Conferência Popular da Glória nº 400.1

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 20/11/1881

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Uso e abuso do tabaco: Relação íntima entre o nicotismo e o alcoolismo; quais os meios de opor-se ao abuso do fumo.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Conferência feita à 22 de novembro de 1881, na augusta presença de S. M. o Imperador.

Senhor, minhas senhoras, meus senhores:

Na minha passada conferência esforcei-me por demonstrar-vos que a nicotina exerce uma influência das mais perniciosas sobre os grandes órgãos, e aparelhos da nossa economia; fiz ver que o estomago, os pulmões, o coração, o sistema nervoso geral, os órgãos especiais dos sentidos, o aparelho destinado à reprodução da espécie, todos ressentem-se dos efeitos do nicotismo, de forma aguda ou crônica.

Apoiei-me sempre no testemunho irrecusável de homens notáveis pelo saber e pela probidade cientifica, como Vulpian, Peter, Villemin, Léon Collin, Lagneau, e outros muitos. Apresentei-vos fatos dignos de séria meditação, observações perfeitamente colhidas por autoridades insuspeitas, julgando-me, portanto, com direito de supor que deixei cabalmente demonstrada a tese que vos anunciara.

Na conferência de hoje, meus senhores, espero poder provar-vos que há uma perfeita relação, um verdadeiro paralelismo entre o alcoolismo, e o nicotismo; um destes males traz como consequência necessária o outro, e é justamente por isso que nestes últimos tempos tem aumentado de modo assustador o consumo do álcool e do tabaco.

Apresentar-vos-ei observações e fatos, com os quais corrobore a minha argumentação, pois que o assunto é todo prático, e não admite divagações inúteis.

Começarei a pedir-vos permissão para ler alguns trechos, extraídos dos autores modernos, que melhor se tem ocupado com esta matéria.

O ilustre Dr. Percy, cirurgião-mór do exército francês, diz, tratando dos fumantes inveterados:

“São homens em geral gastos, nutrem-se mal, não acham sabor em nenhum alimento, e tem sempre sede, d’onde a necessidade das bebidas espirituosas fortes.”

Mr Beaugrand diz:

“O tabaco provoca sede habitual, e d’aí a tendência dos viciosos a procurarem os botequins e as tavernas.”

O Sr. Dubois, autor de uma interessante memória a respeito do abuso do tabaco, assim se exprime referindo-se aos botequins:

“São verdadeiros laboratórios da preguiça, lugares inconvenientes, onde apenas há um único prazer – fumar e beber.”

Dupuytren, nome universalmente respeitado, tratando dos fumantes diz o seguinte:

“O fumante isola-se, longe da família, nos botequins, esquecendo os seus mais sagrados deveres; que terrível imposto, que absorve o tempo, a fortuna e o trabalho!”

O Dr. Decaisne, que entregou-se a minuciosos estudos a respeito dos efeitos tóxicos do tabaco reconheceu que:

“A maior parte dos meninos que fumam manifestam uma tendência muito pronunciada para o uso de bebidas espirituosas fortes.”

O álcool vive com o tabaco em intimas relações, diz Jolly; entram em larga escala pelos nossos costumes, e exercem em comum funesta influência sobre a saúde pública, sobre a sorte do indivíduo, e sobre os destinos das nações.

“Se abusando dos alcoólicos e do tabaco crê o individuo que apenas prejudica a si próprio engana-se, diz Balzac, porque a ação dos dois venenos álcool e nicotina estender-se-á a seus descendentes.”

Quando o tabaco não mata no todo, mata em parte, diz Pelletan, sobretudo quando de concerto com o álcool, seu inseparável camarada. O Dr. Notta, em seu excelente trabalho intitulado Algumas reflexões sobre o tabaco nos diz:

“Além dos inconvenientes do narcotismo contínuo, que muito embaraça os trabalhos do espírito, os fumantes têm ainda a temer a inclinação para as bebidas fermentadas, que tornam-se para eles uma necessidade não menos imperiosa que a primeira, por causa da secura que a fumaça do tabaco determina na boca. Há, pois, nisso um perigo talvez maior que o do tabaco, porque chega-se fatalmente por um tal plano inclinado ao alcoolismo, origem de terríveis males.”

