Conferência Popular da Glória nº 358

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 16/01/1881

Orador: Antonio de Almeida e Oliveira

Título: Instrução pública, unidade de plano na sua reforma

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Eis o resumo do discurso pronunciado, anteontem, na escola da Glória pelo Sr. Antonio de Almeida e Oliveira:

Vem à tribuna impelido pelo interesse que de há muito liga à questão do ensino, a mais importante de quantas se impõem à atenção dos poderes públicos, e sobretudo animado pela benevolência que o auditório costuma dispensar a quem trata desse importante negócio.

A difusão do ensino, em todo o tempo necessária aos povos que querem ser cultos, entre nós, se torna cada vez mais urgente com a reforma eleitoral que o parlamento acaba de votar e o próximo fato da emancipação servil.

A questão que preocupou os oradores que ultimamente tem falado sobre o assunto, se é pelo ensino inferior ou superior que deve começar a reforma da instrução, para o orador não tem razão de ser.

Não se pode separar o ensino inferior do superior, nem cuidar de um e fazer o outro esperar a sua vez sem prejudicar os dois ao mesmo tempo que se entende favorecê-los. O ensino inferior é a base do superior; e este não deve ser organizado senão de modo que seja a continuação daquele. Se o povo não tiver instrução alguma de nada valerá o ensino superior. Os alunos mesmos que se destinam a estudos superiores não se matricularam nestes com bastante desenvolvimento para o fim a que se propõem.

Na sua opinião para os dois ensinos progredirem juntamente é preciso que o superior seja como a luz do monte iluminando o vale, e o inferior como o fundo do vale aberto á luz do monte.

Não é inimigo das universidades, mas combate a ideia da criação de uma universidade na corte por valiosos motivos.

A universidade é nada menos do que a preferência dada ao ensino superior, em prejuízo do inferior e contrair o Estado um ônus, que não pode produzir benefícios gerais.

A universidade, que aliás já existe na corte, faltando apenas uma escola de direito, não aproveita a todo o Império, nem pode servir para o fim que se deseja, desde que se considera o estado em que a mocidade sai do ensino primário e secundário.

Além disso não dispensa outros estabelecimentos, que o Estado, onerado com os gastos da universidade, não criará, como sejam as escolas especiais e de aplicação, que em toda a parte da Europa existem como complemento do ensino universitário.

É engano pensarmos que só com os homens formados na universidade vamos melhorar as condições do Brasil.

Se a maioria dos Brasileiros não for convenientemente educada, os doutores ficariam sem saída e sem procura, não farão senão aumentar a praga dos mendigos de emprego, de que todos os governos se queixam.

Entretanto criando-se um ensino primário mais sólido que o atual, e espalhando-se por todo o Império escolas profissionais e de aplicação, os homens formados entraram em relação com as classes populares, e estas nem só receberam em relação com as classes populares, e estas nem só receberam o impulso que eles podem dar, mas se entregaram a indústrias uteis á elas, aos homens formados e à sociedade em geral.

Em resposta a pergunta, que faz – o que propõe em vez da universidade, lê um plano de ensino geral, inferior e superior, em ambos científico e aplicado às profissões e indústrias, que existem ou podem existir em paz.

Entre outras, lembra a conveniência de escolas industriais, comerciais, agrícolas, normais e de farmácia. Também pede mais um curso de ciências naturais, outro de artes e manufaturas, e outro de engenharia civil, todos em províncias do norte e do sul, conforme as respectivas condições.

Diz que a execução do seu plano, sobretudo no que toca à instrução inferior à cargo das províncias, exige despesas que elas não podem fazer. Mas não é isso um obstáculo invencível. O Estado que se resolva a gastar também com a instrução inferior, que não pense fazer tudo gastando só com a superior. Ele que tem aumentado tanto as despesas de outros serviços, deve aumentar o orçamento da instrução para ir em auxílio das províncias; do contrário estas nunca sairão do abatimento em que se acham.

Em apoio do que disse a respeito das vantagens de um bom ensino superior, e do conserto de vistas e esforços em que o povo se achará com os homens do ensino superior, cita exemplos de industriais, obreiros e simples ajudantes de laboratórios científicos realizando descobertas impossíveis ao homem totalmente ignorante.

E prevendo a reflexão que as invenções são muito difíceis, limita suas esperanças ao melhoramento das industrias atuais, como a lavoura, o mate, o ferro, em Minas e outras, que podem tomar grande desenvolvimento desde que, educados convenientemente, forem os povos caminhando para a vida industrial e agrícola, de que somos capazes.

Conclui citando Michelet quando disse que cada uma das décadas do século XIX corresponde a 100 anos dos tempos antigos, e mostrando como só isso pode ter lugar com a instrução científica vulgarizada por todos os países.

Se o Brasil, que nenhuma parte tem nas glórias do mundo civilizado, não quer ficar para sempre alheio a elas, não deve se contentar com uma universidade, mas cumpre-lhe organizar a instrução do povo por um plano único, em todos os graus científicos, e assim espalhá-la por todo o Império.

Só assim, diz o orador, pode a instrução congraçar esforços que hoje não se combinam, aproximar os homens e as classes que hoje vivem à parte, constituir campo comum de apreciações e censuras que de presente são impossíveis e atuar, como convém, sobre os milhares de elementos vitais que nos oferece a nossa opulenta natureza.

Finda a conferência, foi aplaudido, demorando-se S. M. o Imperador algum tempo a conversar com o orador.”.

Localização

Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 18 jan. 1881, Anno 60, n. 18, p.2 (resumo). Capturado em 13 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/2462  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 358. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 6 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=963

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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