Conferência Popular da Glória nº 395

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 15/10/1881

Orador: Joseph Auguste Aristide Fort

Título: Fisiologia e higiene aplicadas à medicina usual e ao alcance de todos: A medula espinhal, suas funções e enfermidades

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Na escola pública da Glória, fez ontem o Sr. Dr. Fort uma conferência, discorrendo acerca da medula espinhal, suas funções e enfermidades de que pode ser acometida.

Disse que a medula espinhal, que vai da base do crânio à região dos rins, está situada na parte mais profunda da coluna vertebral. As enfermidades de que pode ser acometida não determinam nenhum sintoma apreciável pelo tato ou pela vista; manifestam-se apenas por turbações da sensibilidade e movimento nos pontos abaixa da parte doente. A medula, que é da grossura do dedo mínimo forma-se de um eixo pardacento e de uma superfície branca. A porção pardacenta é um montão de células que se prendem entre si em todos os sentidos correspondendo-se com os nervos do tronco; a parte branca é formada de fibras nervosas proprias da medula, e delas nervosas da parte inferior da medula e as das partes situadas mais acima.

Esta parte dos centros nervosos é formada por duas partes exatamente simétricas, cuja metade anterior é destinada aos movimentos, e a posterior à sensibilidade.

São diversas das funções da medula: 1º, transmite o influxo nervoso do cérebro para os nervos, e destes para o cérebro, como um grosso nervo misto; 2º é a sede de um grande número de movimentos reflexos, 3º encerra grande quantidade de centros de ações particulares, que mostram como se devem entender as localizações.

Se considerar-se a medula como um grosso nervo, vê-se que a parte posterior deste órgão, os cordões posteriores, excitam-se ao modo de um nervo sensitivo e que a corrente nervosa, dirige-se para o encéfalo. Em uma medula dividida, a parte inferior desses cordões é insensível; a parte superior, que fica ligada ao cérebro, é, pelo contrário, dotada de grande sensibilidade. Conquanto esses cordões sejam sensíveis, não transmitem ao cérebro a sensibilidade dos nervos dos membros e do tronco: é ela levada ao cérebro pela substância pardacenta. Esta, se bem que seja o órgão de transmissão da sensibilidade, é insensível e não pode ser excitada.

A parte anterior da medula obra como um nervo motor; e a corrente nervosa ali faz um trajeto de cima para baixo. Essa parte conduz aos nervos dos membros e do tronco o influxo nervoso do movimento. Uma seção transversal da medula interrompe toda a comunicação entre o cérebro e as partes situadas abaixo da seção, pelo que estas ficam paralisadas de movimento e de sensibilidade. Esses fenômenos constituem a paraplegia; indicam uma ruptura, uma compressão da medula nos doentes, uma interrupção do fluído nervoso ascendente e descendente.

Considerando que a medula é uma rede de movimentos reflexos, estes são automáticos, neles não entra à vontade, como o Dr. Dr. Fort mostrou em uma galinha com a cabeça cortada: a ave, atirada ao ar, voa automaticamente, pela ação da medula, mas sem direção, sem vontade, porque não tem cérebro. Para que os nervos sensitivos e motores, bem como a substância pardacenta correspondente fiquem intactos. Se qualquer desses fatores estiver destruído, não se dá a reflexão, ou mal se produz. É o que se observa na atrofia muscular progressiva e na paralisia das crianças em que as células nervosas que transformam as impressões em movimentos estão destruídas ou em via de destruição.

A medula está cheia de centros de inervação, formados por grupos de células nervosas; cada nervo tem o seu centro, e por conseguinte cada grupo de músculos tem o seu centro perfeitamente definido. O movimento de dilatação da pupila tem o seu centro de ação na medula, na parte inferior do pescoço. Não é localização no primeiro ponto. Essa é ainda mais curiosa e mais completa no bulbo raquidiano, de que o orador se ocupara na próxima conferência.

Ao terminar foi muito aplaudido.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 60, n.289, p. 1, 17 outubro 1881 (resumo). Capturado em 22 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/4199

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 395. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=999

 


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