“Beber excita a fumar; fumar excita a beber, diz o Dr. Bellencontre; é indispensável, pois, atacar fortemente os dois vícios. Não esqueçamos que o nicotismo é o padrinho do alcoolismo, e que ambos, além do mal que fazem ao organismo, concorrem para a degradação moral do indivíduo. Procuremos remédio para esta dupla epidemia na reforma dos costumes, no apelo às virtudes privadas, cultivadas no seio das famílias, e não olvidemos nunca este imutável princípio, tão antigo quanto universal, a saber: que a moral é o primeiro fundamento da higiene, o seu mais solido alicerce.” M. Rion, em seu pequeno livro contra o – abuso do tabaco e das bebidas alcoólicas – apresenta uma estatística que, com ser pequena, não deixa de ser curiosa:

“Em França, diz ele, dez milhões de indivíduos frequentam as tavernas e os botequins; aí aniquilam-se as suas faculdades intelectuais e desaparecem as forças físicas, perdendo: 1º, o tempo; 2º, o dinheiro gasto com o fumo, e 3º, com as bebidas alcoólicas. Essas despesas – termo médio de um franco por dia – representam uma perda cotidiana de dez milhões de francos, que afeta mais particularmente as classes operárias. Assim, a taverna e os botequins são das principais causas da miséria, e das tristes consequências que d’ela derivam.”

O Dr. Knox diz:

“O uso do tabaco nos leva fatalmente ao das bebidas alcoólicas, que excitam à dissipação.”

O Dr. Antonio Bossu consigna a citação seguinte, em seu tratado de Antropologia:

“O uso do fumo pode conduzir ao vício degradante da embriaguez, e eis a razão: O estímulo constante que o tabaco produz na boca acaba por torna-la insensível à doce excitação dos alimentos; as pequenas glândulas encarregadas do fornecimento da saliva necessária para envolver o bolo alimentar atrofiam-se, nada mais fornecem; e como a ação deste líquido é indispensável à digestão resulta de sua supressão inoportuna que a natureza, que vela sempre pela sua obra, incita à sede e quer de preferência para satisfazê-la as bebidas as mais estimulantes.”

Peço-vos agora permissão para ler-vos o discurso proferido pelo Dr. Bouley, em uma das sessões solenes comemorativas da fundação da Associação Francesa contra o abuso do tabaco, da qual era presidente. É uma peça magistral, e que certamente há de captar a vossa atenção. Acha-se publicado esse discurso em um dos números do Jornal, mantido pela mesma Associação. Diz o Dr. Bouley:

“A sociedade que tenho a honra de presidir tem-se empenhado galhardamente em uma luta heroica contra uma força poderosa, a qual infelizmente se tem curvado a vontade humana: a força de um hábito contraído a princípio por imitação, e que torna-se depois uma necessidade tão imperiosa que domina àquele que a experimenta. Terei, porventura, necessidade de dizer que quero referir-me ao hábito de fumar? Por que é que se fuma? Primeiro porque se viu fumar, e depois porque fumou-se uma vez. Mas corresponderá tal hábito à uma necessidade real, fisiológica, como são as de comer e beber: a fome, e a sede? Não, mil vezes não! É essa uma exigência toda especial, que por ser artificial, não deixa de ter o seu domínio duradouro, uma vez que aquele que a ela se sujeita não tem a força de vontade precisa romper para o apertado círculo, em que se vê metido. Analisarei esse singular fenômeno em poucas linhas, e com perfeito conhecimento de causa: porque pela afeição que votava a um seu mestre e amigo procurava sempre, imitá-lo, e esse mestre fumava incessantemente nas salas de dissecção de Alfort, de sorte que eu em pouco tempo, e apenas com a idade de 18 anos, já se igualava, se não excedia. Só deixei completamente de fumar em 1866, após 34 anos de experiencia, que dão-me sem dúvida o direito de poder falar sobre o assunto.”

