Conferência Popular da Glória nº 338
Data: 16/09/1880
Orador: Manoel Joaquim Fernandes Eiras
Título: O alienado perante a ciência médica, a sociedade, a família, a autoridade e a lei
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se ontem na escola pública da Glória, a conferência n. 338, ocupando a tribuna o Sr. Dr. M. J. Fernandes Eiras, que tratou do seguinte assunto:
O alienado perante a ciência médica, a sociedade, a família, a autoridade e a lei.
O orador começou mostrando a grandeza do cérebro humano. É esse o único ponto de partida para os princípios, regras e leis que regem o mundo. A ele devemos o estudo da natureza, os tesouros colhidos pela ciência e tantas outras maravilhas.
Depois desse exercício entrou o orador no assunto, pretendendo ocupar-se unicamente da tese: - O alienado perante a ciência, etc.
Dividiu em 3 partes: 1º definiu o objeto; 2º leu as suas formas, e 3º as suas causas: O que é loucura? Como definir tal fenômeno? Os filósofos dizem que não se deve definir a loucura; os alienistas, porém, querem defini-la.
A loucura não é uma ideia fixa; é uma lesão patológica causada por fenômenos psicológicos e físicos.
Tratando das formas citou a melancolia, a hipocondria, o enfraquecimento, a ausência de inteligência e idiotismo, o cretinismo (moléstia endêmica), e enfim uma forma de loucura que existe hoje em grande quantidade, a paralisia geral. Tem estas duas origens: individual ou hereditária. A individual é devida a excessos. Citou também formas secundárias: a loucura temporária e transitória, determinada pela aparição de um fenômeno e a loucura suicida.
Disse que o suicídio não é uma loucura. Por exemplo: as viúvas dos Malabares morriam nas cinzas de seus maridos; os chineses se deixavam mutilar por cauda de um ídolo; tais fatos não podem ser considerados como casos de loucura. A loucura suicida traz um fenômeno muito curioso: a insensibilidade.
Referiu-se também à loucura homicida e à loucura supersticiosa; esta última é de muita importância. Antigamente haviam indivíduos que supunham ser cavalos, e se nutriam como tais. A loucura supersticiosa do nosso tempo mudou; atualmente o que reina é o chamado espiritualismo.
Passou em seguida às causas. As principais são os progressos da civilização, o luxo, os bailes, os teatros, a higiene da alimentação, os vestuários complicados, as ambições, a sede de ouro, etc..; tudo isto são verdadeiras causas da loucura. A nacionalidade, a raça, a idade, o sexo e as profissões são outras tantas causas. O celibatário é mais sujeito à loucura do que o homem casado. Chamou também a atenção para o que denominamos paixões e emoções.
Disse mais que o amor nunca é causa da loucura, e se é moléstia, não é a medicina que pode curá-la.
A embriaguez é a causa do mal da quarta parte dos loucos que se recolhem aos hospitais. A religião, se é considerada como uma causa de loucura, o é pela influência dos seus representantes.
Terminou o orador falando do tratamento, que dividiu em físico e moral, e agradecendo a bondade do auditório.
Ao descer da tribuna foi muito aplaudido.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 set. 1880. Anno 59, n.262, p. 01 (resumo). Capturado em 26 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/1647
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 338. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=943
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)