Conferência Popular da Glória nº 363
Data: 20/02/1881
Orador: Julio Cesar Ribeiro de Souza
Título: Navegação Aérea
Aviso, íntegra ou resumo: Navegação Aérea
Texto na íntegra
“Ocupou ontem a tribuna da Glória o Sr. Julio Cesar Ribeiro de Souza, que discorreu sobre a navegação aérea.
Sentindo dificuldade em expor de improviso com a devida lucidez uma matéria tão difícil como esta, pede licença para ler a memória que a este respeito escreveu e que em breve sujeitará ao parecer do Instituto Politécnico.
Nessa memória diz que a navegação aérea pode-se definir a arte de voar, e dessa definição deduz a necessidade de conhecer-se, pelo menos na maior parte de suas modificações, o processo que a natureza emprega no voo natural.
Explica as diferentes maneiras porque se efetua o voo das diversas espécies de voadores, e demonstra a importância da ação das leis da gravidade, em todos os movimentos, observando que essa ação é maior no pássaro do que nos outros animais.
Analisando os sistemas de navegação e do balão, apresenta argumentos contra a possibilidade da solução do problema por qualquer desses dois sistemas, e combate a opinião geralmente seguida, tanto sobre a impossibilidade do ponto de apoio no espaço para os moveis mais leves do que o ar, como sobre a impossibilidade da concorrência de uma força idêntica à do peso no balão.
Entende que o peso é uma força vertical de cima para baixo, e a leveza uma força vertical de baixo para cima. São idênticas, porém, esta inversa àquela; e se fosse verdadeira a falta de apoio para o que é mais leve do que o ar, deixaria de ser uma lei física a da resistência dos fluidos, desde que a maior projeção de um corpo leve a um plano perpendicular ao seu movimento deixasse de aumentar a sua resistência na razão direta dessa projeção.
A força vertical (peso), sendo modificada a sua direção pela conformação do corpo, pode compor-se com a resistência do ar e dar uma resultante horizontal. Ora, a leveza sendo uma força inversa, deve produzir, inversamente combinada com a resistência do ar, igual resultado.
Entende que a aviação apesar de fundar-se em um princípio empírico, não pode resolver o problema da navegação aérea, por lhe faltar a elevação, isto é, a colocação do móvel no meio em que tem de mover-se.
Tendo por impossível essa elevação, apresenta argumentos em abono da sua asserção, corroborando-os com a opinião de Penaud, ilustre partidário da aviação, que confessa a muita dificuldade da elevação para os grandes moveis pesados.
Desenvolve argumentos com os quais demonstra que os partidários do sistema de navegação em balão têm deixado até hoje de pé as afirmações dos aviadores contra aquele sistema. Entretanto, essas afirmações são inteiramente falsas.
Analisando as experiencias feitas por Giffard em 1852 e 1856, por Dupuy de Lôme em 1872 e por Delmyaux em fins do ano passado, mostra os resultados negativos dessas tentativas; e está convencido de que o balão não pode produzir resultado algum enquanto na navegação aérea, por meio dele, forem somente empregados hélices sem a concorrência de uma força que represente no balão o que o peso representa no pássaro e nas máquinas de aviação.
Não é a direção que falta ao balão e sim em primeiro lugar o movimento.
A opinião geral sobre a possibilidade da viação aérea por meio do balão só se funda nas grandes dimensões que este possa ter, tanto que os balonistas e alguns aviadores celebres julgam viável pelo ar o balão que dispuser de 20 a 100.000 metros cúbicos de capacidade. Esta opinião, confirmada por Penaud e Gaston Tissandier em trabalhos recentes, é combatida pelo orador.
Demonstra a existência do ponto de apoio para o balão e a concorrência da leveza na projeção dele; e combate o argumento de que o balão não tem modelo, na natureza, mais leve do que o ar, pelo exemplo do navio, que também não tem modelo mais leve do que o seu volume de água, quando ele o é.
Trata da forma que deve ter o balão dirigível, das suas dimensões, disposição e capacidade para produzir o melhor resultado; e expondo as dificuldades que apresenta a navegação aérea a flexibilidade das superfícies, é de parecer que para resguardar o balão da forte pressão do vento, em vez de ser empregada em lastro grande parte da força ascensional, deve ser essa força empregada na solidez do aeróstato.
Diz que o leme por excelência do balão deve ser o que represente a cauda do pássaro. Ainda não pode verificar se o leme vertical poderá sempre dirigir os balões lateralmente; mas supõe isso impossível nos casos em que o balão viajar com força igual ou quase igual à do vento, porque então não poderá desviar-se da direção deste.
Entende que o meio fácil e mais natural de obter a direção lateral deve ser a imitação dos modelos da natureza, os quais, ao contrário do que se supõe geralmente, só mudam essa direção pela deslocação do centro de gravidade para um dos lados, e indica os meios pelos quais se pode obter a direção do balão, deslocando o centro da leveza para o lado que quiser dirigi-lo.
Considera o sistema de aviação como capaz de resolver o problema pela facilidade do ponto de apoio e pela concorrência do peso na propulsão, e julga o balão incapaz desta solução, pelo menos sendo de pequenas dimensões, pois supõe-se que ele não pode ter o seu ponto de apoio nem o peso de outras forças equivalentes a esta.
Pela demonstração que fez pensa o orador que pelo seu sistema o balão reúne os elementos que faltam isoladamente a cada um dos outros, isto é, que tendo a elevação que falta à aviação, tem também a concorrência de uma força equivalente à do peso, e o ponto de apoio que se diz faltarem-lhe.
Sendo este novo sistema radicalmente diferente dos dois outros, é por assim dizer o justo meio entre eles, e o único que, analisado à luz da ciência, pode dar o valor da incógnita.
Em duas experiencias que fez, a mais importante das quais, com um balão de seis metros de comprimento e dois de diâmetro, obteve sem propulsor o movimento e a direção. Não pode afirmar igual resultado que nos balões próprios para a navegação: afirma, porém, se que a navegação aérea se não realizar pelo novo sistema, nunca se realizará por nenhum dos outros; e que, salva a hipótese da praticabilidade da teoria romântica de Julio Verne, ao seu descobrimento maravilhoso – a eletricidade -, salva esta hipótese, a humanidade terá de banir a aspiração do domínio sobre o elemento que envolve o planeta.
O orador foi vivamente felicitado.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 21 fev. 1881, Anno 60, n.52, p.1 (resumo). Capturado em 14 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/2685
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 363. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 18 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=972
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)