Conferência Popular da Glória nº 361

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 06/02/1881

Orador: João Manuel Pereira da Silva

Título: Nacionalidade, língua e literatura: Reinado de João V.

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Ontem, às 11 horas, realizou-se na escola pública da Glória a anunciada conferência do Sr. Conselheiro Pereira da Silva. Multidão numerosa de cavalheiros e damas da melhor sociedade e de todas as classes abrilhantou o recinto.

O orador, depois de haver lançado rápida vista de olhos, reunindo observações críticas sobre o século XVII em Portugal, descreveu o princípio do século XVIII, cuja primeira metade lhe cumpria historiar.

Desde o domínio espanhol, uma grande revolução operara em Portugal. Os povos das últimas camadas, arrufados com as perseguições, recrutamentos, tributos, correrias e arbitrariedades da Espanha, começaram a imigrar para o Brasil, porque as possessões das Indias arrebatavam os ingleses e holandeses aos portugueses, as da África amedrontavam pelo clima e doenças.

Principiou, pois, o Brasil a prosperar, e por si, recebendo imigração espontânea.

Ao sacudir-se o jugo espanhol em 1640, a miséria era tal em Portugal, e as exigências de dinheiro e soldados para o novo governo, que a imigração continuou com força, e começou o Brasil a pesar na nação portuguesa pelo comercio, e logo depois pelos seus naturais, que em Portugal se misturaram com os europeus nas ciências e letras.

Descobertas as minas de ouro e diamantes, então tomou proporções assustadoras a emigração de Portugal, que se despovoava para o Brasil, que progredia. Ao raiar o século XVIII, era quase já o Brasil igual à porção europeia da monarquia.

Retifica o orador um erro grave de todos os historiadores e cronistas, que dizem que degradados formaram os núcleos da população da colônia. Segundo a legislação portuguesa, mais de 250 atos do homem eram punidos com degredos, além de crimes, ações quando muito imorais, segundo as ideias da época: tirar sortes com cartas, ler destinos nas palmas das mãos, dar casa para couto, vender alféloas ou obreias, bestialidade, sodomia, alcovitarice, escolar, etc. Quase que não escapava individuo denunciado por inimigo, se as leis se cumprissem. Não haveria desdouro em que tais degradados formasse a emigração. Roma também nasceu covil de salteadores e tornou-se dominadora do mundo. Mas é falso: ao princípio receberam-se degradados, mas a colônia, à proporção que progredia, protestou, representou, e obteve em 1720 que D. João V ordenassem que ninguém fosse mais degradado para o Brasil, e os que lá estivessem se concentrassem em Goiás e Mato Grosso. Ora, o Brasil no século XVIII era a imagem de Portugal, tinha as mesmas leis, os mesmos costumes, as mesmas classes de cidadãos com direitos e privilégios diversos, acrescentada somente uma nova, a dos gentios errantes. Tinha nobreza, não de sangue, mas de posição, peões, judeus, escravos; tinha tribunais de justiça e fazenda, tropa, milicia, ordenanças; tinha administração idêntica e os privilégios da cidade do Porto haviam sido concedidos a muitas de suas cidades.

Assustado o governo com a emigração, tentou proibi-la com a proibição de passaportes para a vinda e volta, com buscas, penalidades duras, etc., e nada conseguiu porque só no Brasil achavam-se recursos das famílias portuguesas de operários, lavradores, industriosos, etc.

Durante a primeira metade do século XVIII, fazer a história da monarquia portuguesa, é verificar a biografia de D. João V. O rei é tudo, e toda a nação. Não houve mais cortes ou assembleias dos três braços nem para etiquetas. O rei representava a Divindade com todos os seus atributos e infalibilidade.