O hábito de fumar, continua Bouley, torna-se em pouco tempo uma necessidade, e esta, posto que fictícia, imaginária, sem ligação com a funcionalismo fisiológico do organismo, não deixa, todavia, de ser a expressão de um apetite a que não pode furtar-se o fumante, pois que ele torna-se indispensável à sua atividade.

“Falemos mais claro: aquele que fuma introduz no sangue o elemento essencial, que dá ao fumo as suas propriedades especiais, isto é, a nicotina, a cujo lado se encontram outros princípios muito ativos, revelados pela análise química. Incorporada no sangue a nicotina, a princípio ativo do tabaco, exerce sobre o cérebro a sua ação própria, que é a princípio estimulante, de sorte que aquele que habitua-se a trabalhar fumando, uma vez que lhe falte o fumo, empunha a pena, mas faltam lhe as ideias! Falta-lhe o excitante do cérebro, sem o qual as faculdades não se despertam. O fumante pede inspiração ao tabaco, e muitas vezes a ideia dos novelos de fumo que o envolvem! E este não é um fato só particular ao tabaco; quando o individuo habitua-se a um excitante especial, como o vinho, o ópio, as bebidas brancas, certos medicamentos de diferentes ordens, o organismo não os pode mais dispensar – carece deles como necessita dos alimentos e bebidas. Em qualquer das hipóteses é preciso que as necessidades sejam satisfeitas, a fim de restabelecer-se o funcionalismo orgânico. O que falta ao fumante, privado do tabaco, é a reintegração no sangue do seu princípio ativo, da nicotina, que se tem tornado como que um elemento necessário do mesmo sangue, assim como aquele que faz uso de bebidas espirituosas fortes tem necessidade para recuperar as suas aptidões intelectuais de que o seu sangue contenha o título alcoólico indispensável para que o seu cérebro entre em atividade.

Há na verdade uma aproximação deplorável entre o fumante fortemente vicioso e ébrio; é a consequência lógica da similitude de ação dos dois terríveis venenos – álcool e nicotina.

Se o uso do tabaco pudesse ser convenientemente moderado, esse singular hábito que os selvagens da América infligiram como um castigo à civilização, necessidades fictícias crescerem sempre, porque o hábito amortece a sensibilidade, e para excitá-la é mister recorrer-se a doses cada vez mais fortes do excitante usado. Quem bebe continuará a beber, e cada vez mais; quem fuma fumará cada vez mais, sendo que há fumantes que nunca apagam o cigarro, charuto ou cachimbo; só os deixam quando vítimas do sono, e logo que despertam é a primeira coisa que procuram.

Mas não é impunemente que se violentam as leis da natureza, modificando-se a composição normal do sangue pela introdução de um elemento estranho, que incessantemente renovado tornasse-lhe como que uma parte intrínseca. O aparelho encefálico acaba por alterar-se profundamente, sobrevindo graves desordens, cuja triste enumeração deixarei de fazer agora.

Devo confessar que deposito pouca confiança nos conselhos que se possam dar aos que abusam do fumo; menos ainda confio nas ameaças, porque em nada disso se crê enquanto se não tem feito a experiencia pessoal, graças à qual se reconhecerá a verdade em todo o seu esplendor.

Mas, porventura, devemos por isso deixar de esforçar-nos cada vez mais para combater tão pernicioso vício? Longe de mim tal pensamento – mas é que conto mais com a ação dos meios que empregamos – escritos, conferências públicas, etc., não para o presente, e sim para o futuro, porque é muito difícil acabar-se de chofre com um hábito inveterado, como é pelo contrário fácil impedir-se que tal hábito seja adquirido: é o caso de dizer-se antes prevenir que curar.

