Conferência Popular da Glória nº 382
Data: 17/07/1881
Orador: João Manuel Pereira da Silva
Título: Nacionalidade, língua e literatura: Reinado de José I e o governo do Marquês de Pombal
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença de S. M. o Imperador e perante numeroso auditório de senhoras e cavalheiros, fez ontem o Sr. Conselheiro Pereira da Silva, sobre o reinado de D. José I, e governo do Marquês de Pombal.
Antes, porém, ocupou a tribuna o Sr. Senador Correia que disse:
“Senhores. – É meu sincero desejo que entre as vantagens que se possam porventura colher desta tribuna conte-se a de nela ecoar o louvor a todo o cometimento que traga o brilho ao nome brasileiro, com uma saudação ao digno compatriota que o realizar. E não dou agora testemunho, pela primeira vez, desse ardente desejo.
Os benefícios à humanidade são sempre apreciáveis. Se a minha admiração e o meu aplauso são sempre os mesmos, há gradações no meu contentamento pessoal, conforme o benefício é feito no estrangeiro por estrangeiro, no Brasil, por brasileiro.
Neste último caso todos os meus votos ficam preenchidos.
É, portanto, com satisfação, que não pode ser maior, que julgo dever daqui saudar ao D. João Baptista de Lacerda, pelo humanitário benefício da sua descoberta de um antídoto contra a peçonha das cobras.
O estrangeiro repetirá d’ora em diante com reconhecimento o nome do benemérito brasileiro.
A este reconhecimento temos nós de reunir o especial sentimento do patriotismo satisfeito.
A luz clara da inteligência brasileira pode enfim penetrar na escuridão que envolvia o fatal veneno, e não só para conhecê-lo exatamente, mas para destruí-lo.
A glória conquistada pelo Dr. Lacerda, e glória resultante do laureado esforço do entendimento no sagrado empenho de arrancar vítimas à morte, é também glória do Brasil.
Ao infatigável obreiro da ciência as nossas cordiais e entusiásticas felicitações.”.
O Sr. Conselheiro Pereira da Silva dividiu e analisou as providências do marquês em sociais, políticas, econômicas, civis e religiosas, apontando cada uma delas nos seus diferentes ramos. O intuito do grande ministro foi nivelar todas as classes da sociedade, igualando-as perante a lei em deveres e direitos, e subordinando-as à ação e vontade absoluta do governo que de motu próprio e ciência certa quer e manda; aspirou igualmente o marquês a levantar o país da prostração em que se achava, relativamente ao comércio, à indústria, à navegação, às ideias, às ciências e às letras, afim de emparelhá-lo nos progressos com as outras nações europeias que o marques conhecia e estudara; nada lhe escapou ao espírito, providências sociais, políticas, econômicas, religiosas, civis não foram poupadas para modificar os costumes, índole e tendências dos ânimos.
Arrancou privilégios e imunidades à nobreza e ao clero para os abater; concedeu auxílios, proteção, direitos às classes populares para se elevarem. Para isso reformou a inquisição, extinguiu os autos de fé, igualou cristãos velhos e novos, libertou gentios, promoveu a indústria, o comércio, a navegação. Libertou as viagens para o Brasil dos comboios, ordenando que cada um navio particular saísse e entrasse quando quisesse, e ao mesmo tempo fazendo cessar a proibição de emigração para o Brasil. Instituiu companhias de navegação para Pernambuco e Pará, de vinhos de Alto Douro e fixou os terrenos para o plantio das parreiras e cereais. Modificou a administração financeira e a judiciária. Proibiu concessão de comendas vagas e direito hereditário aos empregos e ofícios públicos. Expeliu do paço os jesuítas, aos quais se mostrava sempre adverso, porque se educara na escola dos enciclopedistas franceses. Passou a censura dos livros e escritos e uma junta excepcional, arrancando-a aos inquisidores.
Não nos é possível acompanhar o orador na marcha metódica e clara com que expôs a história interessante de toda esta época e reinado, e que agradou e entusiasmou constantemente o auditório, às vezes enternecendo-o com as crueldades e barbaridades da execução das famílias Aveiro e Távora, que o marquês fez matar nos cadafalsos de Belém, e com as prisões e exílios de bispos, nobres e pessoas importantes; outras vezes eletrizando os ouvintes com expressões e linguagem elevadas que trazia sempre presa a atenção geral dos ouvintes.
Na opinião do orador há sombras e densas que enlutam a história desse período notável, barbaridades inúteis, cruezas que arrepiam, perseguições a bispos e padres inocentes, a nobres distintos e honrados, a burgueses honestos, sem forma de processos, sem sentenças, sem crimes conhecidos; a época concorria muito para esses atos monstruosos, a oposição que encontrava o marquês o incitava mais, e o seu caráter vingativo e inexorável o arrastava também. Não admitia resistência, má vontade, indiferença; havia-se-lhe de obedecer aparentando contentamento e aprovação.
Não se temia nem de governos estrangeiros, e nem do Papa, que ali gozava em Portugal do maior prestígio, força e influência, pelas ideias religiosas, pelo fanatismo ou pela superstição. Confundiu ultramontanos com verdadeiros religiosos, ateus com católicos e por sobre todos estendeu o poder absoluto, curvando-os a seu jugo. Não obtendo do Papa a sujeição dos jesuítas aos tribunais civis, expulsou-os da monarquia, embarcou-os e descarregou-os na Itália; cortou relações com o Papa e por si resolveu as questões religiosas. Felizmente que das suas tiranias e despotismos escaparam ideias de progresso sério e de liberdades, que no futuro prosperaram, plantou com o poder ilimitado a igualdade civil, sem talvez pensar que desta resultaria a liberdade política e a religiosa, a do pensamento e a da consciência, que aliás dir-se-ia querer ele manietar e extinguir totalmente.
O orador foi muito aplaudido e saudado ao descer da tribuna.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 60, n.198, p.1, 18 jul. 1881 (resumo). Capturado em 14 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/3603
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 382. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=987
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)