Conferência Popular da Glória nº 392

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 25/09/1881

Orador: Joseph Auguste Aristide Fort

Título: Fisiologia e hygiene aplicadas à medicina usual e ao alcance de todos: O sistema nervoso

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se ontem, na escola pública da Glória, na augusta presença de S. M. o Imperador, a primeira conferência do Sr. Dr. Fort a respeito do sistema nervoso.

Tratou particularmente de desenvolver ideias gerais sobre o sistema nervoso, reservando para depois o estudo especial das diversas partes que constituem esse sistema.

Disse que todos os animais têm um sistema nervoso, que existe no estado rudimentar dos animais inferiores, os quais não tem cérebro nem medula. Os vertebrados e o homem têm esse mesmo sistema nervoso, é verdade que mais desenvolvido, e que tem o nome de grande simpático; possuem, porém, além disso, o seu sistema nervoso cérebro-espinhal, composto dos centros nervosos e dos nervos.

Os centros nervosos compreendem o cérebro, o cerebelo, o bulbo raquidiano, e a protuberância anular, que estão contidos no crânio, e a medula espinhal, contida na coluna vertebral. Os centros nervosos não estão em contato com as paredes ósseas dessas cavidades de que se acham separados por membranas chamadas meníngeas, onde se desenvolve a inflamação denominada meningite; e também uma camada líquida que forma para os centros nervosos um banho permanente: esse líquido é o líquido cefalorraquidiano, que enche o intervalo que há entre a substância nervosa e a parede óssea.

Os centros nervosos compõem-se apenas de pardacento e branco. A parte pardacenta, substância pardacenta, forma-se de grande número de células nervosas, microscópicas, que se reúnem umas às outras por meio de delgados prolongamentos e formam no seu todo uma imensa rede. As células nervosas prendem-se umas nas outras, de sorte que, com toda a razão, pode-se comparar a parte pardacenta dos centros nervosos com uma imensa estação telegráfica, cujos fios os nervos representam. Demais, as células podem ser consideradas como pequenas estações comunicando-se entre si pelos filamentos que unem as células.

A parte subjetiva dos centros nervosos, a que dá o influxo nervoso, é a substância pardacenta.

A parte branca, substância branca, forma-se de fibras nervosas que unem entre si as células nervosas das diversas divisões dos centros nervosos, mas das diversas divisões dos centros nervosos, mas nenhuma dessas fibras se estende aos nervos. As fibras dos nervos que vão ter aos centros nervosos cruzam as precedentes para irem ter a um ponto de substância pardacenta donde aqueles nervos procedem.

Os nervos são cordões brancos, que se estendem dos centros nervosos aos órgãos. São 96 quando se desprendem dos centros nervosos, depois dividem-se, ramificam-se cada vez mais, como os ramos de uma arvore, para se distribuírem por todos os órgãos e partes de órgão.

Forma-se cada nervo de fibras independentes como os cabelos de um pincel; cada fibra, cada fio, vai de uma região do corpo a um ponto determinado dos centros nervosos. Umas transmitem as diversas impressões aos centros, nervos sensitivos; outras conduzem aos músculos o influxo do movimento, nervos motores.  

Quando se corta um nervo de movimento, a extremidade que se prende aos centros é insensível às excitações; a outra extremidade é excitável por toda a sorte de irritação, que provoca o movimento do músculo, ao qual vai ter o nervo.

Quando se corta um nervo de sensibilidade, a extremidade separada dos centros não é sensível às excitações; a irritação da extremidade que se prende aos centros provoca, pelo contrário, impressões dolorosas transmitidas pelo nervo sensitivo. Quando um nervo sensitivo é excitado em um ponto qualquer do seu trajeto, o doente atribui a sensação à extremidade do nervo. É coisa que se verifica quando se bate com o cotovelo em cima de uma mesa e quando se produz um entorpecimento do dedo mínimo; excitou-se o nervo cubital. Quando um amputado se queixa de dor em um pé que já perdeu, essa dor explica-se pela compreensão dos nervos sensitivos da perna pelo tecido da cicatriz.

A concorrência foi numerosa; e o orador, ao terminar, foi aplaudido pelo auditório.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 60, n.268, p. 1, 26 setembro 1881 (resumo). Capturado em 22 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/4057

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 392. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=996

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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