Conferência Popular da Glória nº 371
Data: 01/05/1881
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: Vantagens da reunião de um Congresso de Instrução
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“O Sr. Conselheiro Correia realizou ontem a 371ª destas conferências, ocupando-se com as vantagens da reunião de um congresso de instrução.
O orador começa recordando o que disse Falleyrand, na assembleia constituinte da França, como relator da comissão de instrução pública: há duas espécies de instrução, uma necessária a todos e outra que é somente útil; que sendo aquela necessária, deve ser dada pelo Estado e ser gratuita e universal.
No livro de Jules Simon, A instrução gratuita e obrigatória, lê-se que ainda depois de passado o primeiro quartel deste século, os habitantes das comunas menos adiantadas da França diziam, tratando-se da escola: do que precisamos é de pão.
Jules Simon acrescenta:
“Em verdade, se houvesse antagonismo entre o pão e o livro, deveríamos preferir a satisfação das necessidades físicas que, na ordem natural, precedem as da inteligência. Mas felizmente não há esse antagonismo; tudo no mundo obedece à lei da correlatividade, nem se poderia supor que o Criador Supremo guiou-se por um plano desconexo.”.
A relação entre a escola e as prisões está conhecida e demonstrada pela estatística: a luz que se derrama sobre a escola projeta sombra sobre as prisões.
Ainda na última conferência mostrou o orador, como as palavras de um eminente escritor, a relação que há entre a liberdade e o desenvolvimento intelectual.
Mas para se marchar com segurança no terreno da instrução é mister abranger um imenso campo com duas grandes divisões: a parte animada, que deve ser alegre, festiva, entusiasta; e a parte material, o edifício da escola, que deve ser vasto, elegante, cômodo, ventilado, claro e em que os raios de sol não abrasem nem os rigores do inverno enregelem.
Versando a passada conferência sobre o exame do melhor edifício da escola e ficando demonstrado que deve ser edifício público, o orador julga ainda dever tratar deste ponto.
Uma razão decisiva mostra que o edifício da escola deve ser público: o local mais próprio deve ser um e este não deve ficar sujeito à mobilidade dos interesses privados.
O orador corrobora esta proposição com algumas palavras de um distinto estadista, que diz que a experiência e o raciocínio demonstram que a escola pública não está verdadeiramente constituída senão quando se acha ao abrigo da instabilidade a que as propriedades particulares estão expostas.
A importância da colocação da escola foi perfeitamente demonstrada por um médico belga, o Dr. Kuborn.
“Do local em que a escola tem de ser instalada dependem as boas qualidades do ar e da luz, que a banhe, a ação salutar do calor e da frescura que tiver de receber, o aspecto risonho e agradável que ofereça o lugar elevado e que assegure à escola a atmosfera salubre, o ar puro constantemente renovado e o sol com seus raios vivificadores. O edifício da escola deve ficar o mais possível ao abrigo das condições anti-higiênicas, tornando-se para as crianças das localidades mal favorecidas um corretivo ao meio em que são constrangidas a viver entre a família.”.
O orador entende que convém generalizar estas ideias. Estamos no começo da nossa existência política e, por assim dizer, tudo neste ramo de serviço está por fazer; não devemos, pois, desanimar.
É preciso aproveitar as lições dos povos que antes de nós lutaram com os mesmos embaraços, colhendo a experiencia por eles adquirida, para darmos os primeiros passos melhor que eles.
Lembra a conveniência de uma lei que estabeleça as regras a observar quando se tiver de erigir novas povoações; o cuidado que agora se tiver a este respeito aproveitará para regularidade e salubridade das futuras cidades do Império, como o estudo do melhor edifício para escolas aproveitará a futura população escolar.
Não devemos desanimar, porque, na França, ainda ao rebentar a revolução de julho, só por exceção tinham as comunas edifícios para escolas e o atraso era tal, que serviam então de escolas a sala do maire, uma tasca, um corpo de guarda, o protico de uma igreja, uma cava em que se entrava de rastos; enfim, em lugares mortíferos e havia professor que ia dar as lições além da fronteira aos raios do sol!
O orador não crê que se tenha chegado jamais a semelhantes extremos; mas como estas conferências são destinadas a demonstrar as vantagens que se colheram da reunião de um congresso de instrução, onde delegados de todas as províncias apontem as respectivas necessidades e os melhores meios de satisfazê-las, aprecia os profícuos resultados que se puderam colher dessa reunião, se se fixarem as ideias sobre o que mais convém em relação ao edifício das escolas e aos meios práticos de torná-las tão numerosas quanto convém, sendo edificadas segundo os preceitos recomendados pelas pessoas mais competentes e que sinceramente se dediquem ao progresso da instrução escolar.
Conclui observando que, se nesta parte o congresso será de tão grande utilidade, maiores serão os seus benefícios se, dominado por sentimentos patrióticos, alongar as suas vistas sobre outros dos muitos pontos que entre nós reclamam salutares medidas a bem do desenvolvimento da instrução pública.
Ao descer da tribuna é o orador felicitado.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 60, n.121, p.1, 02 maio 1881 (resumo). Capturado em 14 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/3107
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 371. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=976
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)