Assim D. João V, pretendendo imitar Luiz XIV de França, tornou tudo faustoso, pomposo, grandioso na aparência. Recebendo para viver o ouro e diamantes do Brasil, que o tornavam abundantíssimos e copiosos para a metrópole, gastou-os também com prodigalidade. O papa e a cúria só receberam no seu reinado mais de cento e oitenta milhões de cruzados para conceder o título de Majestade Fidelíssima ao rei, patriarcal com honrarias da purpura cardinalícia a Lisboa, capelas de S. João Batista e dos paços régios, e canonizações de quatro novos santos para honras o calendário.

Despendeu igualmente somas fabulosas para edificações dos conventos e igrejas de Mafra e Necessidades, capelas, objetos de igreja, arcos de água livres, etc. Tudo foi grandioso e na aparência enganara as nações de Europa pelo fausto, de modo que a nacionalidade portuguesa foi muito admirada e respeitada no estrangeiro, tanto mais que o rei de Portugal, à pedido do papa, até mandou uma armada defender venezianos contra turcos, e enchia as cortes estrangeiras com embaixadas faustosas.

Dentro, porém, da nação roía a podridão. Tudo era superstição; menos o fanatismo desaparecia para pior mal que é a superstição, porque a tem os que não tem religião, e o fanatismo é a exageração da crença ou fé. O rei confessava-se, comungava todas as semanas, ouvia missa todos os dias, ouvia todos os sermões, acompanhava todas as procissões, coadjuvava todas as irmandades, enriquecia todas as igrejas, respeitava todos os padres, indagava de esmolas para sufragar as almas dos finados, e mesmo nos negócios políticos a opinião dos jesuítas, do padre Encarnação, do cardeal da Motta, valia mais do que a de D. Luiz da Cunha, de Alexandre de Gusmão e do Marques de Castello-Melhor, entretanto, assaltava conventos de freiras, e por suas devassidões e feitos galantes desmoralizava o povo.

Lê o orador cartas de diplomatas, que muito divertem o auditório, para pintura completa da corte, governo, administração e povo de Portugal na época.

É impossível acompanhá-lo nas digressões interessantes, instrutivas, variadas, espirituosas a que se entregou para desenhar o tempo com todas as suas cores e formas.

As histórias das conversas dos fidalgos às noites de Santo Antônio e S. Jorge, patrono dos regimentos, as suas promoções, as festas mundanas dos jesuítas; as poesias de Camões do Rocio e outros vates do tempo; as adulações ao rei nas sessões da Academia de História por ele criada para imitar o Instituto de França, a Opera Italiana, tudo conseguiu trazer para o auditório a voz iminente e arrebatadora do orador.

Passando à língua, mostra-a deturpada pelos galicismos, porque à influência espanhola seguiu-se a francesa, e até se viram então em Portugal cabelereiros, modistas, cozinheiros franceses. Por isso, em poesia só Antonio José da Silva brilha, e é brasileiro, entusiasmando o povo com suas operas, mas queimado em auto de fé como judeu pelo Santo Ofício, que cada vez mais bárbaro, perseguidor e cruel se mostra, abusando das superstições do rei, e vitimando até amigos seus, como o sábio Bartolomeu de Gusmão, brasileiro e inventos dos balões aerostáticos. Na prosa é ainda correto e elegante Alexandre de Gusmão, brasileiro, mas conquanto muito ilustrados e autores de obras importantíssimas, Caetano de Souza, Barbosa Machado e muitos outros, pesados no estilo e corrompidos na língua.

Não está nas nossas forças desenvolver mais os assuntos tratados pelo orador. Foi um admirável quadro o que ele desenhou, traçou, coloriu, da primeira metade do século XVIII e do reinado de D. José V, provando que Portugal e Brasil já marcham juntos e iguais, formando a monarquia, e em tudo concorrem Portugueses e Brasileiros de nascimento, por isso aplica ao seu curso desde o século XVII o título de nacionalidade, língua e literatura do Portugal e Brasil.

Numerosos aplausos recebem, durante e depois do seu discurso, as palavras do orador, que pelo auditório foi felicitado ao descer da tribuna.”.

Localização

Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 07 fev. 1881, Anno 60, n.38, p.2 (resumo). Capturado em 27 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/2594

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 361. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 18 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=970

 


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