Conferência Popular da Glória nº 353

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 12/12/1880

Orador: Eliseu de Sousa Martins

Título: Ensino primário científico

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Na conferência da Glória falou ontem o Dr. Eliseu de Souza Martins.

O orador, depois de um pequeno exordio onde justificou sua presença na tribuna, motivada por uma resposta, que dera ao Sr. Dr. Duque-Estrada, a com a qual acentuara sua divergência sobre o posto por onde se deve começar a reforma da instrução pública no país, disse que deduzia as razões de preferência em favor do ensino primário dos fatos diferentes, capitulando-os pela maneira seguinte?

1ª razão, tirada da ordem, em que se manifestam os diversos gêneros da atividade que constituem a vida humana; 2ª das condições do país em relação à extensão do seu território, inevitável do problema – elemento servil; 3ª da comparação entre a história antiga com a moderna, sobretudo a contemporânea, e tendencias manifestadas pelo espírito do século; 4ª da natureza e generalidade do imposto, em cujo produto se pega e subsidia o ensino; 5ª da necessidade que há de tornar exequíveis as reformas político-administrativas, que o país reclama.

A ordem em que se manifestam os diversos gêneros de atividade, que constituem a vida humana, é natural e não arbitrária; 1ª, o individuo e tudo o que diz respeito à sua conservação direta ou indiretamente; 2ª, a família, em cujo seio ele se completa e se expande; 3ª, o Estado, que o garante, superintendendo o desenvolvimento do todo dentro da órbita legal e do direito, pois que o Estado é a justiça constituída; e é imprescindível, que, em matéria de ensino, seja respeitada aquela ordem.

O orador apoia o seu modo de pensar com a opinião de Spencer e Littré. Extenso como é o território e a população tão disseminada, centralizar o ensino será em todo o caso inconveniente, dificultando sua propagação, que é o ideal das sociedades modernas bem constituídas.

O país possui inúmeras riquezas, e, entretanto, o povo é pobre e miserável, porque as não conhece e nem dispões dos meios de assimilá-las às suas necessidades.

O imposto é um tributo geral, lançado sobre quem o tem de pagar em nome da utilidade e a bem dos serviços gerais; e entre nós o comércio, as indústrias e em ultimo caso a agricultura são os que suportam os maiores encargos; e quando se trata de despesas com o ensino deve-se dar preferência àquele que mais direta e proximamente aproveita ao desenvolvimento dos agentes ou instrumentos daquele que contribuem com quantias mais consideráveis.

Nem a história antiga, nem a idade média podem oferecer argumentos positivos para resolver a questão do ensino público; naquele tempo, existia perfeito antagonismo entre os dois termos – ciência e povo – antagonismo que felizmente já desapareceu.

Só a história contemporânea pode inspirar com precisão e clareza aos reformadores da instrução pública.

O orador mostra como se vai tornando geral o movimento que tende a generalizar o ensino científico, levado até às últimas camadas sociais; e cita os exemplos dos Estados Unidos, da França atual da Itália, da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, da Suíça, Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Noruega e da própria Rússia, manifestando a esperança que tem de que o Brasil não fique – marco miliário -, negando as tendencias do espírito do século.

Por último mostra o orador que o insucesso das reformas, que entre nós se tem tentado, não pode provir senão da ignorância do povo, e dos agentes governamentais.

Sobre todos estes pontos discorreu o orador com precisão e clareza, terminando por apostrofar a política atual, a quem convidou para que, sacrificando ódios, paixões pequeninas e interesses partidários, se consagre todo a causa da instrução popular.

O orador, entretanto, não quero o sacrifício do ensino superior.

Ao concluir o seu discurso, foi o orador calorosamente aplaudido, e cumprimentado por muitas pessoas gradas, que se achavam presentes, entre as quais notamos os Srs. Conselheiros Paranaguá, Liberato, Barroso, senador Luiz Felippe e outros.

Sua Majestade dirigiu-se também ao orador com quem conversou algum tempo, manifestando o desejo de ouvi-lo ainda sobre o assunto.”.

Localização

Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 13 dez. 1880, Anno 59, n.346, p. 02 (resumo). Capturado em 27 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/2218

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 353. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 16 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=958

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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