Francisco Praxedes de Andrade Pertence

Título: Ensino Superior

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Publicamos em seguida o resumo da conferência realizada anteontem na escola da Glória pelo ilustrado Sr. Conselheiro Pertence.

O orador começa dizendo que Maquiavel, o primeiro que ensinou a fazer-se aplicação da filosofia à história e que atribuiu toda a felicidade dos romanos às suas virtudes, fundou uma escola, cujo nome tem sido nos dias correntes a capa para ocultar-se muita injúria.

N’esta corte, onde todos falam e poucos sabem ler, foi atribuída a posse de uma espingarda escravocrata a um homem que não tem ideias escravagistas; por isso não admira-se de ter sido o alvo das injurias anônimas, quando é um homem que procura, perante o público, ser o intérprete dos sentimentos e da vontade de seus colegas, na questão do ensino superior.

Tem sido até hoje superior à mentira e à calunia; contudo acha do seu dever fazer uma declaração; se, porventura o Sr. Ministro do império, o escolhesse para o cargo de diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, o orador recusaria tão grande honra. Está velho; já deu ao ensino e à ciências todas as energias da sua inteligência; agora retira-se, não cansado, porém doente.

Para conquistar os títulos que tem, não teve a infelicidade de manchar as suas mãos; hoje, como sempre, elas estão limpas, segurando o estandarte da liberdade do ensino, associada aos meios indispensáveis para o estudo perfeito e completo da ciência. Não vem defender-se; explica-se apenas, em homenagem ao seu passado e á sua consciência, que atestam os esforços empregados em uma longa vida de trabalho honrado.

O mundo quer conhecer a genealogia do homem e o berço onde nasceram todos os fatos sociais; a série de conferências, que se tem feito ultimamente na Glória, despertou geral interesse da parte do público. Agora, que os bons resultados d’esta empresa ameaçam irromper à luz do dia, todos querem saber de onde veio a ideia das conferências.

Veio do espírito do orador, no sentido de prestar um serviço ao ensino. Para secundá-lo em tão árdua empresa, escolheu alguns companheiros, e na distribuição dos convites, seguiu o exemplo dado ao monarca da fabula para a escolha dos seus ministros; procurou os que não o cercavam.

Já lhe perguntaram por que não tratou d’esta questão quando era professor; respondendo na ocasião, diz, que talvez, se imaginasse querer o orador melhorar de condição e aumentar o seu ordenado.

Acresce, demais, que era preciso aparecer oportunidade, que só agora se apresenta. Está no poder um homem de letras, educado pela inteligência dos bons mestres, e cujas ideias generosas a respeito da instrução, o orador folga de denunciá-las. Espera que o Sr. Ministro do império preste a sua atenção para tão palpitante questão.

O orador acredita não estar só n’este terreno; julga-se acompanhado pelos seus antigos colegas da congregação e tem razão para assim pensar, pois a nenhum d’eles  maltratou. Disse, é verdade, que na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro haviam oito professores que podiam ombrear com os primeiros da Europa.

Será isto ofensa? Não, tanto mais quanto os professores excluídos d’aquele número são distintos também, embora não o sejam na mesma relação. Cumpre revelar que a faculdade de medicina não dispõe de elementos suficientes para oferecer um corpo docente completo nas matérias do curso; há falta até de cadáveres, para as simples e pequenas lições de anatomia.

Diz que a passagem do Sr. Cerqueira pela polícia da corte foi uma fatalidade; acabaram-se os capoeiras, é verdade, mas houve um atraso para o ensino; o orador na qualidade de lente, ficou privado de ver em sua aula os cadáveres dos indivíduos que caiam pelas facadas e por outros ferimentos graves, perdendo assim o ensejo de dar algumas lições sobre vários casos interessantes.

O orador ocupa-se em seguida com a conduta que teve na Faculdade de Medicina durante o tempo do seu professorado: lembra as ideias que sempre aventou nas Memórias Históricas, sobre a necessidade reformar o ensino, ideias que outrora não publicou, par anão ser taxado com as ambições pequeninas que lhe podiam atribuir, como já assinalou em outra parte do seu discurso.

Hoje, que está desembaraçado da toga do magistério, já não se arreceia dos ataques traiçoeiros; sabe que muitos indivíduos procuraram demover o seu colega Dr. Caminhoá de tomar parte nas conferências, porque diziam ser este trabalho um disfrute.

Apesar da guerra surda que se tem feito a esta propaganda, os seus bons efeitos já se vão fazendo sentir, como o orador pode atestar pelo procedimento da câmara e do poder executivo, em alguns atos que são do domínio público.

Não é de hoje que o orador trabalha em favor do ensino; porém, sempre dentro dos muros da faculdade, entre os seus antigos companheiros, nas sessões da congregação, nas lições da cadeira de que foi proprietário durante muito tempo, sempre silenciosamente, procurando na esfera das representações, dos pedidos, dos requerimentos, das propostas alcançar algum benefício; foi o orador quem conseguiu a criação da cadeira de histologia.

A história da criação e da vida d’esta cadeira é muito interessante; o orador, para melhorar o estudo, procurava as horas de bom humor de um dos diretores, com o fim de pedir-lhe instrumentos, e é preciso declarar que, apesar da boa vontade d’este funcionário, ele não podia resistir e assoviava a Maria Cachucha.

Chegou mesmo a dizer que a cadeira de histologia era uma sinecura! Felizmente as evoluções da ciência e os seus progressos vieram, com o correr dos tempos, assinalar e impor a importância indispensável do microscópio para o estudo e para as investigações!

Chegou-se também a dizer que a cadeira de histologia era tanto mais dispensável, quanto a mocidade não queria aprender. Não, é falso, exclama o orador. Aproveita o ensejo para dizer alto e bom som que não há no mundo uma mocidade nem mais inteligente, nem mais avida de aprender do que a brasileira.

O que ela não quer é reduzir os seus ouvidos a olhos, fazer gravar no espírito o que ela só pode aprender completamente vendo, apalpando, examinando; o que ela não quer é aniquilar sua inteligência, tornando a memória o único fator das operações do seu espírito.

Continua.”.

Localização

- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, anno VI, n. 255, p.2, 14 set. 1880. (resumo estendido). Capturado em 04 mar. 2026. Online. Disponível na Internet:  http://memoria.bn.gov.br/docreader/103730_02/1261

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 337.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=941

 


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