Conferência Popular da Glória nº 352
Data: 05/12/1880
Orador: Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira
Título: Condições da reforma e desenvolvimento do ensino superior
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Fez ontem o Sr. Dr. Duque-Estrada Teixeira sua 4ª conferência sobre a reforma do ensino superior.
Começou dizendo que esta seria a última deste ano, não a das que se comprometeu a fazer, pois em quatro conferências não poderia desempenhar o vasto programa que adotara e não quer confirmar a reputação de mentirosos que os programas políticos e não políticos têm adquirido.
Diz que já demonstrara que, como uma das principais condições da reforma do ensino, era o apoio da opinião, especialmente das classes diretoras, mas que infelizmente tal opinião, sobretudo em relação ao ensino superior, não parece formada, mostrando-se até os homens incumbidos da governação pública alheios à verdadeira noção da importância vital e providencial destino da ciência e de sua propagação no século atual.
Além da triste pobreza, não só de atos legislativos, como administrativos a tal respeito, até mesmo de simples projetos parlamentares, nota-se com profunda mágoa que, quando se trata de economias, as verbas que primeiro são cerceadas são as do ensino, o que é um atentado de lesa civilização, chegando-se a suprimir a verba da escola normal, a deduzir uns miseráveis 7:000$ da dotação do museu, instituição de enorme alcance, que agora começa a desenvolver-se e muito sofreria com a privação daquela pequena quantia que certamente não iria salvar nossas finanças.
Mostramo-nos cegos, quanto aos exemplos da Alemanha, França e países verdadeiramente cultos, que, longe de cercearem aumentam as verbas da instrução pública a despeito de grandes apuros financeiros. Não temos ensino algum técnico industrial e uma das economias lembradas, e infelizmente realizadas, foi a supressão das únicas fontes deste ensino que existiam em nossos arsenais. O acessório, as coisas secundárias em matéria de ensino preocupam nossos governantes, que esquecem o princípio e o sacrificam. É assim que vemos em constante cuidado com o processo dos exames, quando o importante é estabelecer bons programas, bons métodos, boas instituições de ensino, obtido o que todos os exames são bons desde que os examinadores forem habilitados e honestos.
O exame serve para verificar o que o examinando sabe; tratem, pois, antes de tudo de dar-lhe séria instrução: cuidar do exame sem zelar a instrução é contrassenso. São notáveis e lamentáveis as lacunas de nosso ensino superior. Não temos um curso superior de letras, de filosofia, de história e ciências subsidiárias, de ciência da linguagem e seus tão variados e interessantíssimos ramos. É miserável o quadro da nossa instrução superior desprovida de cursos indispensáveis, de vital importância para a solução de mil problemas que interessam a humanidade e nossa nacionalidade. Isto é vergonhoso e não deve nem pode continuar.
Se perguntarmos aos que tem o poder e voto legislativo se é ou não justo que sejam preenchidas tão lamentáveis e funestas lacunas, é impossível que conscienciosamente respondam pela negativa; mas se lacunas continuam, e quando se fala em realizar um vasto e completo plano de ensino por meio da Universidade, levantam-se objeções.
Mas, por que não havemos de possuir uma Universidade, quando todos os povos verdadeiramente cultos as possuem e nossa constituição no-la prometeu? Porque será lícito estabelecer cursos em faculdades separadas, esparsos por várias províncias e não o será reuni-los metódica e cientificamente em um sistema universitário que traduz ao vício a solidariedade dos diversos ramos de conhecimentos humanos. Faz largas considerações sobre as Universidades da idade média, renascença e modernas e descreve a largos traços as vantagens do sistema universitário alemão;
Diz que a objeção oposta é filha da má apreciação do assunto, que devidamente se considera meio problema político administrativo, quando é um problema científico e social; cumprindo que deixe à ciência sua vida e atividade própria, que não devem ser sufocadas por pequenas preocupações e sempre na França, falando-se em centralização a respeito de Universidade, sem dúvida, pensou-se na Universidade napoleônica, que era muito centralizadora, mas não é o tipo que se deseja realizar.
Demonstra plenamente que a realização da Universidade com os grandes e incalculáveis benefícios que trará, longe de poder motivar queixas provinciais, será incentivo para maior coesão nacional e para fomentar o patriotismo, que arrefece quando a vida intelectual de um povo definha, e se exalta quando ela se láurea com as palmas das descobertas cientificas, e de um glorioso progresso.
O orador, sempre ouvido com o mais vivo interesse, foi calorosamente aplaudido ao deixar a tribuna.”.
Localização
Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 06 dez. 1880, Anno 59, n.339, p.2. (resumo). Capturado em 27 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/2170
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 352. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=957
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)