O que é preciso antes de tudo, continua o ilustre médico, é que os jovens sejam desviados do contágio dessa epidemia; as mulheres poderiam auxiliar-nos muito, se quiserem, nessa difícil tarefa. As palestras familiares d’outr’ora, tão animadas e encantadoras, tendem a desaparecer da sociedade atual, imperando o tabaco como senhor absoluto! O gabinete de fumar faz terrível concorrência aos salões; era esse gabinete quer dizer – separação dos dois sexos -, cessam as conversações, a troca de ideias, d’onde o prazer e a instrução para todos. Os homens nas salas próprias para os fumantes falam sem nenhuma reserva, porque sabem que as senhoras estão longe; estas sequestradas, sós nos salões, conversam insipidamente, pois não tem cavalheiros que ponham em contribuição os encantadores recursos de seu espírito feminil. E temos assim um verdadeiro divórcio e de graves consequências para a constituição moral das famílias e, portanto, da sociedade, porque ou bem o indivíduo há de procurar nos salões a boa roda, a conversação das senhoras, ou há de ocultar-se nos gabinetes de fumar e jogar, não há meio termo. E será coisa muito para lamentar-se um dia, talvez não muito remoto, triunfar completamente o vício, destruindo os nobres sentimentos da delicadeza e do trato social”.

E Bouley termina o seu notável discurso, fazendo um apelo às senhoras nestes termos:

“Notai bem, minhas senhoras, que o vício vai arrastando a todos, e vos achais cada vez mais ameaçadas de perder o cetro que vos legaram as vossas antepassadas, isto é, estais ameaçadas de serdes destituídas por um odioso usurpador da vossa legendária influência sobre a moral e o espírito dos povos! É mister a luta para a restauração do vosso império, que tende a declinar, e não vos esqueçais jamais do velho adágio que diz: a mulher para vencer basta querer, pois tem Deus por cumplice.”

Ora, meus senhores, parece que Bouley escreveu de proposito para o nosso país! E na verdade fazem-me a honra de ouvir neste momento muitos distintos moços, e também honrados chefes de família, cujo testemunho invoco sobre o que se passa na nossa sociedade. O que são, na realidade a maior parte das nossas reuniões, das nossas soirées? Haverá nelas essas animadas e encantadoras conversações, a troca de ideias proveitosas entre damas e cavalheiros, o prazer, a alegria verdadeiramente familiares dos tempos d’outr’ora? Em geral não há. Os moços ocultam-se nos gabinetes, onde vão fumar, ou jogar, deixando as senhoras inteiramente sós nas salas, conversando umas com as outras sobre as modas de Paris, sobre o ultimo figurino, sobre o folhetim do Jornal, etc! Quer-se formar uma quadrilha surgem logo sérios embaraços! Os rapazes acotovelam-se nos corredores, e é preciso que o chefe da casa, ou alguma pessoa idosa intima, os vá arrancar de lá com muito custo; limitam-se a espiar, recuando para os gabinetes, logo que o pianista dá o sinal! E assim, um do outro mais influído desanima, e não há mais meio de dançar-se. Esta é a verdade, só ignorada d’aqueles, que porventura nunca frequentaram reuniões tais. E uma das causas mais poderosas dessa falta de delicadeza, e trato social, é o vicio de fumar, contra o qual nunca será muito bradar com todas as forças. É o que tenho feito, e continuarei a fazer, ainda que porventura incorra no desagrado dos interessados. Conquanto receie abusar da vossa benévola atenção, não posso deixar de ler-vos também uma interessante carta, dirigida ao Dr. Bouley, presidente da Associação contra o abuso do tabaco, por uma ilustre escritora francesa, a quem Bouley pedira que o auxiliasse com o seu talento e influência feminina na propaganda contra o tabaco. Eis a carta:

“Senhor diretor,

Dirigistes-me um honroso convite para que eu continue a pregar contra o abuso do tabaco; aceito cheia de prazer esse convite, mas não me dirigirei mais aos homens, porque não há eloquência capaz de convence-los neste assunto; porém às minhas caras leitoras, às mães, que procuram sempre salvar o marido que adoram, os filhos que são o seu enlevo, e que sabem educar como ninguém; às belas jovens, cujos corações afetuosos acharão palavras que persuadam, e carícias que façam ceder, mesmo aos mais teimosos. É com elas que desejo conversar a respeito do fumo, o inimigo declarado da nossa felicidade. Há 50 anos que o uso do tabaco, esse sinistro desconhecido, introduziu-se em nossos costumes; o hábito de vermos fumar todos os dias faz com que deixemos que nossos filhos se entreguem a esse vício desde a idade de 8 ou 12 anos, sem refletirmos na funesta influência que isso pode ter sobre eles. Essas pobres vítimas têm garbo de igualarem aos homens já traquejados no vício!

