Conferência Popular da Glória nº 410

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 11/06/1882

Orador: Manoel Francisco Correia

Título: Batalha do Riachuelo

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Coube ao Sr. Conselheiro Manoel Francisco Correia a feliz oportunidade de subir ontem, à tribuna das conferências populares por ele instituídas na escola pública da Glória, para rememorar o brilhante feito d’armas que, no dia 11 de junho, há dezessete anos, nas águas do Riachuelo, cobriu de glória a marinha brasileira.

Pouco depois das 11 horas da manhã havendo chegado S. M. o Imperador, acompanhado do seu semanário, o Sr. Visconde do Bom Retiro, tomou a palavra o Sr. Conselheiro Correia, no meio de profundo silêncio de numeroso auditório.

Ia-se ouvir a leitura de uma página das mais belas de nossa história, aquela que contém a narração do grande combate ferido logo ao começar a guerra contra o Paraguai, grande em si pela novidade da resolução que tomou o chefe das nossas forças navais em Riachuelo, Francisco Manoel Barroso, e pelos atos de bravura que ali se praticaram, e grande também pelas consequências de tão assinalada vitória como a que então foi alcançada.

Essa página dos anais brasileiros ia ser lida pela voz patriótica do senador Correia, que naquela mesma tribuna ainda não deixou de saudar o nome de qualquer brasileiro que se distinga das artes, nas letras ou nas ciências.

A missão, embora elevada, estava nas forças de quem dela se incumbira.

Por espaço maior de uma hora, o Sr. Conselheiro Correia manteve suspensa a atenção do auditório.

Depois de breve exordio, recordando que a ação se travara em um domingo e quase à mesma hora que aquela em que subia à tribuna, o orador descreveu o lugar do combate, as dificuldades que o rio apresentava às manobras dos navios brasileiros a posição vantajosa em que se colocaram os vasos paraguaios, protegidos por uma bateria de terra. Disse como o chefe da divisão brasileira hesitara por um instante entre esperar o ataque no lugar onde se achara, ou descer a provocar o inimigo, preferindo este último alvitre que melhor correspondia ao ardor que divisara em seus companheiros d’armas.

Narrou a descida da divisão, indo na frente a Belmonte e enumerou os vasos de guerra brasileiros, citando os nomes de seus respectivos comandantes. Pintou com traços rápidos, mas enérgicos, o combate que se travou com inteligente denodo, de uma parte, com cego fanatismo da outra, e como a fragata Amazonas, transformada, por súbita inspiração das forças brasileiras, em poderoso aríete, arremeteu contra os Paraguaios, por sob uma chuva de balas e metralha, destruiu os melhores vapores inimigos, decidindo da vitória.

Não esqueceu o orador os principais episódios daquela tremenda luta, a abordagem dada à Parnahyba, a pugna extrema que ali se travou, e com palavras eloquentes lembrou os nomes do malogrado e bravo Greenhalgh e do humilde herói Marcílio Dias, que pagaram com o seu sangue a vitória completa que seus companheiros ganharam, não permitindo que o pavilhão auri-verde fosse poluído pelas mãos paraguaias.

Recordou também os nomes de outros bravos, que tanto honraram o nome brasileiro naquele dia, e entre eles os de vários oficiais do nosso exército.,

Referindo-se aos mais célebres combates navais que a história registra, mostrou como sempre tiveram eles por consequência impedir que a onda barbara submergisse a civilização. Assim também em Riachuelo, onde os brasileiros acharam-se sós, fizemos recuar as valorosas, mas fanatizadas, hostes do bárbaro ditador do Paraguai.

Descrito o combate, rendido o preito devido à valentia e ao patriotismo, o orador lembrou o entusiasmo que nesta corte despertou a notícia da grande vitória; a indicação do então deputado Manoel Pinto de Souza Dantas para que se consignasse na ata daquela sessão o aplauso dos representantes da nação; as palavras eloquentes do deputado Fernandes Moreira propondo que se levantasse a sessão e o brado que rompeu com força invencível dos lábios do deputado Lima Duarte em honra da marinha brasileira.

Citou ainda alguns trechos do ofício em que o chefe da missão especial, o conselheiro F. Octaviano, deu conta ao governo imperial do procedimento glorioso das forças brasileiras, e leu, por fim, a parte dada pelo comandante da divisão no dia seguinte ao combate.

Repetindo as primeiras palavras desse documento:

“Não fizemos tudo quanto desejáramos, mas fizemos tudo quanto podíamos.”, o Sr. Conselheiro Correia disse que esta singela frase, nobre exemplo de modéstia depois de tamanho feito, devia ser sempre lembrada como mote sagrado, como divisa dos defensores dos interesses e da honra do Brasil.

O orador concluiu a sua eloquente peroração no meio de entusiásticos aplausos do auditório, e foi, ao descer da tribuna, abraçado por quase todas as pessoas presentes.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 61, n.162, p.1, 12 jun. 1882 (resumo). Capturado em 13 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/5777  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 410. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1016

 


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