Conferência Popular da Glória nº 378

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 19/06/1881

Orador: João Manuel Pereira da Silva

Título: Nacionalidade, língua e literatura: Reinado de José I e o governo do Marques de Pombal

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Honrada com a presença de S. M. o Imperador, e perante numeroso auditório em que avultavam as senhoras, realizou-se ontem, no edifício das escolas públicas da Glória, a conferência de que se havia encarregado o Sr. Conselheiro Pereira da Silva, e que teve por assunto uma apreciação histórica sobre o reinado de D. José I e o governo do Marquês de Pombal.

Recapitulando o orador a situação da monarquia portuguesa no momento em que faleceu D. João V e empunhou o ceptro D. José, 1750, época em que o fausto e pompa da corte, os grandiosos edifícios construídos, os gastos feitos em Roma, as cerimônias das igrejas, os autos de fé, a influência jesuítica, as numerosas publicações em verso e prosa, a instituição de uma academia de história escondiam a podridão, a corrupção moral, a miséria, a mau gosto na literatura e a deturpação da língua, passou a tratar de D. José e do ministro que chamou para o auxiliar, o Marquês de Pombal.

Educado nas escolas francesas dos filósofos e enciclopedistas, e nas lições de Adam Smith e dos seus discípulos, que foram desenvolvendo a economia política, ciência nova que adquiriu logo prosélitos nas cortes e entre o povo, porque falava aos reais interesses particulares e públicos, o Marquês de Pombal começou a olhar para Portugal e a aplicar-lhe as reformas que julgou convenientes.

O regimen era perfeitamente absoluto: o rei era tudo, porque não se pensava mais em cortes, que D. Pedro II convocara poucas vezes por formalidade, e durante o longo e estragador reinado de D. João V, foram de todo suprimidas. Mas a autoridade regia encontrava oposições e obstáculos na nobreza e no clero, classes repletas de privilégios e imunidades, e formando com oque povos à parte e quase independentes.

Partidista do regimen absoluto, entendeu conveniente o marquês suplantar e anular estas duas classes que a vontade e poder do soberano tudo dominasse e dirigisse a seu talante.

Quando se entregava a suas lucubrações, ganhando cada vez mais a afeição do rei e impondo-se aos seus colegas do conselho ministerial, pela sua inteligência superior, alvitres enérgicos e perspicácia notável, tem lugar o terremoto de 1755, que reduziu a cinzas a cidade de Lisboa. A descrição das cenas deste cataclisma comoveu extraordinariamente o auditório e incitou seu maior interesse.

Para sobre as ruínas da capital levantar uma nova cidade, para fazer face à miséria geral, para reerguer o povo, para tirar até benefícios do portentoso desastre, provou o Marquês de Pombal que fora talhado pela Providência, como um gênio salvador. Daí por diante, o rei deu-lhe toda a confiança e influência, e o povo começou a admirá-lo, respeitá-lo e adorá-lo.

Começou então, todo poderoso, a governar como quis e entendeu. Começou a tratar dos gentios do Brasil, que reabilitou com providencias liberais. Fê-los cidadãos iguais aos Portugueses, restaurou-os na sua pela liberdade. Tratou depois dos impostos do ouro no Brasil, que acarretavam vexações tais, que os particulares nada ganhavam na sua indústria, e o governo via diminuir os seus lucros. Levantou companhias particulares para o comercio, navegação e exploração, uma para o Pará e Maranhão, e outra para Pernambuco e Paraíba, na intenção de desenvolver ali a agricultura, indústria e comércio. Passando a Portugal cuidou da indústria e agricultura, aquela reerguendo do seu abatimento desde o tratado de Metwen, coadjuvando suas fábricas, mandando vir operários franceses e italianos, e esta obrigando a dividir-se o solo pela plantação apropriada, fixando zonas para as vinhas, zonas para a oliveira, zonas para o trigo, e não permitindo que nelas de outra coisa se tratasse. Era o absolutismo ilimitado e violento, porque arrancava toda a liberdade individual e privada. Errado, mas próprio das ideias da época. No entanto, o marquês apreciava os negociantes e agricultores e industriais, concedia-lhes honras, e elevava-os para provar que não os nobres e clero somente, mas todas as classes e profissões mereciam favores, e eram iguais na concorrência do serviço do Estado: assim, igualmente acabou com as diferenças sociais políticas e civis entre cristãos velhos e novos.

Apóstolo da escola fisiocrática, à terra, ao solo principalmente deu importância o marquês, porque a agricultura é a base da riqueza, e uma nação precisa ser agrícola, industriosa e comerciante para prosperar, e não lhe bastavam clero e nobreza. Reformou a legislação civil, no sentido de igualar os direitos de todos, e extinguiu privilégios, modificando as leis de amortização, do direito de testar, dos bens de mão morta.

Ao descer da tribuna, foi o orador calorosamente aplaudido.”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 60, n.170, p.1, 20 jun. 1881 (resumo). Capturado em 14 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/3421

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 378. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=983

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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