Conferência Popular da Glória nº 414

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 23/07/1882

Orador: Antonio Coelho Rodrigues

Título: <IA crise econômica

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se ontem a 413ª conferência, ocupando a tribuna o Sr. Dr. Antonio Coelho Rodrigues, que tratou da crise econômica.

Aludindo a um compromisso que tomara com o Sr. Senador Correia, justificou a escolha do seu assunto, dizendo que não receava revolução política em um país que tem imprensa e tribuna livres, nem revolução religiosa no meio da nossa indiferença geral; mas receava a revolução econômica, porque as despesas públicas vão crescendo n’uma proporção assustadora, e a opinião acredita que os impostos não são lançados com equidade, nem aplicados devidamente.

Receia do futuro do país, porque o vírus do socialismo parece tê-lo invadido desde a massa dos governados até as classes dos governantes. Vê excesso de liberdade ao lado do excesso de poder: liberdade sem péas, mas sem garantias – poder sem limites definidos, mas também sem eficácia na sua ação.

“No Brasil, exclama o orador, tudo se pede e tudo se espero do governo – e o governo promete tudo - até capitais, que não pode formar pela magia branca e braços que ele não pode criar pelo segredo perdido de Deucalião.”.

O governo, que tudo promete, vai adiando as promessas que não pode cumprir, e as indústrias, que tudo esperam, vão gastando a olhar para o governo o tempo, que deverão empregar nas suas ocupações normais.

Este estado de coisas irá ter necessariamente no desespero geral, e o desespero tão terrível para quem o sofre como para quem o provoca.

É tempo de irmos dizendo ao país estas verdades, que são amargas; mas são salutares e podem conjurar a crise.

O governo só tem o dinheiro, que recebe das indústrias e só pode dispor dos braços, que habitam o nosso território.

Sua missão é garantir todas as indústrias, e não proteger umas à custa de outras, ou sustentá-las todas; porque são elas que o sustentam, e a alavanca não pode sustentar o ponto de apoio.

Empréstimos, papel-moeda, garantia de juros, etc., tudo se resolverá em impostos, que serão pagos pelas próprias indústrias, que os pedem, já agravados pelos juros e pelas diferenças de câmbio. Quando o governo se distrai com o que não é da sua conta, deixa de fazer o que é da sua obrigação.

Se há tanta falta de braços e tanto gosto pelas peles vermelhas, porque havemos de ir buscá-los na China, quando aí estão tantos em nossos matos a pedirem em catequese e civilização o que os nossos maiores lhes tomaram em terras e sossego?

E, se os ministros da religião oficial não se prestam a isso, que missão mais digna poderão eles exercer?

“Senhores, exclama o orador, a verdade é que para as necessidades de casa temos braços e capitais bastantes; o que falta é aplicá-los bem.”.

O norte exportou a flor da sua escravatura para o sul e nem sua produção diminuiu, nem a do sul cresceu em proporção. Por consequência, só faltam braços onde sobeja a preguiça.

Abolida a escravidão, a lei do trabalho continuará a pesar sobre os libertos, e o trabalho do homem livre é mais produtivo do que do escravo; contanto que se tomem providências enérgicas, para a alforria não seja um passaporte para a ociosidade.

Capitais também nos não faltam; o que falta é garantia para o capitalista neste regimen da soberania do calote.

Quando as indústrias pagam um juro de 12% a 24 % não se pode explicar de outro modo a afluência do capital para os títulos de 5% a 7% de juros, e até para as loterias do Rio de janeiro e São Paulo.

Deixemos, portanto, essas reformas de instituições de crédito, incapazes de restabelecerem a confiança do capitalista, que só precisa de justiça pronta, barata e certa, para fornecer às indústrias o capital, que elas esperam do estrangeiro.

Parte desses males indicados dependem do governo, mas outros muitos nascem do próprio povo, que ele não pode formar à sua imagem e semelhança.

Esses outros males carecem de ser estudados na própria fonte, no seio do país, e é sob este aspecto que eles serão considerados na conferência seguinte.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 61, n.204, p.1, 24 jul. 1882 (resumo). Capturado em 30 mar. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/6063  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.  

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 414. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1019

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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