É o que eles mais desejam, e, no entanto, essa é a túnica de Nessus, que os devora.

Notai educadores, e mães, que esses meninos viciosos tornam-se antipáticos ao estudo, preguiçosos, insubordinados à autoridade paterna, rebeldes à toda a ideia de ordem, de disciplina! Bastam alguns anos de efeito pernicioso do tabaco sobre esses organismos infantis para esterilizarem e destruírem tudo o que a civilização, a educação da família, e o ensino das escolas haviam implantado de bom nessas jovens almas, que degradam-se até aos maus instintos!

É desta classe de degenerados e viciosos que saem geralmente os vagabundos, os ladrões, os falsários, e mesmo os assassinos. Fica-se assombrado diante do grande número de adolescentes condenados pelos tribunais; é que o efeito desorganizador do tabaco sobre os seus jovens cérebros destrói o sentimento da moral, ao mesmo tempo que corrompe a saúde, aniquilando as forças físicas. Quem poderá explicar porque o suicídio, a loucura, e as mortes súbitas são tão frequentes em nossos dias?

Para mim não há dúvida que a causa é muitas vezes a intoxicação do organismo pelo fumo, porque sua ação é profunda e contínua sobre o sistema nervoso, d’onde o amolecimento do cérebro, e da medula espinhal, as paralisias, e a velhice prematura.

Mas exemplifiquemos o que havemos dito. Suponha-se que um jovem artista de grande talento, escrito notável, não pode trabalhar sem fumar, e por isso fuma durante todo o dia, e todas as horas, a todos os instantes; e suponha-se ainda mais que o nosso artista e escrito é republicano, sem que queiramos com isto fazer política. Sendo republicano deve ter ideias elevadas, sonhar com todas as liberdades possíveis, a liberdade da mulher, dos povos, das nações! Pois bem esse pobre escravo não tem força de vontade e de energia para libertar-se do vicio primeiro, e pregar depois com o exemplo as outras liberdades? Paga indiretamente pesados tributos ao estado, e caminha a largos passos pra as moléstias, que podem resultar do nicotismo, ou então para a loucura, para o suicídio, ficando enfim com o cérebro embotado, e parecendo um creoulo, apesar de nascido em França! Eis até onde nos pode levar o abuso do fumo.”

É bastante eloquente, senhores, o testemunho dessa ilustre dama francesa para que eu procure comentá-lo; deixo à esclarecida razão de cada um de vós a apreciação do que há de verdade em suas palavras, que devem calar no animo de todos, e mormente dos pais de família, e dos educadores da mocidade inexperiente, para que procurem desviá-la por todos os meios possíveis do abismo sempre pronto a traga-la. Prevenir sempre, desviar os incautos do perigo, eis a grande norma a seguir-se nesta questão, como em todas quantas possam afetar as forças físicas e morais da sociedade.

Poderia apresentar-vos, senhores, ainda muitas outras citações, das quais se infere clara e positivamente que é perfeita e intima a relação que existe entre os dois nefandos vícios, de que me tenho ocupado. Mas julgo isso desnecessário, uma vez que acabais de apreciar qual a opinião concorde de tantos homens ilustres e competentes, os quais todos fizeram estudos especiais sobre o assunto.

Passarei, portanto, à segunda parte da minha tese, assim concebida: quais os meios a empregar-se para obter-se a diminuição do consumo do tabaco, senão mesmo a completa cessação do uso desta substância tóxica?

Os meios, meus senhores, lembrados pelos autores são três principais: 1º, difusão das luzes a respeito da nocuidade do tabaco, por meio de escritos, conferências públicas, e sermões; 2º, aumento progressivo do imposto sobre tal produto; 3º, substituição do fumo por uma outra planta da mesma família botânica, mas que não contenha nicotina, nem qualquer outro alcaloide venenoso. Por este último meio se satisfaria aqueles que de todo não pudesse deixar de fumar.

Quanto ao primeiro recurso apontado é intuitiva a sua grande vantagem; não é necessário que eu procure demonstrar-vos que a propaganda por meio da palavra, ou dos escritos é de imenso alcance; isto está na consciência de todos vós.

Relativamente ao segundo – aumento progressivo do imposto – permiti dizer-vos que não creio muito na sua eficácia, porque os seus resultados têm sido até hoje negativos; depois para tornar efetiva tal medida encontra-se dificuldades de todo o gênero. Surge logo a grita descompassada dos interessados, d’aqueles que fazem do fumo, ramo exclusivo de negócio, e não raro os poderes públicos têm de atender à essa grita, triunfando assim o interesse particular de alguns sobre o grande interesse geral da nação.

A respeito do imposto sobre o tabaco é curioso, senhores, lembrar-vos alguns fatos históricos, que certamente despertaram a vossa atenção, sempre tão benévola para comigo.

O fumo, logo após a sua introdução em França, foi considerado como droga farmacêutica, e só podia ser vendido nas boticas; aqueles que sem serem boticários vendiam o produto ficavam sujeitos à pena de açoites na praça pública. As coisas continuaram assim que Richelieu, sendo ministro, suprimiu a pena corporal, e criou então um imposto sobre a venda dessa droga. Imposto a principio mínimo foi sucessivamente aumentando, e é notável a estatística a este respeito apresentada pelo Dr. Gafard, que passo a ler-vos:

Em 1636 imposto sobre o fumo produziu apenas 50 mil francos

Em 1750 chegou já a produzir 16 milhões de francos
Em 1815 produziu 27 milhões de francos
Em 1844 elevou-se a 80 milhões de francos
Em 1850 elevou-se a 122 milhões de francos
Em 1865 elevou-se a 200 milhões de francos
Em 1868 elevou-se a 247 milhões de francos
Em 1869 elevou-se a 255 milhões de francos
Em 1870 elevou-se a 260 milhões de francos
Em 1515 produziu 27 milhões de francos
Em 1515 produziu 27 milhões de francos
Em 1515 produziu 27 milhões de francos
Em 1515 produziu 27 milhões de francos
Em 1515 produziu 27 milhões de francos

Como esta há outras estatísticas que demonstram que o consumo do tabaco se vai fazendo cada vez em maior escala em quase todas as partes do mundo, sendo necessário, portanto, por um paradeiro a esse grande mal, verdadeira calamidade sob o tríplice ponto de vista econômico, social e moral.

O Dr. Gaffard, em sua excelente monografia intitulada Do tabaco, sua história e propriedade, pensa que se conseguiria muito tributando o fumo da seguinte maneira:

“Dever-se-ia aumentar gradualmente todos os anos o imposto sobre o tabaco. Pensamos que pagando-se atualmente 10 francos por cada quilograma desta substância este tributo deveria ser gradualmente elevado à 15, 20, 25 francos, etc., estabelecendo-se assim uma progressão aritmética, tendo por base o n. 5, de modo a atingir-se em 10 anos o preço de 60 fr., e em 18 anos, o de 100 fr., além do qual não seria permitido ir; assim criar-se-ia um poderoso obstáculo ao uso de um produto tão nocivo à saúde, quanto contrário à moral e à economia."

Mas, senhores, como já vos disse não creio na eficácia do imposto para obter-se diminuição no consumo do tabaco, porque não é vexando, perseguindo, onerando em demasia os que se ocupam em tal indústria que havemos de conseguir bons resultados, e sim procurando convencer com a eloquência positiva dos fatos e dos algarismos, doutrinando com a palavra e com o exemplo.

A terceira medida apontada é a que me parece de grande alcance, isto é, a substituição do fumo por uma outra planta inocente da mesma família das sonolaceas, ou solaneas há algumas que tem o mesmo aroma nas folhas, e porventura o mesmo gosto que se encontram nas de fumo, sem que, no entanto, contenham nicotina, nem alcaloide algum venenoso. Neste caso estão: a solanum nigrum, ou berinjela, que até possui um princípio ligeiramente calmante; a solanum dulcamara, a doce amarga que goza de propriedade depurativas; a solanum melongena ou erva moura; o solanum lycopersicum, ou tomate; e enfim a solanum tuberosum, ou batata. As folhas destas plantas preparadas como o são as do tabaco, pelos mesmos processos, prestam-se perfeitamente aos mesmos usos, sem o inconveniente de conterem em si qualquer princípio toxico.

Assim pois os viciosos, que não tivessem a força de vontade precisa para libertarem-se do vício, que fossem surdos aos justificados clamores da imprensa e da tribuna, teriam esse recurso, ao menos fariam uso de substâncias quase inertes, e até algumas de vantagens para a saúde.

O Eucalyptus, planta maravilhosa, e que se presta a tantas indicações uteis, também tem sido apontado pra substituir o fumo, e oxalá quisessem tornar essa lembrança uma realidade. No mesmo caso está o chá da Índia, fumado nos Estados Unidos, e mesmo entre nós por alguns indivíduos.

A vista do exposto, senhores, haveis de convir comigo que não há uma razão forte, um motivo plausível que justifique o enorme consumo que se faz do fumo em toda a parte.

Mas, dir-me-ão, é um produto do nosso país, uma das nossas principais fontes de renda, e pregar contra ele é empresa por demais anti-patriótica. A isto responderei que em primeiro lugar está a saúde dos povos, e o seu bem-estar, a sua força física, o seu engrandecimento moral; e desde que ninguém é capaz de capaz de contestar seriamente e com dados positivos que o tabaco é uma verdadeira calamidade, a origem de inúmeras moléstias, uma das causas da degradação física e moral das sociedades modernas, é óbvio, intuitivo que combater o uso e abuso de semelhante produto é prestar um relevante serviço à humanidade. E, pois, um mal-entendido sentimento de patriotismo não nos deve servir de obstáculo à livre propaganda contra uma das plantas mais tóxicas que se conhece, e que por uma dessas fraquezas do gênero humano tem sido por alguns exaltada e preconizada!

Nos terrenos onde hoje se planta o fumo em larga escala, cultive-se um outro vegetal mais útil, e que se torne igualmente poderosa fonte de renda; cultive-se, por exemplo, o trigo, que produz perfeitamente em algumas das províncias do nosso vasto império.

Assim tenho respondido ligeiramente à censura que porventura se me quisesse irrogar de falta de patriotismo, pois que é justamente guiado unicamente pelo amor da pátria, tendo em mira o bem-estar, e a saúde dos meus concidadãos, que me tenho apresentado tantas vezes nesta tribuna, defendendo causas das mais nobres e santas. Hei de continuar, senhores, até que tenha esgotado completamente o assunto; não há recuar na luta da verdade contra o erro, da virtude contra o vício. De falta de patriotismo, de fraqueza poderia ser eu acusado, se porventura recuasse, abandonasse a tarefa que voluntariamente tomei sobre meus débeis ombros, só porque alguns interessados, que com ciência ou sem ela fornecem constantemente veneno às populações, se me antepusessem, procurando enterpecer-me a marcha. Desejo a luta no terreno da ciência, venha ela, e veremos quem colherá a palma da vitória.

(Vivos e repetidos aplausos acolhem as últimas palavras do orador, que é cumprimentado por S. M. o Imperador).".

Localização

- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. Conferencias effectuadas na Escola da Gloria. Rio de Janeiro: Typographia e Lithographia a vapor, Encadernação e Livraria Lombaerts & C., 1882, pp. 33-51. (íntegra) (IHGB)

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 400.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 18 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1114

 


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